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Crítica Teatral

A Revolução começa pela Fome

Na remontagem de Revolução na América do Sul, a saga do operário José da Silva atravessa as contradições do Brasil contemporâneo, entre a sátira política, a desigualdade social e a urgência de uma consciência coletiva.

Publicado

em

Por Tacy

Revolucionário! Se houvesse um nome para descrever a sensação difusa de senso de justiça, misturada com vergonha e qualquer coisa de coragem, esta seria a palavra. E foi nesse espírito que, ao deixar o Teatro Poeirinha na última terça-feira, tive certeza de que as cenas de “Revolução na América do Sul” me acompanhariam para muito além dali. Cantarolei os versos do rap do MC Bob Rum “era só mais um Silva que a estrela não brilha”, porque o clássico teatral setentenário de Augusto Boal mexeu com minhas entranhas combatentes. Não era para menos! Trata-se do gênio criador do Teatro do Oprimido e sua verve paulo-freiriana que, nesta remontagem, dirigida por Wellington Fagner e adaptada por Maria Azevedo, traz o Brasil mais autêntico na história do operário José da Silva, um homem representante da base social do país.  Absolutamente contemporâneo, o espetáculo discute a sobrevivência do proletariado brasileiro no cenário de desigualdade social, a corrupção nos meios de poder que arruínam as instituições e o imperialismo estrangeiro predatório. É o Brasil de sempre repetindo seu padrão tóxico. E advinha: estamos a dez dias do primeiro turno de eleições presidenciais, vivendo mais um daqueles impasses grotescos que ficaram comuns na última década. Num cenário dual entre a loucura e a lucidez, a manutenção do equilíbrio e a volta à Idade Média, a obra de Boal reverbera o que está posto, ao mesmo tempo que nos convoca à luta diante dos fatos. À sombra de um futuro que parece uma incógnita, esta dramaturgia cai como uma luva. Uma revolução recheada da melhor comédia ácida para servir de colírio e resgatar o que o Brasil tem de melhor: o povo brasileiro.

Antes de tudo, é importante contextualizar que “Revolução na América do Sul” foi originalmente escrito por Boal no Teatro de Arena na década de 1960 e para debater a luta de classes da época. O personagem José é anterior à formalização do conceito do Teatro do Oprimido, elaborada na década seguinte. Este artífice é na verdade a generalização do cidadão comum e representa o anti-herói nacional. Sua alienação e ingenuidade política tem função pedagógica: serve como um espelho invertido, para que o espectador desenvolva a própria lucidez na falta que observa. “A gente trabalha feito burro de carga, de manhã até a noite, e no final, olha o tamanho do meu almoço?”. Na primeira frase do texto de Revolução na América do Sul,escancara-se sem rodeios o elefante branco na sala. A fome é a mazela mais grave e fundamental. É ela quem dá o tom, que guiará os passos trôpegos do famigerado José, o Zezinho, um herói sem capa e sem glamour, interpretado a cada quadro pelo revezamento de seis atores em cena.  Logo no início, sob as vestes simples e rotas de funcionários de fábrica _ figurino de Lara Bezerra e Elen Carvalho_, todos o operariado concorda que é preciso fazer revolução para melhorar o salário. José não entende muito bem o significado e nem acha que vai dar certo. Pressionado pelo desespero da ausência alimentar em casa, ele se mune de coragem e pede um aumento ao seu chefe. Após conseguir o feito, percebe que não há vitória, pois o valor obtido é muito pouco, ainda mais quando vai a feira e não consegue comprar nada além de osso.   

