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Crítica Teatral

O Dinossauro de Plástico

Publicado

em

Por Leonardo Talarico

Em um monólogo ficcional, Marcelo, um jovem de 25 anos, diante da complexidade humana, encontra-se defronte um bar onde dois eventos ligados a ele acontecem ao mesmo tempo. Família e amigos apresentam dois mundos geradoresde pressão e gatilhos sobre Daniel (não há erro no nome – vocês entenderão ao assistir). 

O que existe dentro de uma mente humana dominada pela necessária compreensão de múltiplos fatores inerentes à vida? Entrar ou não entrar no bar? Pertencer aos grupospresentes? Sua precária funcionalidade à luz da sociedade vigente causará um desaparecimento no momento da entrada? Pertencer na presença ou pertencer ausente? 

Parece cognição rebuscada, mas RAFAEL SARAIVA não deixa isso acontecer. Esclarecimento, despretensão e humor auxiliam a travessia cênica. Esses pontos edificantes da biografia humana são apresentados de forma horizontal (olho no olho). 

Não é difícil capturar o todo ocorrido em cena. 

A dificuldade (com humor) está na saída.

A experiência continua na volta para casa com os pensamentos existenciais.

Mas caminhamos leve.

A vantagem do humor é que ele cava fundo no peito humano todas as dores, mas com percepção homeopática.

A reflexão de cada assento ocupado na plateia virá no tempo certo. 

Nesse momento precisamos revisitar a velha pergunta do querido amigo Gonçalo Tavares: “Dentro de você é um bom lugar para se viver?”. 

Ou ainda, na esteira do espetáculo: dentro de VOCÊS (sendo um) é um bom lugar? O que existe dentro de um quarto muito habitado? Quem se arrisca admitir ser dois? A simples ocorrência do bar empurra-nos para diversos matizes da personagem e das nossas existências. 

O espetáculo explora as angústias do sentido da vida até uma possível neurose diante da não validação. Há na obra uma gama interessante de afetividades (sentimentos)demonstrativas do forte lastro de inadequação ou deslocamento social (uma das formas de abandono). E todos esses sentimentos nos pertencem. Uns mais, outros menos. 

Há nítido espelhamento. 

Todo o passar cênico transcorre com leveza e humanização. 

Impossível não se identificar com o posicionamento postoem cena e com as sensações pessoais e sociais decorrentes. E isso é apontado na interpretação de forma normalizada.Não se trata de surto, mas abrigo. 

Dentro desse SER OU NÃO SER está também o SER MAIS DE UM. 

No clássico Anna Kariênina, de Leon Tolstói, o seu “término” ocorre pela impossibilidade da escolha diante da sociedade opressora vigente. Lá também era uma escolha em relação aos de fora a causar turbilhões dentro. Aqui temos um homem carregado de pensamentos conflitantesgeradores de aflições e em busca de identificação, adequação, funcionalidade, reconhecimento, existência real, esclarecimento e validação. Mas tudo repleto de humor, empatia e beleza.

Um possível não funcional não diagnosticado. O que é funcional? A solidão para fora (épica) e para dentro (lírica)em busca de autonomia (já devidamente castrada desde a primeira certidão). Temas próximos da sociedade líquida de Zigmunt Baufman. Alí – dentro e fora do bar – estamos todos. Mais ou menos Marcelo, mais ou menos Daniel.

Antes de continuarmos peço uma abertura de parênteses para ressaltar o compromisso de RAFAEL SARAIVA com os valores fundantes teatrais. 

O Teatro, talvez por necessidade financeira ou/e oportunismo de poucos, realiza ao longo da sua trajetória incontáveis concessões artísticas. O tablado – periodicamente – encontra uma demanda mais frágil, mais fácil e a explora incansavelmente. Desnecessário tecer comentários sobre os desvios causados na expectativa e formação da plateia. Esses esgarçamentos conduzem o público à impaciência semelhante das rolagens de tela. 

O Teatro possui uma necessária diversidade de linguagem. Mas não é sobre diversidade e linguagem, mas desvio de função. Por isso, importante ressaltarmos jovens atores midiáticos seguindo o conselho da querida Fernanda Montenegro: “de vez em quando é preciso colocar o Teatro no seu trilho”. E “O DINOSSAURO DE PLÁSTICO” assim procede. 

O texto de GUSTAVO VILELA apresenta-se “despretensioso” na história para deixar reflexões contundentes e relevantes aberturas simbólicas. Excelente trabalho escorreito e denso a serviço do outro. 

A direção de BARBARA DUVIVIER (assistência de MARIA SANTOS) possui o grande mérito de compreender a realização como um Teatro de Ator. RAFAEL SARAIVA é o espetáculo, e nele concentram-se todos os esforços para levar à plateia o devido esclarecimento da obra de GUSTAVO VILELA. 

A direção de movimento não caminha para o seu destino a todo momento e deixa o ator livre na relação direta com o público. A música de ILAN BECKER pontua momentos cirúrgicos e gera ambiência necessária à passagem cênica. O figurino de ELISA FAULHABER e BRUNELLA PROVVIDENTE (também assinam o cenário) é utilitário e apresenta a dualidade da personagem (p. ex., sapatos e camisa). 

O cenário é minimalista e pouco interfere na dinâmica. Com o auxílio das cores provenientes da iluminação e outros pormenores também reforça dualidade. As projeções de DIEGO AVILA compõem o cenário e reforçam a ambiguidade ao confrontar os dizeres da personagem (e, também, ratificar). A iluminação de GABRIEL PRIETO utiliza seus LEDS coloridos para atuar no mesmo diapasão dos demais saberes cênicos, qual seja reforçar esse múltiplo interior angustiado e incompreendido. 

Todos os saberes teatrais estão uníssonos e realizam o mesmo espetáculo. Entretanto, o espetáculo posto em cena está na força esclarecedora do ator RAFAEL SARAIVA.

Essa peça de teatro é daquelas que poderíamos realizar com RAFAEL SARAIVA e um punhado de velas tamanho acerto do minimalismo e humanidade DE TODOS.

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