Cultura
Álvaro da Silva: a despedida de um guardião da memória negra de Curitiba
Presidente da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, Álvaro da Silva morreu aos 80 anos. À frente da instituição por décadas, ele ajudou a preservar um dos mais importantes espaços da história e da cultura negra da capital paranaense
Foto: Daniel Castellano | Gazeta do Povo
Por redação
Curitiba se despede de Álvaro da Silva, presidente da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, que morreu aos 80 anos. À frente da instituição por décadas, ele se tornou uma das principais referências na preservação de um espaço que atravessa a história da população negra da cidade desde os últimos anos da escravidão.
Álvaro assumiu a presidência da Sociedade em 1997, segundo registros de pesquisas históricas sobre a instituição, e permaneceu ligado à sua direção até sua morte. Em 2025, a própria Sociedade 13 de Maio celebrou o “Jubileu de Ouro” de Álvaro, embora existam divergências nos registros públicos sobre o período exato de sua atuação na presidência. Por isso, mais do que estabelecer um número preciso de anos, é possível afirmar que sua trajetória esteve profundamente ligada à instituição durante décadas.
Sua relação com a 13 de Maio, porém, começou muito antes da presidência. Seu pai, Euclides da Silva, também esteve à frente da Sociedade. Álvaro frequentava o espaço desde jovem e, ao longo dos anos, passou de integrante a dirigente de uma instituição que já carregava mais de um século de história.
Uma história que começa antes da Abolição
A Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio foi criada em 1888, poucas semanas antes da assinatura da Lei Áurea.
A história da entidade está ligada a homens negros que, ainda sob o regime escravista, perceberam a necessidade de criar uma rede própria de solidariedade e auxílio. Entre os nomes relacionados à fundação está Vicente Moreira de Freitas, homem que havia sido escravizado e conquistado sua liberdade em 1884.
A criação da Sociedade revela uma dimensão fundamental do período pós-abolição: a liberdade jurídica não significava igualdade de condições.
Para a população negra, era necessário construir redes de apoio para enfrentar as dificuldades econômicas, sociais e profissionais de uma sociedade que havia acabado de sair de mais de três séculos de escravidão.
A 13 de Maio nasceu nesse contexto.
Ao longo de sua trajetória, a instituição ofereceu diferentes formas de auxílio aos seus associados, incluindo apoio médico, hospitalar, financeiro, educacional, social e funerário. Também criou espaços de convivência e sociabilidade que se tornaram fundamentais para a comunidade negra curitibana.
Mais que um clube
Localizada na Rua Desembargador Clotário Portugal, no Centro de Curitiba, a Sociedade 13 de Maio é reconhecida como um dos mais antigos clubes sociais negros em funcionamento no Brasil.
Sua importância, entretanto, ultrapassa a longevidade.
A instituição é um território de memória. Por suas dependências passaram gerações de famílias negras de Curitiba. Ali foram realizados bailes, festas, encontros e manifestações culturais. A casa também se tornou um espaço de pertencimento em uma cidade cuja história, durante muito tempo, foi contada principalmente a partir da presença e da contribuição dos imigrantes europeus.
A Sociedade 13 de Maio ajuda a lembrar que a população negra também participou ativamente da construção social, cultural e econômica de Curitiba.
E que essa presença não começou depois da Abolição.
Ela já estava na cidade antes de 1888.
A memória passada de pai para filho
A trajetória de Álvaro está diretamente ligada à continuidade dessa memória.
Seu pai, Euclides da Silva, também ocupou a presidência da Sociedade. Foi dentro da instituição que Álvaro conheceu parte importante da história da comunidade negra curitibana.
Em depoimentos registrados pela Casa da Memória de Curitiba, Álvaro relatou sua relação com a Sociedade e contou que chegou a Curitiba em 1976, passando a frequentar a entidade acompanhado do pai.
Essa dimensão familiar ajuda a compreender o significado de sua permanência na 13 de Maio.
Álvaro não chegou à instituição apenas como um dirigente. Ele fazia parte de uma tradição construída por diferentes gerações.
Ao assumir a presidência, em 1997, passou a carregar também a responsabilidade de preservar uma instituição fundada por homens negros em um momento de profunda transformação da sociedade brasileira.
Uma casa que precisou ser defendida
A importância da Sociedade ficou evidente novamente em 2023, quando sua sede histórica esteve ameaçada de ir a leilão por causa de uma dívida.
A situação mobilizou associados, artistas, produtores culturais e integrantes da comunidade negra. A mobilização conseguiu evitar a perda do imóvel e demonstrou que a 13 de Maio representa muito mais do que uma propriedade.
É um patrimônio de memória.
O episódio também mostrou a importância da atuação de Álvaro na defesa da instituição.
Ao longo de sua trajetória, ele esteve diante do desafio de manter funcionando uma entidade centenária em uma cidade que se transforma rapidamente e na qual espaços históricos nem sempre recebem a atenção necessária.
Uma história que permanece
A morte de Álvaro da Silva encerra a trajetória de um homem profundamente ligado à Sociedade 13 de Maio, mas não encerra a história da instituição.
Pelo contrário.
Sua ausência coloca novamente em evidência a responsabilidade de Curitiba com esse patrimônio histórico e cultural.
A Sociedade 13 de Maio sobreviveu à escravidão, à Abolição e às profundas transformações sociais que marcaram o país ao longo de mais de um século. Sobreviveu porque diferentes gerações entenderam que aquele espaço precisava continuar existindo.
Vicente Moreira de Freitas e os demais fundadores criaram a Sociedade em um momento em que a população negra precisava construir suas próprias redes de proteção.
Décadas depois, homens como Euclides da Silva ajudaram a manter essa história.
Álvaro recebeu essa memória do pai e passou décadas ajudando a preservá-la.
Agora, Curitiba se despede de seu presidente.
Mas a Sociedade 13 de Maio permanece como testemunho de uma história que também é a história da cidade.
Uma história negra, operária, cultural e de resistência que precisa continuar sendo contada.

