Música
Mãe Orminda e Áurea Martins: um encontro para ficar na memória
Após três anos longe dos palcos, a dama do samba paranaense voltou ao Teatro Paiol para dividir a cena com Áurea Martins em uma noite de vozes marcantes e muita energia.
Por Vanessa Ricardo
Um encontro entre duas cantoras e um reencontro com o público. Assim foi o show Mãe Orminda convida Áurea Martins, no Teatro Paiol. Octogenárias, as duas entregaram uma apresentação belíssima, cheia de energia.
Fazia três anos que Mãe Orminda não subia ao palco. Sua última apresentação havia sido no próprio Paiol, em comemoração aos 80 anos. Baluarte da música paranaense, a dama do samba foi a primeira mulher a puxar um samba-enredo em Curitiba, em 1978. Seu retorno ao teatro tornou a noite ainda mais especial.
A voz de Mãe Orminda foi uma das grandes emoções do show. Aos 83 anos, ela cantou com uma força que prende a atenção desde os primeiros versos. Ao seu lado, Áurea Martins, aos 86, trouxe uma energia contagiante. Foi bonito ver as duas juntas, ocupando o palco com tanta presença e alegria.
As cantoras foram acompanhadas por Julião Boêmio, no cavaquinho; Vinícius Chamorro, no violão de sete cordas; Marcela Zanette, na flauta transversal; e Hallana Aguiar e Luís Rolim, na percussão. Juntos, os músicos deram corpo ao samba que embalou o encontro no Paiol.
Conheci Áurea em 2025, quando a vi na CAIXA Cultural Curitiba, no show Senhora das Folhas. Era uma apresentação mais intimista. Naquela semana fria de agosto, ela estava um pouco resfriada e cantou sentada, mas fez um show belíssimo, de uma delicadeza poética que ficou comigo. Depois, fui ouvir também Até Sangrar, de 2007. Esses trabalhos, ligados à MPB e com um quê de bossa nova, moldaram a imagem que eu tinha da cantora. Por isso, vê-la agora no samba, em movimento e com tanta disposição, foi uma surpresa. Descobri no Paiol outra faceta de Áurea, igualmente arrebatadora.
A participação do cantor e pianista João Maia, a quem Áurea apresentou como seu “neto artístico”, trouxe ainda outra dimensão ao show. Há um afeto evidente em sua relação com músicos de outra geração. Ao ouvi-los juntos, lembrei de “A Rezadeira”, canção de Projota que me chamou a atenção no repertório de Senhora das Folhas. Áurea segue curiosa, aberta ao diálogo e plenamente presente.
O show foi um presente para quem estava no Paiol. Ver Mãe Orminda de volta aos palcos e testemunhar seu encontro com Áurea Martins são experiências que merecem ficar na memória.