“Luta por sobrevivência”, “Balburdia”, “Não estamos à venda”, “Abaixo o Fascismo”, “Basta!” são algumas das frases coladas nos cartazes que revestem a cenografia de Sophia Magalhães, em colaboração com Malu Guimarães e Letícia Figueiredo, para criar o ambiente de protesto. De volta à estaca zero, José tenta mais um aumento, dessa vez, sem sucesso. Demitido e com a barriga vazia coçando a costela, José vai a Câmara dos Deputados, pois lhe disseram que ali solucionariam sua penúria. Mas lá chegando, conhece um consorte de personagens distintos e seus discursos contraditórios antidemocráticos, no local onde deveria ser “a casa do povo”. Tanto eu quanto a plateia, pudemos reconhecer na jocosa cena, o atual acrônimo popular conhecido como BBB (Boi, Bíblia e Bala), representados brilhantemente nas caricaturas desse jovem elenco, indicado ao Prêmio APTR em 2022. No centro fundo do púlpito, no melhor estilo Chico Anísio, está o ator Cássio Duque, de grossos bigodes e uma fala mole e pastosa, que interpreta o Presidente da Câmara, numa condução de discursos vazios e desfio das riquezas brasileiras. Pede a palavra a seguir, em um ponto lateral da arquibancada do Poeirinha, a atriz Ritiele Reis, interpretando um virulento policial miliciano, com forte carioquês, óculos escuros e colete a prova de balas, numa enérgica defesa do armamento civil. Em lado oposto, sob a espessa luz de Ricardo Rocha, surge o ator Levi Duarte, dando voz aquele ímpio fazendeiro do agronegócio que, de berrante desafinado em punho, faz uso de argumentos conservadores para seus fins gananciosos. Neste triângulo cênico, a atriz Letícia Ambrósio vem na pele da pregadora de saia longa e coque comportado, terrivelmente evangélica, que como “serva do Senhor”, propõe a expansão da fé cristã no parlamento e até “fala em línguas” para defender sua pauta de costumes. Antes que a sessão termine, José faz sua vez, interpretado pelo ator Junior Melo, e o seu desejo é um só, simples, direto e honesto: comer. E aí, mais uma promessa, mais uma espera. Só que esperar é uma palavra que diz que tudo e ao mesmo tempo não diz nada. A redução do seu desejo a um obsessivo prato de comida é parte da técnica do teatro épico de Brecht, para escancarar a desumanização do trabalhador pelo capitalismo. À espera, a fome de José continua. 

“Passo a vida trabalhando, dando duro no batente, a comer de vez em quando, isso é vida, minha gente?” são os versos da música “Zé da Silva é um Homem Livre”, autoria do próprio Boal com Geny Marcondes. A exceção desta, todas as letras na peça são de Francisco de Assis, que sob a direção musical de Vinícius Mousinho, ganham arranjos dramáticos em seis lindas vozes afinadas no palco. Sem banda, os próprios atores executam pontualmente seus instrumentos como teclado, ukelelê e caixa de repique. Nessa toada rítmica, José encontra um grupo de “revolucionários” e pensa em finalmente juntar-se ao movimento, mas nem chega a esquentar o assento. O grupo não passava de meros entusiastas de internet, com selfies de lacração, discursos de rede social e desculpa fiada de burguesinhos que sequer sabem o que é trabalhar. O público ri, reconhece a crítica. Afinal, todos ali presentes são um pouco militantes nas suas timelines. E mesmo cutucados, evitamos nos dar por achados. A coragem digital é mesmo um fenômeno. 

Em outro momento, nosso operário é abordado por um policial e detido por motivo fútil. Lá ele observa os presos recebendo farelos de pão e gotas de água. Movido pelo desespero da mais absoluta necessidade, ele pede que o policial o prenda. Mas a despeito de suas tentativas, que envolvem falsas confissões e até forçosos desacatos, José é expulso da delegacia para permanecer livre. Só que essa palavra não faz sentido em seus ouvidos. De que adianta ser livre e faminto? “Se ser livre é passar fome, não basta ser livre, não”, respondem os versos de Boal e Marcondes à José. E o aspecto deste herói, a esta altura, é digno de farrapo humano. Carrega consigo uma úlcera crônica grave, de dobrar o corpo, tornando sua figura arqueada e o passo lento e arrastado. A cada poucas palavras, um gemido de dor. 

Já que ele não come, a fome trata de comer seu corpo. Mas o espírito de José é inquebrável. 

