Crítica Teatral
Subversão Cênica na Abertura de Percepções
O “Ovo e a Galinha” propõe extravagante exploração simbólica dos fatos oriundos do conto de Clarice Lispector.
Por Leonardo Talarico
A obra teatral “O Ovo e a Galinha” é inspirada no conto homônimo de Clarice Lispector. A peça é transposta para uma investigação sobre linguagem, percepção e os limites da compreensão humana, articulando palavra, corpo, projeção e som em uma experiência coletiva diante do mistério. Tudo ocorre diante de um Ovo Absoluto em cima da mesa da cozinha visto por uma mulher desejosa de fazer uma omelete.
O “Ovo e a Galinha” propõe extravagante abertura simbólica dos fatos.
Não se nega a ótima contação da história, mas a coluna vertebral do festejado trabalho está na imersão da plateia diante variados estímulos, linguagens e percepções não triviais.
Não se trata de uma obra teatral palatável.
A construção recusa permanecer à beira do discurso. A profundidade e originalidade alimentam a fruição.
O texto caminha em atuação dilatada por diversas possibilidades verticais.
Creio na impossibilidade do acompanhamento total do pretendido.
Ocorre a necessidade de assistir ao espetáculo outras vezes.
Matizes e ocorrências estridentes surgem de forma disruptivae maximalista com o intuito de jogar a plateia em um terreno de perdimento em busca de uma nova compreensão.
O melhor a fazer enquanto espectador é não resistir e se deixar distante do controle. Permanecer líquido à sua estrutura fundante e imagética com o fito de trazer para dentro do peito novos alinhamentos.
Tudo é símbolo de tudo.
O texto é o dito em “total arte” e subversivo ao status quovigente.
Mas existe um controle na loucura.
A obra consegue – mesmo diante tamanha intensidade -colocar os demais labores teatrais no mesmo diapasão e somaum “teatro de atriz” com um “teatro de direção” e de OFICINA, o TEATRO OFICINA.
Todos convergem e auxiliam à passagem cênica.
Aos desavisados: o tema parece ser o ovo e a galinha.
Mas está longe. O pouco é o pretexto para o todo.
Profundo e expresso sob diversas mecânicas performáticas.
Um labirinto com ou sem saída.
Dependerá da sua qualidade de ouvinte.
E para isso precisamos de humildade.
Seja como diretor de teatro ou crítico não é um espetáculo do meu gosto.
Mas gosto é capricho.
Dignidade é o acerto artístico.
Por isso, compreendo obra deveras relevante e irei novamente nesta sexta-feira.
A democracia teatral é um dos elementos mais fundantes da sociedade.
Clarice Lispector encontra a exitosa e íntima companhia dramatúrgica de JOANA MEDEIROS (também diretora do espetáculo) e ANA HARTMANN (também atriz da obra).
No espírito biográfico da Clarice, Joana e Ana esgarçam elementos simbólicos, linguagens e eventos originais. A dramaturgia é muito bem composta. Em ritmo, analogias, simbolismos e provocações afetivas.
JOANA MEDEIROS na direção mantém o teatro de atriz,maximaliza os esclarecimentos e as sombras cênicas. A construção do espetáculo atravessa elementos intrusivos necessários à completude da exposição pretendida.
Temos uma articulação difícil de compor: a solidão de uma atriz diante do aglomerado cênico.
Seja na vocalização do texto radicalizada (subversão ao comumente imposto), na antropologia teatral (como nos elementos de passagem, fixação e energias físicas cênicas), “O Ovo e a Galinha” deixa registros a serem capturados (se compreendidos) pelo caminho.
ANA HARTMANN, atriz do espetáculo, “morre na coxia” e incorre até em pretensos erros de interpretação, como o cantar nos finais da frase, esquecimento de texto e chamamento do ponto como um processo assertivo de imposição e desconstrução. Nada é gratuito. A entrega cênica e a capacidade técnica são louváveis. Uma atuação impactante, haja vista ANA ter recolhido para dentro do peito todo um vasto instrumental capaz de atender a todas as demandas da direção, dramaturgia e verdades próprias. Todo “defeito” é qualidade e toda qualidade é excepcional.
Interpretação de fôlego, cirúrgica e digna de uma ótima atriz.
Impossível entendermos a obra realizada apenas por uma personagem tamanho o espectro ofertado em esclarecimento ao público.
Há uma CESTA DE OVOS oferecida pela protagonista e sua diretora.
A iluminação de VICTORIA PEDROSA é cirúrgica por maisextravagante o seja. Pontos focais bem delineados e certeirosnos pontos dramáticos, abertura de salão com delicadeza egrandiosidade, coloração condizente com os estados emocionais da passagem cênica e inventividade em luzes móveis. Não há contenção. A iluminação traz de tudo para registrar mesmo o pouco necessário.
As projeções de CIÇA LUCCHESI amarram todos os demais saberes teatrais profissionais emprestados à obra, dando um fechamento de quadro lógico ao mesmo tempo que encaminha o público à dinâmicas semióticas.
CIÇA esclarece, complementa e alarga.
A direção de arte de MARÍLIA PIRAJÚ e MARCELO X é uma alegria por não se colocar à frente da obra, mas ao mesmo tempo fixar-se no terreno com manobras e elementos vistosos e falantes às mentes. Uma certa transferência da ação física à psicológica.
O figurino de FELIPE SAMORANO é um retrato honroso de uma companhia (seja de forma direta ou indireta), possui corte teatral, amador (quando necessário) e veste adequadamente as personagens em suas construções (há mais de um ovo; há mais de uma ANA).
Os músicos em cena (JEFFERSON PLACIDO e NANA CARNEIRO da CUNHA) e ADRIANO SALHAB (direção de som) trazem um ambiente vivo técnico e “irritante” (theremin, instrumento russo de 1930) à sonorização como um elemento sensorial necessário ao clima pretendido pela dramaturgia.
Todos operam em sintonia de pausa, importante cadência e exclamação aos fatos de passagem do espetáculo.
O Ponto (acompanhamento do texto em cena por uma profissional em auxílio – muito utilizado outrora nas artes) realizado por ANA CLARA CANTANHEDE é mais um elemento de troca e linguagem do que uma necessidade. Além da construção dinâmica entre ponto e protagonista, o ponto deixa a atriz em suspensão (viva), não aterrada ao texto e retira do papel certa supremacia histórica.
A direção de movimento é feliz por fazer a personagem e todos os demais presentes caminharem para os seus destinosaté as almas presentes. A plateia que ocupa o palco é mais um ponto geográfico do Teatro Oficina do que uma necessidade.
O Ovo e a Galinha é o Teatro no seu exercício fundante do ofício.
Resgata um Teatro cuja “loucura” não é embalada.
E nem a verdade!
Estamos diante de um grande trabalho teatral.

