São Paulo
Obra de Fernand Léger chega à Pinacoteca e ajuda a revisitar as raízes do modernismo brasileiro
Exposta pela primeira vez no museu paulista, O Disco, de 1918, entra em diálogo com Tarsila do Amaral e outros artistas brasileiros influenciados pelas vanguardas europeias
Crédito: Fernand Léger. Le Disque [O Disco], 1918. Óleo sobre tela, 65 x 54 cm. Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madri.
Por redação
Uma obra produzida em Paris há mais de um século ajuda a olhar novamente para um dos períodos mais importantes da arte brasileira. A Pinacoteca de São Paulo recebe, até 7 de dezembro, O Disco [Le Disque] (1918), do francês Fernand Léger (1881–1955), um dos nomes centrais do modernismo europeu e professor de Tarsila do Amaral.
Emprestada pelo Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madri, a pintura passa a integrar temporariamente Pinacoteca: Acervo, exposição de longa duração da instituição. Mais do que apresentar ao público brasileiro uma obra histórica de Léger, sua presença cria uma oportunidade para observar de perto as relações — e também as diferenças — entre as vanguardas europeias e o modernismo que se desenvolveu no Brasil.
Instalada no segundo andar da Pina Luz, O Disco aparece ao lado de trabalhos de Tarsila do Amaral, Flávio de Carvalho, Vicente do Rego Monteiro e Emiliano Di Cavalcanti.
Para Yuri Quevedo, curador do acervo da Pinacoteca, a aproximação permite perceber como referências europeias foram reelaboradas pelos artistas brasileiros.
“O embate entre a pintura de Léger e obras como São Paulo (1924), de Tarsila do Amaral, nos permite avaliar como as vanguardas europeias – por exemplo o cubismo – se transformaram na experiência brasileira, fazendo-nos perceber como cada artista, e cada contexto, elabora a experiência moderna ao seu modo”, afirma.
Da guerra à “fase mecânica”
Produzida em 1918, O Disco pertence a um momento decisivo da trajetória de Fernand Léger. O artista havia servido no corpo de engenharia do Exército francês durante a Primeira Guerra Mundial e voltou dessa experiência profundamente impactado pelo contato com máquinas, armamentos e pela transformação tecnológica do período.
Esses elementos passaram a aparecer em sua pintura. Círculos, linhas geométricas, volumes e cores intensas substituem a representação tradicional e transformam a tela em uma espécie de engrenagem visual.
A obra marca a transição para o período conhecido como “fase mecânica” de Léger e é considerada um dos exemplos mais radicais de sua aproximação com a abstração.
Mas é quando O Disco encontra o acervo brasileiro da Pinacoteca que outra história ganha força.
Léger, Tarsila e o modernismo brasileiro
A relação de Fernand Léger com a arte brasileira não é apenas indireta. A partir dos anos 1920, seu ateliê em Paris tornou-se espaço de formação e circulação para artistas de diferentes países.
Tarsila do Amaral estudou com Léger em Paris, em 1923. O contato com o artista francês e com outras experiências das vanguardas europeias daquele período ajudou na construção de elementos que posteriormente apareceriam em sua produção.
A geometrização dos volumes e a ideia dos chamados “contrastes plásticos”, presentes no trabalho de Léger, podem ser percebidas em obras de Tarsila como A Negra (1923) e nas paisagens de sua fase Pau-Brasil.
Isso, porém, não significa uma simples reprodução do modernismo europeu.
Talvez esteja justamente aí o aspecto mais interessante desse encontro promovido pela Pinacoteca. Os artistas brasileiros absorveram técnicas, conceitos e experiências que circulavam pela Europa, mas as deslocaram para outra realidade.
Enquanto Léger recorria a cilindros, máquinas e formas geométricas para representar a industrialização e a velocidade da vida moderna europeia, artistas brasileiros utilizaram parte desse repertório para construir outras imagens do país, atravessadas pelas cidades, pela paisagem, pela população e pelas contradições brasileiras.
A influência do artista francês ainda atravessaria outras gerações. Décadas depois, nomes como Lygia Clark e Milton Dacosta também tiveram contato com questões de espaço, forma e tridimensionalidade relacionadas à experiência pedagógica desenvolvida em torno de Léger.
Uma obra estrangeira dentro de uma história brasileira
A escolha de colocar O Disco dentro da exposição permanente — e não isolá-lo como uma peça estrangeira excepcional — reforça justamente essa possibilidade de comparação.
Pinacoteca: Acervo não organiza a história da arte apenas por uma sequência cronológica. A exposição aproxima trabalhos de épocas e contextos diferentes para evidenciar continuidades, conflitos, influências e rupturas.
“É justamente no encontro entre coleções distintas que o museu revela sua potência. Ao apresentar uma obra do Museu Nacional Thyssen-Bornemisza em diálogo com o acervo da Pinacoteca, criamos uma oportunidade para repensar histórias da arte e construir novas conexões entre contextos aparentemente distantes”, afirma Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca.
A presença de O Disco permite, assim, fazer o caminho inverso daquele percorrido pelos artistas brasileiros há cem anos. Se Tarsila e outros nomes de sua geração viajaram à Europa e encontraram ali novas possibilidades para pensar a pintura, agora uma dessas referências chega ao Brasil e pode ser observada ao lado das obras que ajudaram a transformar esse aprendizado em outra coisa.
Não apenas um modernismo importado, mas uma linguagem que ganhou características próprias ao encontrar o Brasil.
O Thyssen está de visita
A vinda de O Disco faz parte do projeto O Thyssen Está de Visita, iniciativa do Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madri, realizada no Brasil em parceria com instituições brasileiras e espanholas.
Além da pintura apresentada na Pinacoteca, o projeto leva ao Parque da Luz 50 reproduções de obras pertencentes ao museu espanhol, formando um percurso pela história da pintura ocidental. A seleção já havia sido apresentada em Brasília, entre junho e julho.
Fernand Léger nasceu em Argentan, na França, em 1881, e morreu em Gif-sur-Yvette, em 1955. Pintor, desenhista, ilustrador e cenógrafo, tornou-se um dos artistas mais influentes do século XX e desenvolveu uma linguagem própria a partir do cubismo, marcada pelo uso de formas geométricas, volumes tubulares e referências ao universo industrial.
Suas obras hoje integram coleções de instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), o Musée National Fernand Léger, na França, e o Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, na Espanha.
SERVIÇO
Fernand Léger – O Disco [Le Disque] (1918)
Dentro da exposição Pinacoteca: Acervo
Onde: Pinacoteca de São Paulo – Pina Luz, 2º andar
Até: 7 de dezembro de 2026
Visitação: quarta a segunda-feira, das 10h às 18h, com entrada até as 17h
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada), com acesso aos três edifícios da Pinacoteca no dia da visita
Gratuidade: sábados e no segundo domingo de cada mês

