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São Paulo

Ai, o artista!

Se o artista é sempre essa figura que de tempos em tempos é confrontada, seja pelo seu fazer, seja pelas suas escolhas, a peça parece nos lembrar que na arte tudo é também escolha, por isso mesmo que pode favorecer o coletivo ou não.

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Foto: João Caldas

Por gabriel m. barros

​De um lado, na passagem entre os séculos XIII e XIV temos Dante Alighieri que, a partir da morte precoce de Beatriz, constrói toda sua obra enaltecendo e reconhecendo esse amor. Do outro, a história que não se sabe se verdadeira, de Camões, já no século XVI, de que preteriu a amada para poder salvar os manuscritos dos Lusíadas. Aqui, apesar do mirabolante sobre a obra do poeta português, o que quero destacar com os dois exemplos é que a própria vida coloca em cena o dilema do artista com sua “musa”, com aquela que ele confessa amor, e como isso interfere e incide sobre o seu fazer. Nesse quesito, o que se coloca é: vale mais ao artista sua obra ou quem lhe inspira a produzir essa obra? 

Me parece que é deslocando essa pergunta que se ergue a dramaturgia de Henrik Ibsen para a peça Quando despertamos de entre os mortos, que iniciou temporada em São Paulo no Sesc Pinheiros a partir do dia 08 de outubro, contando com um grande elenco, desde a direção de Elias Andreato e com os consolidados atores que compõem o elenco.

​O despertar seria a vingança? Ou o reencontro com a musa, com aquela que tem “as chaves dos seus segredos de artista”? O quanto se perde nesse tempo de distância entra as personagens e o desenrolar da história? Quanto machucado e desconforto já causaram e sofreram? O fato é que todos estão entorpecidos pela continuidade da vida. O prosseguir é em si a própria morte. 

Numa cenografia estonteante de Sylvia Moreira, que nos transporta para a Noruega do século XIX, somos arrastados para o reencontro do artista com aquela que o inspirou a fazer sua obra-mestra. Desse encontro, os atores em cena dão vida para o dilema do artista incompreendido, que passa por cima do próprio sentir para poder criar. 

Vi na estreia e me pareceu que os atores ainda estavam se ajustando ao texto: em alguns instantes a peça acelerava, em outras ia numa cadência mais morosa, de forma alguma isso demonstra insegurança, mas de fato um contato que se dá com o público, suas reações e esses ajustes que se dão no cotidiano. Isso não diminui em nada o gigantismo dos atores: Celso Frateschi oscilando entre o tom paternalista e do artista apaixonado apenas pelo seu fazer, demonstrando o quanto a personagem principal era dúbia; Maria Fernanda Candido fantasmagórica que só, cria tensão apenas se movendo em cena, sua frieza deixa o público no aguardo duma grande explosão, que é o tempo todo retardada, uma escolha feliz e que prende a atenção; Maria Manoella está absoluta, com uma personagem um tanto quanto difícil, ainda torna-a crível aos nossos olhos (a forma volátil como ela se entrega no texto me faz ter um pé atrás, que é surpreendentemente contornado pela atuação excelente de Manoella); Angelo Brandini tem uma atuação rápida, deixa um gosto de quero mais. Fernando Nitsch nos faz lembrar daqueles grosseirões, ao mesmo tempo que o trato com a natureza demonstra sua vulnerabilidade humana. 

Se o artista é sempre essa figura que de tempos em tempos é confrontada, seja pelo seu fazer, seja pelas suas escolhas, a peça parece nos lembrar que na arte tudo é também escolha, por isso mesmo que pode favorecer o coletivo ou não. Essa lembrança é um acerto, sobretudo em tempos que parte da classe artística parece defender uma pureza de sua arte, não tomando posição nesse espaço de trincheiras que vivemos agora. Ademais, sempre pertinente verificar se também não nos aproximamos desse estado de quem desvaloriza o humano para salvaguardar alguma pureza da arte, ideia que desde o século XIX já era contestada.

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