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Crítica Teatral

Medusa antes do monstro

A sensação de que algumas histórias precisam mesmo ser contadas de novo. Não para apagar a violência, mas para que ela não seja o fim da história.

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Crédito foto: Polly Devides

Por Bruna Bazzo

E se a gente olhasse para Medusa antes do monstro?

Para a mulher que existia antes da violência, antes da maldição, antes de sua história ser resumida àquilo que ela se tornou?

O que fizeram com ela para que a gente passasse a enxergá-la como um monstro?

Foram essas perguntas que fiquei pensando depois de assistir a Drolmas.

A dramaturgia de Samara Rocha pega um mito que parece tão conhecido e abre espaço para outras vozes, outros corpos e outras possibilidades de contar. E faz isso sem transformar a peça numa coisa pesada o tempo inteiro.

Tem humor. Tem música. Tem dança. Tem imagens lindas. Tem momentos em que a gente ri e, logo depois, percebe que estava rindo de uma coisa que carrega uma camada bem mais profunda.

A mistura de referências também me ganhou. A mitologia grega encontra o Brasil, encontra o budismo tibetano, encontra o teatro, e tudo isso vai acontecendo com uma liberdade muito gostosa. Em alguns momentos é quase absurdo, e justamente por isso funciona. A peça brinca com aquilo que conhecemos, desmonta algumas certezas e cria outras possibilidades.

Ana Decker, Katia Horn e Samara Rocha têm presenças muito diferentes, mas existe entre elas uma sintonia bonita. Elas se provocam, brincam, cantam, dançam e ocupam o palco com muita personalidade. Tem humor, mas também tem verdade.

A direção de Giorgia Conceição consegue juntar tudo isso sem deixar a cena perder sua liberdade. Assisti à pré-estreia sentada ao lado dela e foi muito bonito vê-la vivendo a peça junto com o público. Ela se emocionou, se divertiu, deu risada, reagiu às cenas. E eu achei bonito justamente por isso: naquele momento, ela também estava descobrindo a obra que construiu.

E tem muita coisa para olhar.

O figurino de Katia Horn é impecável. A cenografia, também assinada por Giorgia, cria imagens muito bonitas e conversa o tempo inteiro com os corpos em cena. A música de Edith de Camargo dá ritmo e atmosfera para as cenas. E a iluminação de Raul Freitas me chamou especialmente a atenção: nas mudanças de ato, a luz ajuda a transformar o espaço e a conduzir nosso olhar.

Mas Drolmas não fica apenas numa história antiga.

Fala de mulheres e das muitas formas de existir e resistir. Mulheres cis, mulheres trans, mulheres LGBTQIA+, mulheres de tantas histórias e experiências diferentes. Mulheres que tantas vezes têm seus corpos, desejos, vozes e escolhas julgados, controlados ou apagados.

Existe a violência que mata. E existe também aquela que vai destruindo aos poucos.

E ainda assim, elas continuam criando.

Talvez seja isso que eu tenha levado comigo depois da peça.

A sensação de que algumas histórias precisam mesmo ser contadas de novo. Não para apagar a violência, mas para que ela não seja o fim da história.

Eu não quero contar muito mais.

Algumas coisas são melhores quando a gente descobre sentado na plateia.

Talvez seja hora de conhecer Medusa antes do monstro.

Drolmas segue em cartaz até 4 de outubro, no Espaço Excêntrico Mauro Zanatta, com entrada gratuita.

Se puder, vá assistir.

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