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7 palcos em que a política foi parte do show

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Black Pantera no palco do Psycho Carnival: o trio mineiro faz do antirracismo parte do repertório.
Black Pantera no palco do Psycho Carnival: o trio mineiro faz do antirracismo parte do repertório.
Por Maria Eduarda Schwab

Toda vez que um evento levanta uma bandeira, aparece alguém para dizer que “show não é lugar de política”. A frase é confortável, mas não resiste aos fatos.

A frase é velha, e a história da música desmente ela desde que o mundo é mundo. Do punk ao sertanejo, do rock de garagem ao rodeio, poucas coisas mobilizam tanto quanto um palco que escolhe um lado.

A lista abaixo junta festas, festivais, bandas e shows, de Curitiba ao mundo e dos dois lados do espectro, em que a política subiu ao palco.

 

– Psycho Carnival (Curitiba, desde 2000)

Curitiba tem um laboratório disso funcionando há 25 anos. O Psycho Carnival nasceu como refúgio dos roqueiros no feriado de carnaval e virou um dos festivais de psychobilly mais respeitados do mundo.

No caminho, foi acumulando escolhas que não são neutras: estande contra assédio em parceria com o Instituto Todas Marias, bandas como o Black Pantera, que leva o antirracismo para além do repertório, e debates sociais na programação, quase sempre colados a shows. A vocação formativa existe desde 2009, quando o festival trouxe Pablo Capilé, conhecido agitador cultural criador do Circuito Fora do Eixo e Mídia Ninja, a Curitiba para falar sobre circuito independente e remuneração de bandas.

Em 2007, o ingresso custava R$ 25. Na edição de 2026, havia pacotes à venda por até R$ 420, reflexo de passagens mais caras, dólar alto e inflação, mas também da valorização do evento. “Quem é o grande financiador do festival é o público”, resume Vlad Urban, idealizador do Psycho Carnival.

 

– Psicodália (Paraná e Santa Catarina, desde 2003)
O Paraná também exportou essa receita para a serra. O Psicodália nasceu em 2003 a partir de uma turma de amigos e virou um dos maiores festivais independentes do país. Desde o começo, escolheu o lado da contracultura, natureza preservada, diversidade e, por muitos anos, a recusa de patrocínio público ou privado.

Em 2017, mais de 6 mil pessoas pagaram para acampar seis dias num festival em que chuva é quase certeza, sustentando sozinhas a conta. Em 2024, já em Rio Rufino, na serra catarinense, a inteira custava R$ 1.558. Nenhuma plateia paga isso só por line-up. Aqui, a bandeira não foi um custo do festival. Foi o próprio modelo de financiamento.

 

– Roger Waters no Allianz Parque (São Paulo, 2018)
Às vésperas da eleição, o ex-Pink Floyd projetou “Ele Não” no telão para cerca de 45 mil pessoas, com ingressos de até R$ 810.

A plateia ferveu entre vaias e aplausos, e parte do público foi embora antes do fim. Waters não recuou: a turnê passou pelo Couto Pereira, em Curitiba, na véspera do segundo turno, e anos depois ele passou a abrir os shows mandando quem discorda das suas opiniões ir para o bar.

 

– Festa do Peão de Barretos (Barretos, SP)
A vitrine da direita brasileira. O setor do rodeio abraçou Bolsonaro depois que ele usou a arena, em 2019, para anunciar um decreto favorável aos eventos.

Mas nem todo mundo quis o rótulo: em 2022, os sertanejos do palco principal fugiram de qualquer pergunta sobre política, e em 2023 a própria organização debateu quanto espaço dar ao ex-presidente.

Neste ano, a passagem de Flávio Bolsonaro pela festa terminou com pedido de inelegibilidade na Justiça Eleitoral. Bandeira atrai público, mas também atrai processo.

 

– Os Reaças (Curitiba, 2015)
O lado B da música de protesto curitibana, dizem alguns. O músico Eder Borges e o publicitário Luiz Trevisani formaram uma banda posicionada bem à direita e lançaram o Hino do Impeachment na manifestação de 15 de março de 2015.

Nunca foi fenômeno de bilheteria, mas o capital acumulado foi outro. Borges virou presença constante nos eventos da direita na cidade e, em 2020, foi eleito vereador com 3.932 votos. Às vezes, o retorno do posicionamento não aparece no ingresso. Aparece na urna. Acreditem.

 

– Outubro Vermelho (Curitiba, 2025 e 2026)

Se o Psycho Carnival chegou à política pelo rock, o Outubro Vermelho faz o caminho inverso. Já nasce com bandeira e cor no nome.

Em 2026, o festival acontece em Curitiba e leva shows intercalados com rodas de discussão sobre Cuba, zapatismo e luta antifascista, uma exposição com obras de mais de 100 artistas de 29 países pelo centenário de Fidel Castro e uma fala do fotógrafo João Urban, que registra greves e passeatas desde os anos 1960.

No palco principal, os Garotos Podres, cujo vocalista, José Mao Jr., dá um seminário sobre a Revolução Cubana um pouco antes do show.

 

– Glastonbury (Inglaterra, desde 1970)
O exemplo mais maduro de causa como parte do produto. O maior festival de música a céu aberto do mundo tem a Oxfam, Greenpeace e WaterAid como parceiros fixos há décadas, e em 2024 o festival destinou mais de 5,9 milhões de euros a causas e campanhas. No foco, estão pautas ambientais, climáticas, trabalhistas e debates eleitorais independentes.

A militância não espanta o comprador, muito pelo contrário. Os ingressos de 2025 esgotaram em 35 minutos.

Nesta mesma edição, no show do duo punk Bob Vylan, o vocalista puxou um coro de “morte às IDF”, as Forças de Defesa de Israel, a corte abriu investigação contra ele e contra o trio irlandês Kneecap, também por falas no palco. Os dois casos foram arquivados, mas o Bob Vylan perdeu o visto americano e foi cortado de outros festivais.

O que separa os casos que deram certo dos que deram errado não é o lado político. É a coerência. Quem sustenta as mesmas escolhas por décadas constrói um público que não vai embora quando a bandeira é hasteada.

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