Curitiba
Rap curitibano ganha novos trabalhos de Cabês, Siamese e BFace
Três lançamentos recentes mostram diferentes caminhos da cena curitibana, passando pelo boom bap, rock, música urbana, soul, jazz e MPB
Por Mariana Martins – Eu Amo Curitiba
A cena do rap curitibano segue se renovando e mostrando diferentes possibilidades de criação. Entre retornos, novas fases e encerramentos de ciclos, os recentes lançamentos de Cabês, Siamese e BFace apresentam três trabalhos com propostas distintas, mas que têm em comum a relação dos artistas com a cidade, o hip-hop e suas próprias trajetórias.
Os projetos passam por diferentes sonoridades e conceitos: enquanto Cabês revisita mais de duas décadas de relação com o hip-hop em seu quinto álbum, Siamese apresenta uma nova dimensão de sua identidade artística em “ME SIA”, e BFace encerra um ciclo iniciado em 2018 com o EP “NIGREDO”.
Cabês — “Ciclos”
Depois de quase uma década sem lançar um álbum autoral, o rapper curitibano Cabês retorna com “Ciclos”, seu quinto disco. Lançado em 25 de setembro, o trabalho reúne 12 faixas e tem o boom bap como principal base sonora, recuperando elementos que também marcaram o início de sua trajetória.

O álbum foi desenvolvido ao longo de quase três anos e nasceu de um processo que chegou a aproximadamente 60 músicas antes da seleção final. O repertório reúne participações de Rashid, Matéria Prima, Bianca Hoffmann, Jamah, DJ Marco e DJ Vitonez, além de produções de nomes como Nave Beatz, Skeeter Beats e Lemoskine.
A trajetória de Cabês no hip-hop começou em Curitiba, em 1999. No ano seguinte, o artista passou também a produzir beats e, em 2004, fundou o estúdio Track Cheio. Ao longo dos anos, dividiu sua atuação entre o trabalho como rapper, produtor e engenheiro de som, colaborando com artistas como Karol Conká, Yago Oproprio, Coruja BC1, Rapadura, Lívia Cruz, Zudizilla, Matéria Prima e Max B.O.
“Ciclos” é dividido conceitualmente em três atos: “Essência”, “Reflexão” e “Inspiração”. O disco percorre temas ligados à trajetória, vulnerabilidade, fé, esperança e continuidade, estabelecendo um diálogo entre diferentes momentos da vida e da carreira do artista.
Confira o Shortfilm Manifesto
Siamese — “ME SIA”
A cantora e compositora Siamese também inaugura uma nova fase artística com “ME SIA”, seu segundo álbum de estúdio. O projeto apresenta SIA, alter ego criado pela artista para explorar uma personalidade mais visceral, provocadora e livre.
Produzido por Marcos Cuper, o álbum aproxima rock, rap e música urbana, com uma sonoridade mais pesada e uma narrativa construída a partir de sentimentos como raiva, desejo, amor, liberdade e transformação.

O trabalho será apresentado em duas partes. Na primeira etapa, Siamese conta com participações de Hiran, Scarlett Wolf, Bixarte e Trava da Fronteira.
A criação de SIA não representa, segundo a artista, uma ruptura com sua identidade, mas uma possibilidade de experimentar novas formas de expressão. A personagem assume uma postura mais ácida e confrontadora, enquanto o álbum amplia as referências musicais presentes na trajetória de Siamese.
A artista paranaense, radicada em São Paulo, iniciou sua carreira em 2017 e lançou seu primeiro álbum, “SIAMESE”, em 2024. Desde então, passou por palcos e festivais como Casa Natura Musical, Cine Joia, Festival Feira Preta e SIM São Paulo, além de ter participado do remix de “AMEIANOITE”, de Pabllo Vittar, ao lado de Gloria Groove e DJ Clementaum.
BFace — “NIGREDO”
Rapper, produtor musical, DJ e artista visual, o curitibano BFace apresenta “NIGREDO”, EP autoral de cinco faixas que encerra um ciclo iniciado com “Gradientes”, de 2018.
Com aproximadamente 10 minutos, o trabalho revisita questões presentes na trajetória do artista, como o processo criativo, as relações interpessoais, as contradições do fazer artístico, a cultura Hip Hop e a experiência de permanecer produzindo em Curitiba.

O título faz referência à Nigredo, primeiro estágio da alquimia, associado à decomposição e dissolução da matéria. No projeto, o conceito funciona como metáfora para um período de transformação e para a maneira como BFace transforma experiências, frustrações, memórias e reflexões em matéria-prima para sua criação.
Musicalmente, “NIGREDO” aproxima rap, soul, jazz e MPB, explorando samples, colagens e uma sonoridade quente, saturada e texturizada.
O EP é essencialmente autoral, com produção de BFace nas quatro primeiras faixas. “Deixa Eu Fazer Meu Som”, que encerra o trabalho, tem beat do produtor LYONe.
Além da música, BFace também assina a direção visual e a arte da capa do EP, reforçando uma característica importante de sua produção artística: a relação entre música, imagem e construção de identidade.
Diferentes caminhos para uma mesma cena
“Ciclos”, “ME SIA” e “NIGREDO” partem de momentos diferentes das trajetórias de seus criadores, mas os três trabalhos têm em comum a busca por novas formas de expressão e a presença do hip-hop como ponto de partida.
São lançamentos que também ajudam a revelar a diversidade da produção musical curitibana: do boom bap às aproximações com rock e música urbana; do soul e jazz à MPB; da experiência individual às reflexões sobre criação, identidade e permanência.
Para quem quer acompanhar o que está sendo produzido na cidade, os três trabalhos são uma oportunidade de conhecer diferentes vozes e caminhos que fazem parte da cena contemporânea do rap curitibano.

