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Curitiba

Quanto espaço uma mulher pode ocupar? “(IN) FLUXO” leva corpos, desejo e envelhecimento ao palco em Curitiba

Inspirado pela obra de Hilda Hilst e resultado de uma pesquisa desenvolvida há cerca de 15 anos, espetáculo estreia em outubro no Teatro Guaíra e tensiona etarismo, maternidade compulsória, sexualidade e os padrões impostos aos corpos femininos.

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Foto: Vitor Dias

Por Redação

Quanto espaço uma mulher pode ocupar antes de ser considerada excessiva? Até que idade seu corpo pode ser desejante? É possível envelhecer sem desaparecer? E quanto de uma existência feminina ainda é organizado a partir das expectativas dos outros?

São perguntas que atravessam “(IN) FLUXO”, espetáculo que estreia em Curitiba no dia 1º de outubro, no Miniauditório Glauco Flores de Sá Brito, no Teatro Guaíra. Com apresentações gratuitas até 11 de outubro, a montagem coloca cinco mulheres em cena para falar não apenas das violências que atravessam seus corpos, mas também de desejo, prazer, transformação, liberdade e permanência.

No elenco estão Carolina Mascarenhas, Fabiana Ferreira, Taciane Vieira, Mayra Fernandes e Victoria Ruiz, mulheres com diferentes trajetórias, idades e experiências. Em vez de buscar uma representação única do feminino, a montagem parte justamente dessa multiplicidade.

A pergunta muda de lugar: em vez de observar essas mulheres de fora, o que acontece quando são elas que constroem o ponto de vista?

Um corpo que não desaparece

O envelhecimento feminino ocupa um lugar importante nessa discussão.

Vivemos em uma sociedade que frequentemente associa o valor da mulher à juventude, à beleza, à produtividade e à capacidade de permanecer desejável. Quando o corpo envelhece, essa presença muitas vezes passa a ser empurrada para uma espécie de invisibilidade.

“Existe uma cobrança para que a mulher continue sendo jovem, bonita, desejável, produtiva. E quando o corpo muda, parece que ela precisa desaparecer. A peça quer justamente olhar para esses corpos e dizer: eles continuam aqui, continuam desejantes, continuam vivos”, afirma Mayra Fernandes.

É a partir daí que “(IN) FLUXO” amplia a conversa para outras formas de controle: maternidade compulsória, sexualidade, gênero, padrões corporais e os limites socialmente estabelecidos para a liberdade feminina.

Mais do que falar sobre aquilo que oprime esses corpos, porém, a montagem procura colocá-los em cena por aquilo que também carregam de vitalidade, prazer, desejo e potência.

Uma pesquisa que atravessa 15 anos

“(IN) FLUXO” nasce de um percurso iniciado por Mayra Fernandes há aproximadamente 15 anos com a pesquisa “Fluxo Floema”, dedicada às experiências das mulheres na sociedade contemporânea.

Atriz, diretora, dramaturga, produtora e pesquisadora, Mayra foi construindo esse trabalho por meio do teatro, da escuta e de sua aproximação com a antropologia cultural.

A montagem é um novo capítulo desse processo — e não necessariamente seu ponto final.

“É um projeto que vem de um grande mergulho, uma pesquisa debruçada em Hilda e mulheres na sociedade contemporânea, mas com vários desdobramentos. Eu pretendo que ela tenha uma vida em cima, porque a gente tem muito a falar sobre as mulheres, não para aqui”, explica.

A dramaturgia é assinada por Amanda Leal e Mayra Fernandes, enquanto a direção reúne Amanda Leal, Eduardo Ramos e Stela Fischer.

Essa construção coletiva também é parte da proposta. Diferentes trajetórias entram em diálogo para evitar que uma única voz determine o que significa ser mulher.

“Eu fui atrás de buscar essas vozes, escutar essas vozes, essas potências, porque eu entendo que a arte não se faz com uma voz só, e principalmente quando o assunto é esse”, diz Mayra.

Hilda Hilst entra no fluxo

Há ainda uma presença que atravessa todo o trabalho: Hilda Hilst.

O encontro de Mayra com a escritora brasileira, cerca de 15 anos atrás, tornou-se uma das bases da pesquisa. Não se trata, porém, de levar uma obra específica de Hilda ao palco.

O interesse está também em sua liberdade formal e intelectual.

Em “Fluxo-Floema”, publicado em 1970, Hilda rompe fronteiras entre vozes, pensamentos e formas narrativas. Ao longo de sua produção, fez erotismo, filosofia, escárnio, poesia e inquietação existencial conviverem sem pedir licença.

Essa irreverência encontra eco em “(IN) FLUXO”.

“Hilda conseguia falar de assuntos muito sérios trazendo deboche, sarcasmo e ironia. Acho isso muito inteligente e muito possível, porque muitas de nós mulheres também sobrevivemos assim”, observa Mayra.

No palco, essa multiplicidade também aparece na linguagem. Palavra, interpretação, movimento, luz, figurino e caracterização se encontram com a trilha original de Victoria Ruiz, executada ao vivo durante as apresentações.

Flávia Massali responde pela direção de movimento e preparação corporal; Carmem Von Blue, pelo figurino e caracterização; e Semy Monastier, pela iluminação.

Afinal, qual é o tamanho permitido para uma mulher?

Talvez uma das forças de “(IN) FLUXO” esteja justamente em não procurar uma resposta definitiva.

As mulheres que aparecem no palco não são apenas mães, filhas, jovens, maduras, desejadas, rejeitadas ou enquadradas pelas expectativas sociais. São corpos em transformação — contraditórios, políticos, eróticos e vivos.

Ao deslocar o ponto de vista, o espetáculo devolve a pergunta para quem assiste:

quanto da existência de uma mulher ainda precisa ser diminuído para que ela caiba no espaço que a sociedade reservou para ela?

E o que acontece quando ela decide ocupar mais?

SERVIÇO

(IN) FLUXO

Quando: 1º a 4 e 6 a 11 de outubro de 2026
Horários: terça a sexta, às 20h; sábados e domingos, às 18h
Sessões com Libras: 3 e 10 de outubro
Onde: Miniauditório Glauco Flores de Sá Brito – Teatro Guaíra, Rua Amintas de Barros, s/n, Centro, Curitiba
Entrada: gratuita, com retirada dos ingressos uma hora antes da apresentação, no local
Classificação: 16 anos

Ficha técnica: Pesquisa e idealização: Mayra Fernandes | Dramaturgia: Amanda Leal e Mayra Fernandes | Direção: Amanda Leal, Eduardo Ramos e Stela Fischer | Elenco: Carolina Mascarenhas, Fabiana Ferreira, Mayra Fernandes, Taciane Vieira e Victoria Ruiz | Direção de movimento: Flávia Massali | Trilha original e ao vivo: Victoria Ruiz | Figurino e caracterização: Carmem Von Blue | Luz: Semy Monastier | Produção: Cardume Produção Cultural.

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