“Ontem patrão, hoje meu líder”. Aqui, a adaptação do texto ganha contornos ultra contemporâneos. E, considerando os últimos escândalos nacionais, eu diria quase que em tempo real. Este quadro mostra José sendo usado como cabo eleitoral do ex-patrão, modulando o discurso de “revolução” para “reforma”, a fim de angariar os votos da classe trabalhadora numa chapa de elite, em troca da promessa do alimento. Nosso protagonista se afunda no mar da corrupção, afinal, todos querem o voto de Zé Tapioca, a alegoria do povo eleitor, a esperança de quem, como ele, também está morrendo de subnutrição. Sob o slogan “A crise não existe se você é Patrão”, o humor da cena acontece na figura do patrão caminhando de forma robótica, entrando no lar do eleitor e pedindo o voto dele, enquanto faz esforço para engolir a água de fonte duvidosa que lhe foi oferecida. Como não consegue esconder a cara de nojo quando encosta a boca no copinho, cospe a água no público. Igualmente cômica é a interpretação de Cássio Duque como um político influenciador, convocando uma live com a plateia para promover sua campanha e pedir votos. Ficção ou realidade? Já não sabemos. Se não fosse tragicamente verdadeiro, seria ainda mais hilário. 

Há uma cena que gostaria de batizar de “os custos de uma cagada”, que neste caso, é literal. Uma alfinetada explícita: o encontro de José com o “anjo do capitalismo”. Neste diálogo extra físico, que começa com José na privada, seu estupor é filosófico. Como saída as cobranças infinitas, o herói aventura o próprio suicídio, sem se dar conta, de que sua morte já está em curso, num plano de abandono através da precarização alimentar. Quase no fim do espetáculo, em diálogo existencial com o Divino, José clama para os céus, contorcendo-se de dor, “Você nunca atendeu um pedido meu. Deixa eu morrer!”. E é muito triste quando a vida é tão embotada a ponto de a morte ser uma saída desejável.  

Seguindo o exemplo da protagonista de “A Hora da Estrela”, o fim de José da Silva se dá de forma estúpida, quase patética: morre com a cara na quentinha, a boca cheia de comida, a barriga vazia. “Morreu de barriga”, dirão. O entregador de aplicativo que deixou a encomenda, última pessoa que viu José com vida, volta até ele porque esqueceu de deixar a sobremesa. Ao perceber o homem já moribundo, sua humanidade é tocante. Ele fecha os olhos do morto, limpa suavemente seu rosto com o guardanapo, pede licença e termina de comer a quentinha que José havia começado. Sua fome tem tanto fervor quanto a do finado herói que ele observa enquanto mastiga. O silêncio é tão alto que constrange quem assiste. E o absurdo é de doer na alma de quem vê. Como não se indignar? Aqui o Teatro do Oprimido cumpre sua função pilar: transferir a responsabilidade da revolução para o público, para que as pessoas saiam do teatro instigadas a mudar a realidade. Para que o espírito revolucionário te faça pensar melhor na realidade do José que sai de casa para passar o dia fazendo entregas numa moto, sem nenhuma garantia ou direitos e correndo todos os riscos. 

Democrático por essência e crítico por convicção, Revolução na América do Sul _ com recente passagem por Portugal _ é um espetáculo que não segue o padrão aristotélico de causa e efeito. É José quem conduz sua trama, sempre por um fio. Misturando técnicas do teatro Épico brechtiano, revista musical e agitação política direta, Boal expõe as engrenagens do sistema imperialista e suas dores. Aqui, sob a tutela da psicanalista Cecília Boal, viúva do diretor e responsável pelo Instituto Augusto Boal, temos uma dramaturgia interativa. Boal veste a arte daquilo que ela é por essência. Todos são atores e o teatro é o ensaio da realidade. No tablado cênico, investiga-se o problema coletivamente, para entender que relações ele produz e que possibilidades existem para modificá-lo. A sátira, a caricatura e o distanciamento psicológico são os manejos da crítica social para denunciar o nos mata paulatinamente: dízimos, paraísos, cobranças, promessas, patrões. No desfecho, ele quer o despertar coletivo para mostrar o quão inglório é o sacrifício deste anti-herói. Cruzar a fronteira entre o teatro e o real, esta é sua revolução. Afinal, faz-se arte e política todos os dias, meus caros. E já que somos atores e estamos no mesmo espetáculo, vamos atuar com consciência e coletividade nestas eleições. Pensem no Brasil profundo, pensem no José, pensem em nós.

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