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São Paulo

Não lugar em mim

​A peça é quase um convite para um reino encantado, que parece longe demais de nós, porém à medida que a encenação avança, percebemos que Confuzo somos nós, que tem escuridão em nós, que as árvores em nossas cabeças estão secas como a da personagem e que há um mundo querendo nos tragar.

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Foto: Renato Mangolin

Por gabriel m. barros

​Ao menos do lado de cá, sempre me percebo, talvez como leitor de Clarice, como alguém que sempre me escapo, alguém que não me explico, alguém com reticências demais. Quanto mais histórias sei (minha e dos outros), quanto mais vivo, exploro, experimento, sinto, pressinto, volto, avanço, enfim existo, parece que tudo se torna mais turvo, complexo, extenso. 

​A filosofia parece ser mais certeira ao explicar que eu só me reconheço no Outro, que eu sou um Outro em mim também, que eu sempre me observo como estrangeiro de mim mesmo e que também eu só vou me entendendo à medida que reconheço e sou reconhecido por terceiros. Então a tarefa é estar atento para como nos percebem, como nos descrevem e como nos decifram.

​Porém, e sempre há um porém não?, normalmente, numa sociedade apressada, com valores muito peculiares que tentam atribuir aos outros essa percepção sem uma aproximação real, sem uma real experiência. 

​Creio que é sobre isso, mas não só, que trata a peça Confuzo (está escurecendo em mim), da genialíssima Cia Dos à Deux. Dos trabalhos já acompanhados da companhia, este tem um acréscimo que me surpreendeu: para além da execução fabulosa, da cenografia belíssima e dum trabalho gestual que é sempre de embasbacar e de elevar a nossa percepção sobre o que pode o corpo humano, desta vez a dupla parte para o texto oral. 

​A personagem principal é de antes, é de tempos que não se sabe, persona que já estava numa terra antes mesmo desta ter as fronteiras (externas e, sobretudo, internas) que possuí. É um indivíduo fantástico por excelência, nasceu, não se sabe como, em sua cabeça uma árvore. A peça trata da sociedade que trata esse ser como um estranho, como alguém não bem-vindo e exigindo que ele se retire de lá. Ele, por sua vez, tem uma árvore na cabeça e raízes naquele solo, quer ficar ali mesmo não sendo indesejado. É levado a julgamento por isso. 

​A peça demonstra esse processo do olhar e julgamento alheio sobre um terceiro e a forma como vão confundindo, apagando o peculiar da própria individualidade, ilustrando o quanto uma sociedade tenta com todos os seus recursos possíveis e simbólicos conformar, amordaçar e padronizar corpos, ideias, existenciais. A personagem resiste, ao mesmo tempo que sofre, ou sofre justamente por resistir. 

​Há toda uma beleza que a companhia consegue tecer brilhantemente, contudo há também um peso, um susto, algo que deixa o espetáculo todo em suspenso, entalado em nós. A dúvida sobre locais que fixamos raízes e que fazem de tudo para que o abandonemos. A dúvida de quaisrazões termos raízes nesses lugares. O medo de saber que aqueles que nos veem tantas vezes podem nos odiar do dia para a noite simplesmente por sermos quem somos. A força que há nos nossos silêncios e em prosseguirmos existindo. 

A peça é quase um convite para um reino encantado, que parece longe demais de nós, porém à medida que a encenação avança, percebemos que Confuzo somos nós, que tem escuridão em nós, que as árvores em nossas cabeças estão secas como a da personagem e que há um mundo querendo nos tragar. Quero crer que, como as árvores se comunicam, se auxiliam e criam toda uma rede de contato por suas raízes, que essa seja a lição. Para quem assistiu, ou vai assistir ainda a peça, me parece que esse momento acontece naquela cena-convite do fim do espetáculo, que não explico aqui, mas deixo evidente esse grito de liberdade que aparece ali e no convite para se avançar em grupo.    

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