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Memória

Vladimir Herzog: a memória do assassinato que tornou 25 de outubro um marco pela democracia

Há 51 anos, jornalista era torturado e morto pela ditadura, que tentou encobrir o crime com uma falsa versão de suicídio; sua memória inspira a defesa das liberdades e do direito à verdade

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em

Por Redação

Vladimir Herzog entrou no DOI-CODI de São Paulo em 25 de outubro de 1975 para prestar depoimento. Tinha 38 anos e era diretor de jornalismo da TV Cultura. Naquele mesmo dia, foi torturado e assassinado por agentes da ditadura militar. Para encobrir o crime, o regime apresentou uma versão falsa: a de que o jornalista havia cometido suicídio. 

Neste domingo, 25 de outubro de 2026, o assassinato completa 51 anos. A memória de Herzog permanece ligada à defesa da democracia, da liberdade de imprensa e dos direitos humanos. Sua história também expõe como o autoritarismo utiliza a mentira para tentar apagar a própria violência.

Por que 25 de outubro?

A associação da data à defesa da democracia nasce do assassinato de Herzog e da mobilização contra a ditadura que se seguiu. Lembrar o jornalista nessa data significa homenagear sua trajetória e reafirmar o compromisso de enfrentar a perseguição política, a censura e a tortura.

O Instituto Vladimir Herzog promove uma campanha pela oficialização do 25 de outubro como Dia Nacional da Democracia. A homenagem também fundamentou o projeto que propõe o Dia Nacional de Defesa da Democracia, aprovado pelo Senado em 2024. A escolha transforma a memória de uma violência cometida pelo Estado em um chamado à proteção das liberdades. 

Uma vida ligada ao jornalismo e à cultura

Herzog foi jornalista, professor e cineasta. Trabalhou na BBC, em Londres, e lecionou telejornalismo antes de assumir a direção de jornalismo da TV Cultura, em 1975.

Na véspera de sua morte, agentes do II Exército o convocaram para prestar esclarecimentos sobre seus vínculos com o Partido Comunista Brasileiro, então na clandestinidade. Ele se apresentou voluntariamente no dia seguinte. Sob custódia dos órgãos de repressão, foi preso, torturado e morto. 

A mentira para encobrir o assassinato

A versão divulgada pelos militares atribuía a morte a um enforcamento. Uma fotografia do corpo na cela foi apresentada como suposta prova de suicídio.

Segundo o Arquivo Nacional, testemunhos de jornalistas presos no local apontavam que Herzog havia sido assassinado sob tortura. Mesmo assim, o inquérito policial militar instaurado na época confirmou a narrativa de suicídio. O aparato estatal que deveria esclarecer o crime sustentou seu encobrimento. 

A violência alcançava também a família: além da perda, era necessário enfrentar uma versão oficial que escondia a responsabilidade dos agentes da repressão.

O luto que se tornou resistência

Clarice Herzog e os filhos, Ivo e André, contestaram judicialmente a narrativa do regime e buscaram a responsabilização do Estado.

Em 31 de outubro de 1975, milhares de pessoas se reuniram na Catedral da Sé, em São Paulo, para um culto ecumênico em memória do jornalista. A celebração teve à frente Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright. Em meio à repressão, o encontro tornou-se um marco da resistência à ditadura. 

O assassinato, que o regime tentou esconder, provocou uma manifestação pública de indignação e solidariedade.

Décadas para corrigir os documentos

Em 1978, ainda durante a ditadura, a Justiça Federal responsabilizou a União pela prisão ilegal, tortura e morte de Herzog. A correção do registro de óbito, porém, demoraria décadas. 

Em 2012, a Justiça paulista determinou a retificação do documento, por iniciativa da Comissão Nacional da Verdade e a pedido de Clarice Herzog. A certidão entregue à família em 2013 reconheceu que a morte decorreu das lesões e dos maus-tratos sofridos durante o interrogatório. 

Em outubro de 2025, uma nova certidão retificada foi entregue em cerimônia na Universidade de São Paulo. A atualização integrou o processo de reconhecimento expresso da responsabilidade do Estado nas mortes de vítimas da perseguição política durante a ditadura. 

Um crime contra a humanidade

Em sentença de 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos considerou a tortura e o assassinato de Herzog um crime contra a humanidade. O tribunal condenou o Brasil pela falta de investigação, julgamento e punição dos responsáveis e determinou a retomada das apurações. 

A decisão evidencia que reconhecer a verdade histórica e responsabilizar criminalmente os autores são deveres distintos. Corrigir documentos representa uma reparação fundamental; investigar e fazer justiça também são obrigações do Estado.

Um compromisso com o presente

Preservar a memória de Vladimir Herzog exige mais do que recordar seu nome. Exige compreender os mecanismos que permitiram sua morte: a perseguição política, a tortura, a censura e a tentativa de impor uma mentira como verdade.

Sua história reafirma por que o jornalismo precisa investigar o poder e confrontar versões oficiais. E por que uma sociedade democrática precisa garantir a liberdade de informar, criar, questionar e discordar.

Para o Jornal A Cena, lembrar Herzog é assumir esse compromisso no presente. A defesa da democracia também se faz pela memória, pela cultura e pela recusa em naturalizar a violência.

Sem memória, não há democracia.

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