Crítica Teatral
Ler a Lia
A escolha cênica dessas cenas retoma algo que só o teatro faz: que é a singeleza e graça do fazer junto.
Por gabriel m. barros
Ler é a basilar na cultura ocidental. Para aqueles que são da cultura, reiteradamente ouvem ou leem frases como “mas tal texto não chegou a nós” ou “tal texto só possuí fragmentos”. A verdade é que até textos que hoje alguns autores que são constituintes daquilo que chamamos de universal e vital para nós, nem tudo deles chegou até nós, foram se perdendo no caminho.
Aqui eu parto da ideia metafórica de que lemos o mundo, Paulo Freire tem um trabalho brilhante sobre isso. O tempo too estamos fazendo a leitura das coisas, as interpretando, as compreendendo e tirando conclusões a partir das nossas chaves de leitura.
Caetano Galindo, que tem uma trajetória longa com tradução de obras modernas e que já se tornaram clássicas, entende bem a ideia de ler o outro, e é isso que propõe no seu romance Lia. Acompanhando a vida dessa personagem, ora ela enuncia sobre si mesma, ora um narrador, ora outras pessoas. É uma polissemia de vozes lendo Lia.
Levar isso para o teatro, por si só, já chamou minha atenção, ainda mais com a adaptação feita pela Bete Coelho, que também assina a direção junto com Gabriel Fernandes. O que já era maravilhoso só por essa premissa, ganha o imenso ganho da presença de Camila Pitanga no elenco. É assim que nasce Lia a Lia, nova produção da companhia Teatrofilme.
A escolha por duas Lias foi um acerto imenso e o que contribui enormemente para a própria polissemia tida no texto. Para além disso, a escolha cênica foi de criar um coro, composto estupendamente por Agnes Nabiça, Carol Santos, Daisy Oliveira, Daniela Nery, Kov Dias, Laís Amaral, Su Ohishi, Wil Campos. A peça também conta com as atuações de Roberto Audio, Laís Lacôrte e Lindsay Castro Lima.
Essa Lia, dada a ler por esses atores, com a cenografia instigante da Daniela Thomas e Felipe Tassara, é um vislumbre do quanto uma vida pode ser muita coisa, ao mesmo tempo que a gente ainda sai sem saber quem era essa Lia. A escolha da montagem foi profundamente acertada em manter essa aura de não responder, mas provocar, ampliar essa Lia.
E falando em ampliação, o calibre de Bete Coelho e Camila Pitanga falam por si só. Os vários monólogos, cenas longas, que elas protagonizam, é um deslumbre. São duas atrizes em plena ebulição quando estão em cena. Porém, e aqui me parece a imensa cereja do bolo dessa encenação toda: as cenas são incríveis, e quando feitas em conjunto, elas ganham um novo frescor. As interações das Lias, delas com outras personagens, é onde a peça cresce, acontece e se torna vertiginosa.
A escolha cênica dessas cenas retoma algo que só o teatro faz: que é a singeleza e graça do fazer junto. Também, e aqui me parece que Bete Coelho nessa idealização sabe bem, o caráter perene do teatro, o efêmero, instantâneo , que reage ao público e com o público, que reage no coletivo, que vibra junto e que sabe também, que acaba, ainda que os rastros desse evento permaneçam como reminiscências instigantes. Então, tecnicamente, pouco importa o texto que não sobreviveu (mesmo importando muito), vale muito que ele se manteve em pessoas que em trabalhos posteriores falam deles. É mais ou menos o que estou tentando fazer com essa Lia que li com o sentir.

