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Cultura

Falsos prêmios e a polêmica que expõe a gastronomia curitibana

Publicado

em

Por Socorro Oliveira

Toda temporada de premiações gastronômicas em Curitiba reacende a mesma pergunta de bastidor, dita baixinho entre chefs, verdadeiros formadores de opinião e frequentadores reais: quem ganha esses troféus é porque cozinha bem, vende bem seu peixe… ou ganha porque investiu verba nos “projetos editoriais” (sic) de quem faz o prêmio?

Neste ano, a pergunta saiu do sussurro e foi parar no feed de uma das críticas gastronômicas mais influentes da cidade.

Ela estudou gastronomia, construiu carreira em outra área e faz crítica por vocação. Faz questão de ser voz independente dentro de um nicho que parece só fazer eco.

Ir contra o coro, por aqui, rende público. Reúne dezenas de milhares de seguidores justamente por fazer o que quase ninguém se dispõe a fazer. Reprovar, com nome e sobrenome, casas badaladas no universo online.

Vencedor e fornecedor da mesma festa

O estopim foi uma premiação recente, idealizada por um veículo de comunicação que já não comunica nada há algum tempo. Em seus conteúdos, a crítica apontou o que chamou, com ironia, de “coincidência”: os restaurantes que colecionam prêmios, mesmo servindo comida mediana (e às vezes ruim), costumam ser os mesmos que compram páginas inteiras, duplas e banners na revistinha impressa. Alguns ainda assinam o buffet da própria cerimônia.

Vencem e, de quebra, fornecem a festa que os coroa. Quando o vencedor vira fornecedor da premiação, a receita já nasce com o tempero errado.

Palavra-chave para discurso limpo

Em entrevista exclusiva ao Jornal A Cena, a crítica falou com conhecimento de causa. Integrou o comitê da premiação por anos e viu de perto como a coisa funcionava. Já naquela época, o troféu tinha menos a ver com o prato e mais com a convivência.

Venciam os amigos, os das mesmas rodas e dos mesmos churrascos. E, muitas vezes, o vencedor sequer havia sido citado pelo júri. Acima dos jurados, conta, funcionava uma instância interna do próprio veículo, que decidia por conta própria e passava por cima das indicações de quem era convidado para avaliar. “Ninguém tinha citado quem ganhou”, resume, sobre alguns dos premiados.

A crítica conta ter ouvido de dois donos de restaurante, hoje amigos dela, como a coisa funciona: uma representante comercial, presencialmente, teria oferecido um pacote de anúncios mensais com uma contrapartida nada sutil.

Quem fechasse “já entraria como revelação”, a categoria coringa da premiação. A partir daí, bastou cruzar a revista com a lista de vencedores. “Está tudo ali. É só ver quem anunciou e quem ganhou.”

A palavra-chave que circula no meio, segundo ela, é o convite para “entrar no circuito” do veículo, um código que mantém todo mundo com o discurso limpo, porque nada é posto no papel.

E isso não tem nada de acaso. A conversa é sempre pessoal, sem e-mail, sem contrato, sem rastro. Se um dia vier à tona, sobra a palavra de um contra a do outro, e quem promove o prêmio sai ileso.

 

“É tipo leilão”

E há uma hierarquia, garante. Pagar o básico rende indicação, não troféu. “É tipo leilão. Se você pagar mais, aí você é o que vai ganhar.” Não por acaso, o número de categorias virou uma fábrica: quanto mais prêmios existem, mais gente pode ser cobrada. “Tem até a do bolinho azul com a bolinha preta em cima.”

Não faltam histórias no meio: estabelecimentos que abocanham o troféu e, semanas depois, fecham as portas por falta de cliente, e os poucos que apareciam saíam de lá reclamando. Que sucesso é esse?

Para a crítica, é esse mecanismo que trava a cena: quem faz um bom trabalho não vence, desmotiva, perde cliente e fecha.

