Crítica Teatral
Estreitar
Brichta, que é um ator sublime, tem um crescente nessa peça que vai deixando o público vidrado e quase indo para a ponta da cadeira querendo abraçar esse pai.
Foto: Júlia Mataruna
Por gabriel m. barros
É inevitável, a temática está em todo lugar, a sensação de que se está num conflito de trincheiras, em que passo a passo, pessoa por pessoa, acaba contando. Sim, é do tema mais falado desses dias no Brasil que estou mencionando: as eleições. Queria destacar o movimento de virada de votos. São várias as estratégias adotadas para isso, e sim, teatro é política, e também ferramenta para se pensar num país mais justo, democrático, inventivo, penso que a crítica também, por isso começo por esse preâmbulo.
Há um ponto em comum entre o que se faz na tentativa de virada de votos e o que se faz num palco: estreitar laços, estreitar e diminuir distâncias, estreitar proximidades para se ver mais de perto as diferenças, as nuances, se expor, ver e ser visto numa proximidade em que a segurança está quase por um triz, e nisso algo de muito mágico e intensivo acontece.
Walter Benjamin, no seu texto Experiência e pobreza, que particularmente gosto muito, retrata que os homens ao voltarem da Primeira Guerra Mundial não conseguiam colocar em palavras o que estava acontecendo. Daí a pobreza, daí o que ele indica que uma geração não passa sua experiência para a mais jovem. Assinalado isso, queria voltar a metáfora do conflito de trincheiras e indagar: e durante o conflito, que história acontece ali?
Na nossa atualidade, é abrir as redes sociais e ver muita coisa sendo contada, sendo veiculada, e um algoritmo e uma empresa que se nega a entregar para as pessoas. A guerra de trincheiras ao fim, não é contra pessoas, mas sim contra uma estrutura virtual que opera a bel prazer para garantir seu máximo lucro atemporalmente.
Friso alguns tópicos para voltar ao teatro: estreitar, experiência, contar/narra.
Em O menor palco do mundo, peça em cartaz no teatro Vivo, com texto de Kim Crotty, autor australiano, e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, sendo a direção de Reis, temos Vladimir Brichta dando vida a esse monólogo, que parte da prisão de um homem, pai de duas crianças e se vendo cheio de saudades e sem saber como chegar a seus filhos.
É a partir dessa premissa que a peça se desenrola e recupera a beleza de contar história, pois é essa a saída que esse pai encontrará: mandar histórias para os seus filhos. Se Sheherazade contava histórias para sobreviver, Kim (a história é real e ocorreu com o autor) a conta para estreitar espaço com seus filhos e diminuir a distância. A peça nesse sentido é um exercício de imaginação pra todos nós, é de uma beleza diante dessa agressividade toda que tem permeado nosso país, que deixa as coisas em suspenso.
Tratando ainda dessa agressividade que sempre se avizinha pelo país, a peça também tem cenas em “off”, por assim dizer, em que Brichta conversa com a plateia e nos conta sobre si, lendo uma carta que sua mãe escreveu enquanto esteve presa na ditadura militar. Esse movimento, em certo sentido, me fez lembrar da dramaturgia de Sergio Blanco, em que o ficcional e o real se embrenham o tempo todo e um acaba sendo vetor para o outro.
No mais, Brichta, que é um ator sublime, tem um crescente nessa peça que vai deixando o público vidrado e quase indo para a ponta da cadeira querendo abraçar esse pai. Dada parte, por exemplo, o texto toca sobre o monstruoso que há nesse homem e no quanto nós, que vamos com roupa de teatro para o teatro, queremos nos afastar disso. É uma cena poderosa, pois ao mostrar o monstruoso, lembra que ele se avizinha e que também está em nós.
Em tempos que narramos muito, mas narramos muito uma realidade pesada e quase irrespirável, o teatro nos põe em suspenso e nos faz imaginar, sonhar outra vez e mais: estreitar tanto os laços que coloca todo mundo no menor palco do mundo (que não revelo o que é, para instigar as pessoas a verem que doçura de metáfora).

