Curitiba
Danielle Winits procura sinais de vida inteligente em Curitiba
Em “CHOQUE!”, atriz encara seu primeiro monólogo sob direção de Gerald Thomas e revisita texto de Jane Wagner escrito há quatro décadas para falar de um mundo atravessado por redes sociais, inteligência artificial e novas formas de solidão
Foto: Danton Valério
Por Redação
Quarenta anos depois, ainda existem sinais de vida inteligente por aqui?
A pergunta que atravessava The Search for Signs of Intelligent Life in the Universe, texto da dramaturga norte-americana Jane Wagner levado à Broadway em 1985, talvez tenha adquirido outros significados em um mundo de redes sociais, inteligência artificial, influenciadores e relações cada vez mais mediadas pelas telas.
É desse ponto que parte “CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente”, espetáculo estrelado por Danielle Winits e dirigido por Gerald Thomas, que chega pela primeira vez a Curitiba nesta sexta-feira (11) e sábado (12), às 20h, no Teatro Fernanda Montenegro.
Depois de temporadas no Teatro Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e no Teatro FAAP, em São Paulo, a montagem coloca Winits sozinha em cena em seu primeiro monólogo. O texto original é de Jane Wagner, com tradução de Alexandre Tenório e intervenções de Gerald Thomas.
Um texto que atravessou quatro décadas
A origem de CHOQUE! está em uma obra importante do teatro norte-americano. The Search for Signs of Intelligent Life in the Universe estreou na Broadway em setembro de 1985, escrita e dirigida por Jane Wagner especialmente para Lily Tomlin.
Construída a partir de diferentes personagens e vozes femininas, a peça misturava humor, observação do cotidiano e crítica social para falar de feminismo, consumo, relações humanas, trabalho e das contradições da sociedade norte-americana.
A montagem tornou-se um dos trabalhos mais conhecidos de Tomlin. Em 1986, a atriz recebeu o Tony de Melhor Atriz por sua atuação. Décadas depois, a peça continuou retornando aos palcos, incluindo uma nova temporada na Broadway em 2000 e uma montagem estrelada por Cecily Strong em Nova York, em 2022.
Mas transportar um texto de 1985 para 2026 também significa lidar com um mundo que mudou radicalmente.
É justamente nessa distância de quatro décadas que Gerald Thomas interfere.
Na versão brasileira, entram no horizonte questões que simplesmente não faziam parte da realidade quando Jane Wagner escreveu a obra: redes sociais, inteligência artificial, a cultura dos influenciadores e a transformação da própria ideia de exposição pública.
Se nos anos 1980 os famosos “15 minutos de fama” de Andy Warhol ainda pareciam uma provocação sobre o futuro, hoje qualquer pessoa carrega no bolso uma ferramenta capaz de produzir, transmitir e consumir exposição permanentemente.
E talvez esteja aí uma das provocações mais interessantes de CHOQUE!: a tecnologia avançou vertiginosamente, mas será que avançamos na mesma velocidade em nossa capacidade de estabelecer relações, produzir empatia e compreender o outro?
Danielle Winits entre a lucidez e a loucura
Na adaptação dirigida por Thomas, Danielle Winits parte de uma personagem que já estava no universo criado por Wagner: uma mulher que vive à margem daquilo que costumamos chamar de normalidade.
Ela foi consultora criativa de grandes empresas, abandonou esse universo e tornou-se uma catadora de lixo. Agora acredita ter sido escolhida por extraterrestres para ajudá-los em uma missão bastante particular: descobrir se existem sinais de vida inteligente no planeta.
A situação é absurda. E justamente por isso funciona.
Porque, enquanto procura explicar a humanidade para seres de outro planeta, a personagem acaba tentando compreender os próprios humanos.
A pergunta passa a ser outra: ela enlouqueceu ou apenas passou a enxergar com clareza demais um mundo que também perdeu alguma coisa pelo caminho?
A partir dessa figura, Winits atravessa diferentes estados e pontos de vista, em um trabalho que mistura comédia e drama. Apesar de ser um monólogo, a atriz definiu a montagem, em entrevista recente ao Bem Paraná, como uma peça com “viés de show”, sustentada também por uma estrutura visual de grandes proporções, com cenografia de Fernando Passetti, iluminação de Wagner Pinto e figurinos de João Pimenta.
Rir de quê?
CHOQUE! chega a Curitiba em um momento curioso para revisitar uma obra que já perguntava, há quatro décadas, o que estamos fazendo com nossas relações.
Mudaram as ferramentas. Mudaram as formas de comunicação. Mudou a maneira como construímos nossas identidades publicamente. Mas solidão, consumo, desigualdade, necessidade de pertencimento e dificuldade de compreender o outro continuam bastante reconhecíveis.
Talvez por isso a pergunta do título sobreviva tão bem ao tempo.
Os extraterrestres podem até ser uma desculpa.
A procura continua sendo por nós mesmos.
SERVIÇO
CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente
Quando: 11 e 12 de setembro de 2026
Horário: 20h
Onde: Teatro Fernanda Montenegro – Rua Coronel Dulcídio, 517, Batel, Curitiba
Ingressos: valores variam conforme setor e modalidade; vendas pelo Disk Ingressos
Classificação: 12 anos

