Cinema
“Quando Eu For Grande?” transforma o cárcere em herança familiar e questiona o futuro de uma criança
Curta-metragem de Mano Cappu integra a programação da 5ª Mostra Curitiba de Cinema e será exibido neste domingo (16), no Cine Passeio, com bate-papo após a sessão
Após uma visita ao pai e ao irmão na prisão, Gabriel, de apenas 6 anos, retorna para casa ao lado da mãe, Vera, carregando uma pergunta difícil de responder: quando crescer, ele também terá o mesmo destino dos homens de sua família e irá para o cárcere? É a partir dessa inquietação infantil que o cineasta curitibano Mano Cappu constrói “Quando Eu For Grande?”, segundo fragmento da trilogia “Soulbrevivente do Cárcere”, inspirado em uma história real.
O curta-metragem integra a programação da 5ª Mostra Curitiba de Cinema e será exibido neste domingo (16), às 19h, no Cine Passeio. Após a sessão, o público participa de um bate-papo com o realizador.
A história acompanha a viagem de volta para casa depois de uma visita ao cárcere. Para Vera (Cássia Damasceno), interpretada a partir das experiências vividas pela própria mãe do diretor, o trajeto era marcado pelo silêncio, pela dor, pelo medo e pelas incertezas. Havia ainda a vergonha social e a dificuldade de falar sobre a prisão até mesmo dentro da própria família.
“Quando Eu For Grande?” parte justamente desse espaço entre a prisão física e aquela que permanece do lado de fora. Para Cappu, os familiares também experimentavam uma espécie de cárcere, atravessados pela ausência, pela violência institucional e pelo estigma social.
O olhar de uma criança
É pela perspectiva de Gabriel (Miguel Brasílio) que o filme amplia a discussão sobre o encarceramento. Aos seis anos, a criança tenta compreender por que o pai e o irmão estão presos e o que isso pode significar para seu próprio futuro.
A questão ganha forma por meio do imaginário infantil dos heróis e vilões. A presença de Robin e Coringa, escolhidos intencionalmente pelo diretor, cria uma camada simbólica para discutir as ideias de bem e mal, origem e destino.
Criado em um ambiente em que os personagens da Marvel e da DC ocupavam parte do imaginário infantil, Cappu utiliza essa referência para questionar as fronteiras entre aqueles que são considerados heróis e aqueles que são colocados à margem.
Para Gabriel (Miguel Brasílio), porém, a questão é ainda mais profunda: se homens de sua família estão presos, ele também estaria destinado a ocupar aquele lugar?
Uma história atravessada pela experiência pessoal
“Quando Eu For Grande?” nasce das experiências do próprio diretor. Mano Cappu e seu pai, Toninho, chegaram a dividir a mesma cela. Cappu afirma ter sido preso injustamente e permaneceu encarcerado por 18 meses, enquanto o pai era réu confesso.
A experiência deu origem ao projeto artístico “Soulbrevivente do Cárcere”, que reúne cinema e música para discutir encarceramento, paternidade, justiça social e liberdade.
O curta também dá continuidade à pesquisa iniciada em “Bença”, premiado filme de Cappu que aborda a experiência do cárcere a partir de dentro. Enquanto o primeiro trabalho se concentra no ambiente prisional, “Quando Eu For Grande?” desloca o olhar para aqueles que permanecem fora dos muros.
São as famílias que enfrentam a distância, as visitas, a humilhação e o rompimento de vínculos provocados pelo sistema prisional.
O cárcere para além dos muros
Ao colocar uma criança no centro da narrativa, o filme questiona a possibilidade de o encarceramento ultrapassar gerações. A prisão deixa de ser apenas um espaço físico e passa a representar uma marca que pode acompanhar toda uma família.
A história de Gabriel (Miguel Brasílio), Vera Cássia Damasceno) e dona Dulce, avó paterna de Cappu, representa, para o diretor, a experiência de milhares de famílias brasileiras que convivem direta ou indiretamente com o sistema prisional.
Com uma trajetória marcada pela relação entre arte, periferia e justiça social, Mano Cappu transforma uma experiência familiar em narrativa cinematográfica para provocar uma reflexão sobre os impactos do encarceramento e sobre aquilo que permanece depois que as grades se fecham.
Mano Cappu
Cineasta, rapper e sócio-fundador da CWBlack Produções, Mano Cappu é cria do bairro CIC, em Curitiba. Reconhecido como Talento da Rede Projeto Paradiso, recebeu o Prix Courtoujours, no 36º Festival Cinélatino de Toulouse, na França, pelo curta-metragem “Bença”, que acumula 70 laureações, 19 prêmios e duas menções honrosas.

Preso em 2011 e posteriormente absolvido, Cappu transformou suas experiências no cárcere em matéria-prima para sua produção artística. O projeto “Soulbrevivente do Cárcere” reúne, além dos curtas “Bença” e “Quando Eu For Grande?”, o álbum musical “UFA”, o longa-metragem “Barrabás” e a série “Labirinto”, ambos em desenvolvimento em parceria com a Muritiba Filmes.
No audiovisual, atua como roteirista, diretor, curador e consultor de roteiro. Entre seus trabalhos estão a série documental “Cartas Para o Futuro”, aprovada no Fundo de Emergência da National Geographic Society; a consultoria de roteiro na série “Use Sua Voz”, disponível na HBO Max; e trabalhos como roteirista no YouTube Voz Negras, com Lázaro Ramos.
Atualmente, ao lado de Betinho Celanex, é roteirista e diretor da série documental “Fora do Eixo – Tem Rap no Sul?”, produzida pela CWBlack Produções, que investiga a trajetória, a representatividade, a luta e a resistência de rappers negros e periféricos no Paraná.
SERVIÇO
5ª Mostra Curitiba de Cinema
Filme: “Quando Eu For Grande?”
Direção: Mano Cappu
Data: domingo, 16 de agosto
Horário: 19h
Local: Cine Passeio – Curitiba
Após a sessão: bate-papo com o público

