São Paulo
Itinerário da ausência ou perspectiva para fora de nós
É um conjunto de sensações que é de todos nós, e com uma leveza que só o encontro entre as pessoas consegue colocar a sensação não é mais de estar num teatro, muito menos numa visita guiada, e sim de estar numa sala de casa, num barzinho, num café, enfim, num espaço acolhedor.
Foto: Hudson Rennan
Por gabriel m. barros
Queria começar pelo começo que é antes do início: Do anúncio que Johnny Massaro estaria no Sesc Pinheiros atuando na peça, idealizada por ele, A gente mira no amor e acerta na solidão, inspirado livremente na obra de Ana Suy, obra essa que amplamente vendida. A combinação já indicava muita coisa. Em mim, particularmente, um frenesi de quem fica curioso desse encontro do teatro com o trabalho de uma psicanalista, mas muito mais curioso em ver mais uma vez de perto a atuação de Massaro, que eu particularmente tenho grande apreço.
A nova etapa foi a compra do ingresso, que esgotou como se fosse um pop-star internacional se apresentando em qualquer estádio paulista. Realmente os ingressos voaram. O evento antes mesmo de nascer já era grande.
Findada as duas notas que antecede o início, parto para o depois do fim: tenho lido ultimamente Pascal, famoso dentre muitas coisas pela frase “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. SegundoFranklin Leopoldo e Silva na introdução da obra Pensamentos de uma das coleções da Folha, o filósofo francês trabalha com a dicotomia presente no próprio homem, do quanto dentro dele há grandeza (por ser fruto divino) e miséria (por ter escolhido o pecado). Obviamente que a concepção é religiosa, mas o autor vai além, há algo no seu trabalho, e que a frase sintetiza muito bem, que a nossa lógica não consegue dar conta sobre nosso próprio sentir.
É a Bíblia, já que mencionei-a, que vai situar que o coração do homem é enganoso (na realidade é Jeremias, o profeta mais sentimental, conhecido por ser chorão). O coração, assim, tem algo de escorregadio, de perigoso. É bem aí, que a personagem central resolve, como guia turístico que é, guiar a plateia, público visitante, pelo coração.
Sempre se perdendo em devaneios e em informações que o próprio coração o alerta serem em demasia e que cansaria o público, a personagem desse monólogo vai entre informação, relato pessoal, e um quê de perdido, situando-nos sobre esse órgão, que representa onde se está o amor pelos poetas, que é emoji, enfim, uma porção de coisas para além do próprio órgão.
O devaneio feito por mim, tentando dialogar com a personagem, ligando começo e fim pra depois registrar o meio, é para sinalizar que mesmo se na concepção da peça a ideia era trabalhar essa dicotomia do homem abordada por Blaise Pascal, o que Massaro faz em cena é isso: é uma personagem na corda-bamba, nervoso por iniciar uma nova exposição, receoso de não errar o itinerário e também de ser visto por alguém que há de chegar. Muito dessa jogada interessantíssima se deve a dramaturgia feita pela Júlia Portes.
Ainda sobre a personagem: ela oscila no sentir, precisa se controlar o tempo todo, está no limite da própria angústia e numa fase aberta para se conhecer. Como dar corpo, voz e sentimento pra tudo isso? O que sei é que Johnny consegue. Seu rosto e corpo captam bem a angústia, a alegria, a descoberta, o recuo, o devaneio, o desespero, o amor. Isso também é uma demonstração do trabalho belíssimo de direção feito por Helena Varvaki e da preparação corporal de Esther Weitzman.
É um conjunto de sensações que é de todos nós, e com uma leveza que só o encontro entre as pessoas consegue colocar a sensação não é mais de estar num teatro, muito menos numa visita guiada, e sim de estar numa sala de casa, num barzinho, num café, enfim, num espaço acolhedor. A vontade de abraçar a personagem é também de nos darmos um abraço.
Volto ao fim: sai com a impressão de que num tempo em que os corações, e os sentires de modo geral, andam exaltados, raivosos e até incontrolados pelo ódio que se espalha e contamina, falar de amor segue sendo revolucionário, segue nos provocando a compreender que nossa solidão é, talvez, por não olharmos para o lado e acolhermos os solitários nessa comunidade de pessoas que estão sempre marcadas por suas ausências. Nesse aspecto, Massaro nos conduz virtuosamente nesse itinerário das ausências.
Finalizo com uma impressão pessoalíssima: começar e retomar algumas vezes na dramaturgia a música Metade, da Adriana Calcanhoto, é muita covardia.

