Cinema
Val Kilmer foi perfeito como um Jim Morrison que talvez nunca tenha existido
Em The Doors, ator mergulhou durante meses na voz, nos gestos e na personalidade de Jim Morrison. O resultado se tornou uma das interpretações mais marcantes do cinema musical, mesmo que o filme de Oliver Stone tenha sido contestado por quem conheceu o verdadeiro vocalista.
Por redação
Há momentos em The Doors – O Filme em que é preciso lembrar: aquele homem no palco não é Jim Morrison. É Val Kilmer.
Lançado em 1991 e dirigido por Oliver Stone, o filme ajudou a apresentar The Doors a uma nova geração e consolidou no imaginário popular uma imagem de Morrison que permanece até hoje: o poeta atormentado, provocador, sexy, imprevisível e permanentemente à beira da autodestruição.
Para chegar até ele, Kilmer não se limitou a deixar o cabelo crescer e vestir calças de couro.
Antes mesmo de conquistar o papel, o ator gastou dinheiro do próprio bolso para produzir um vídeo de aproximadamente oito minutos no qual aparecia caracterizado como Morrison em diferentes momentos da vida. Era uma espécie de prova: Kilmer queria mostrar a Oliver Stone que poderia atravessar as diferentes fases do vocalista.
Conseguiu.
A partir daí começou um processo de imersão que se tornaria quase tão conhecido quanto o próprio filme.
Não bastava parecer com Jim Morrison
Durante cerca de seis meses, Kilmer ensaiou diariamente as músicas dos Doors. Aprendeu aproximadamente 50 canções, embora apenas uma parte delas fosse necessária para o filme.
E cantou.
Paul Rothchild, produtor que trabalhou nos discos clássicos dos Doors e participou da preparação do ator para o longa, passou centenas de horas ao lado de Kilmer. O trabalho não se restringia à música.
Kilmer queria entender como Morrison falava, se movimentava e reagia. Fazia perguntas sobre situações aparentemente insignificantes: o que Jim faria diante disso? Como responderia àquilo? Como se comportaria?
A tentativa não era apenas reproduzir os gestos de Morrison. Era encontrar alguma lógica por trás deles.
O resultado vocal foi impressionante. Rothchild chegou a colocar gravações de Morrison e de Kilmer para integrantes dos Doors tentarem descobrir quem estava cantando. Segundo o produtor, eles nem sempre acertavam.
No filme, a voz que ouvimos durante diversas performances não é simplesmente a gravação original de Morrison colocada sobre a imagem do ator. Kilmer realmente canta.
Talvez por isso algumas cenas provoquem uma sensação tão estranha. Por alguns segundos, ator e personagem parecem ocupar o mesmo lugar.
Mas é justamente aí que The Doors começa a ficar mais interessante.
Afinal, qual Jim Morrison?
Quanto mais Kilmer pesquisava, mais encontrava versões diferentes do mesmo homem.
As pessoas que haviam convivido com Morrison não descreviam necessariamente a mesma pessoa. Para alguns, era o poeta. Para outros, o amigo. Havia o provocador, o bêbado, o intelectual, o homem tímido, o sujeito difícil, o símbolo sexual, o artista.
Então surge uma pergunta inevitável em qualquer cinebiografia:
quem é a pessoa verdadeira quando cada testemunha guarda uma versão diferente dela?
Oliver Stone fez sua escolha.
Seu Morrison é excessivo. Vive entre sexo, álcool, drogas, poesia, morte e uma espécie de permanente desejo de ultrapassar qualquer limite.
É uma construção cinematográfica fascinante.
O problema é que nem todos que conheceram Jim Morrison reconheceram aquele homem.
O Jim Morrison que Ray Manzarek não reconheceu
Ray Manzarek, tecladista e cofundador dos Doors, tornou-se um dos críticos mais contundentes do filme.
Para ele, Stone havia exagerado justamente o lado autodestrutivo de Morrison e transformado uma parte da personalidade do cantor em praticamente toda a personagem.
Manzarek argumentava que o amigo que conheceu também era engraçado, inteligente e capaz de ser caloroso — características que, na visão dele, desapareceram diante do Morrison sombrio construído pelo filme.
E existe uma ironia maravilhosa nisso tudo.
Quanto mais perfeita parece a interpretação de Val Kilmer, mais fácil é acreditar que estamos conhecendo Jim Morrison.
Mas talvez estejamos conhecendo principalmente o Jim Morrison de Oliver Stone.
É uma diferença importante.
Quando o cinema ocupa o lugar da memória
Cinebiografias têm um poder que biografias escritas dificilmente conseguem reproduzir: elas nos dão um rosto em movimento.
Depois de assistir a Joaquin Phoenix como Johnny Cash, Rami Malek como Freddie Mercury ou Austin Butler como Elvis Presley, pode se tornar difícil separar determinadas imagens dos artistas reais das imagens criadas pelo cinema.
Com Val Kilmer, isso talvez seja ainda mais radical.
Sua semelhança física com Morrison, somada à voz, aos movimentos e à intensidade da interpretação, criou uma representação extremamente convincente. Para muita gente que descobriu os Doors depois de 1991, aquele foi um dos primeiros encontros com Jim Morrison.
E aí existe algo fascinante sobre o cinema.
Val Kilmer passou meses tentando desaparecer dentro de Jim Morrison.
Conseguiu.
Mas o homem que surgiu do outro lado talvez nunca tenha existido exatamente daquela maneira.
Existiu Jim Morrison.
Existiram as lembranças de quem conviveu com ele.
Existiu a interpretação de Oliver Stone sobre essas lembranças.
E então existiu Val Kilmer.
Trinta e cinco anos depois do lançamento de The Doors, talvez essa seja uma das razões pelas quais sua atuação continue tão impressionante: Kilmer não apenas interpretou um astro do rock.
Ele ajudou a criar uma versão de Jim Morrison que o cinema transformou em memória.