“E daí a gente fica no mesmo ciclo eterno do mignon com massa.” Pior ainda, diz ela, é a casa que “ganha na compra”, economiza no insumo ruim e empurra a conta para o cliente. “É o que mais tem.”

Não foi um caso isolado. A crítica relatou receber, desde então, uma enxurrada de mensagens repetindo a mesma suspeita, resumida na pergunta de uma seguidora: “É impressão minha ou todos os estabelecimentos que pagam estão sempre nas premiações?” Dias antes, ela já havia previsto que um dos restaurantes queridinhos dos influenciadores levaria o prêmio. E não deu outra. “Não tive acesso ao resultado”, afirmou. “Mas não precisava de meio neurônio para saber que isso iria acontecer. É o modus operandi que acontece há anos.”

Hype comprado, plateia que não existe

Vale explicar a engrenagem para quem está de fora. Boa parte do burburinho que antecede essas premiações não nasce do prato, nasce de convite. Agências e assessorias chamam criadores de conteúdo para jantares de cortesia, a chamada “permuta”: o influenciador troca a refeição gratuita por publicações. E o mais irônico é que o dinheiro some sem retorno.

Muitos desses perfis reúnem dez curtidas em seis horas de post, e a própria divulgação anual do veículo, com mais de cem mil seguidores, mal passa de mil curtidas, menos do que ela faz numa crítica qualquer. Ou seja, os restaurantes queimam rios de dinheiro em jantar grátis para um público que não existe, em vez de pagar um bom cozinheiro.

Sem prova, mas com padrão

Há uma ressalva que precisa ser feita, e a própria crítica faz questão dela. Não há, até agora, prova de que um envelope tenha trocado de mãos ou de que uma pessoa específica tenha embolsado dinheiro por fora. Para ela, ninguém ali está enfiando cédula no bolso: o esquema foi “construído para ser dessa forma”, estrutural, dentro da própria empresa. O que existe são indícios, coincidências, relatos convergentes e a percepção acumulada de quem acompanha o setor de perto há muitos anos.

E o problema é justamente estrutural. É comum, no jornalismo atual, prêmios gastronômicos serem organizados por veículos cujo modelo de negócio inclui vender publicidade, conteúdo patrocinado e presença editorial aos mesmos estabelecimentos que depois disputam suas categorias. Não existe muro separando a área comercial da análise do júri.

Compliance é uma palavra feia e inexistente por aqui. A metodologia divulgada fala em “indicação pública” e “júri especializado”, mas não torna público quem são os jurados, como votam, nem se um anunciante ativo leva vantagem.

Voto de cabresto

Some a isso o voto popular, que talvez seja a parte mais indefensável. O regulamento proíbe pagar por voto, mas permite oferecer um brinde no ato da compra a quem votar. Traduzindo: um voto de cabresto, prática banida das urnas brasileiras há mais de um século, ressuscitado e chancelado em letra miúda. Nesse jogo, uma rede que serve duzentas mil refeições por dia e distribui brindes à vontade não compete com a pequena parrilla que mal fecha a conta do mês.

A plaquinha escondida

Segundo a crítica, o descrédito já contaminou os próprios vencedores. Muitos restaurantes, conta ela, passaram a esconder a plaquinha de premiado, aquele selo que um dia enfeitava balcões com orgulho. Sacaram que o troféu não diz mais nada ao cliente e que, pior, pode depor contra a casa.

Para quem acompanha o assunto, exibir o selo deixou de ser um atestado de qualidade e virou quase uma confissão de que o lugar entrou no jogo. Pagando para ser o melhor.

O resultado, no fim, não é o retrato de quem cozinha bem. É por isso que a crítica decidiu recusar os convites para participar da própria premiação. “Não quero mais emprestar minha credibilidade para eles.”

Fora da bolha, nós, meros mortais, perdemos. O senso crítico. A chance de criar e documentar histórias reais de um segmento tão forte no nosso estado. A ideia de construir um cenário gastronômico e cultural onde o troféu signifique comida boa, e não mídia paga. Onde o prêmio, enfim, valha algum mérito.

 

 

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