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Crítica Teatral

Quem tem ouvidos, ouça! 

a peça traz uma novidade na mesmice: o teatro é lugar de vida, de criação, de possibilidade e de espanto.

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Crédito foto: Nil Caniné

Por gabriel m. barros

​Ao entrar no teatro, a pequena e aconchegante sala de espetáculos do 3º andar do Sesc Pinheiros, o público se depara com uma estética que lembra bastante os bares das periferias do Brasil: cadeiras brancas enferrujadas, um banco sem encosto, que lembra aqueles de concreto localizados nas pracinhas. O cenário de Sérgio Marimba convida para um lugar conhecido. De imediato, sabendo que se verá uma peça inspirada no texto do Padre Antônio Vieira, o cenário cria um ruído na imaginação e imaginar algo como alguém pregando a um bêbado. 

​O terceiro sinal toca, vem os anúncios, desligue o celular, a luz abaixa, começa a peça Sermão de Santo Antônio aos peixes. Entra em cena por uma portinhola do lado Gustavo Corsi, com uma guitarra, e começa a tocar solo do instrumento. Tudo construído até aqui parece indicar que alguma coisa vai para uma direção inesperada. Márcio Vito e Moacir Chaves (que idealizou e também dirigiu a peça) entram em cena pela plateia, que volta a ficar iluminada. Nós somos o alvo do sermão. 

E assim, nessa construção que poderia, a priori, indicar que a peça iria para várias direções desconhecidas, a opção adotada foi a confiança na força do texto. Padre Antônio Vieira em latência, em expressividade, tal qual como fora concebido o texto: para ser recitado a um público, apregoado às pessoas. A encenação, assim, não tem tremeliques, nem nada de muito inovador, é a confiança pura e plena de que um bom texto, ou melhor, um texto espetacular, é vertiginoso por si só. 

Com o jogo de luz de Aurélio de Simoni, que ora enfatiza um ator, ora outro, é o sermão que vai sendo apregoado pelos dois Vieiras. Há uma atualidade no texto que é um convite para os que já o conhecem contemplarem ganhando sons, tonalidades e ritmo; e para quem não conhece a possibilidade de ver a palavra do maior orador da história ganhando forma. 

Creio que por si só isso já valeria, mas há ainda algo muito interessante, que é a dupla Vito e Chaves: o ritmo dos dois não é igual, embora ambos tornem o palco a sala de casa, estão a vontade em cena, e apresentam um texto duro, com várias idas e vindas, com muita tranquilidade. Os dois demonstram para nós, público, como é que o mesmo texto ganha camadas diferentes a depender de quem dá voz a ele. É quase um exercício de compreender que o texto falado é vivo, ainda que se repita ao longo dos séculos. 

Nesse sentido, a peça traz uma novidade na mesmice: o teatro é lugar de vida, de criação, de possibilidade e de espanto. Sai espantado e ainda mais encantado pelo Pe. Antônio Vieira e mais ainda pelo teatro e suas várias possibilidades! 

 

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