Cultura
Laura Cardoso, gigante da dramaturgia brasileira, morre aos 98 anos
Atriz construiu uma trajetória de mais de oito décadas no rádio, teatro, cinema e televisão e se tornou uma das grandes referências da interpretação no Brasil
Laura Cardoso, uma das maiores atrizes da dramaturgia brasileira, morreu aos 98 anos, em São Paulo. A informação foi divulgada pela família nesta terça-feira (18). Com mais de oito décadas dedicadas à atuação, Laura deixa uma trajetória que atravessa diferentes fases da cultura brasileira e ajudou a construir a história do rádio, do teatro, do cinema e, especialmente, da televisão no país.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, no bairro do Bixiga, em São Paulo, Laura descobriu ainda criança o prazer de representar. Aos 15 anos, iniciou profissionalmente a carreira artística em radionovelas na Rádio Cosmos. Poucos anos depois, acompanharia o nascimento da televisão brasileira e se tornaria uma de suas pioneiras.
Sua estreia na televisão aconteceu na TV Tupi, em 1952, no programa Tribunal do Coração. Na emissora, participou de teleteatros e novelas, entre elas Um Lugar ao Sol (1959) e Ídolo de Pano (1975). Ao longo das décadas seguintes, também trabalhou na Excelsior, Record, Bandeirantes e TV Cultura, construindo uma carreira marcada pela versatilidade e pela capacidade de transitar por diferentes gêneros e formatos.
Uma atriz de muitas gerações
Em 1981, Laura Cardoso chegou à Globo, convidada pelo diretor Daniel Filho, para atuar em Brilhante, de Gilberto Braga. A partir daí, tornou-se presença constante na televisão brasileira.
Seu currículo na emissora reúne alguns dos títulos mais populares da teledramaturgia nacional, como Pão-Pão, Beijo-Beijo, Livre para Voar, Fera Radical, Rainha da Sucata, Felicidade, Mulheres de Areia, A Viagem, Explode Coração, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, Gabriela, O Outro Lado do Paraíso e A Dona do Pedaço, sua última novela, exibida em 2019.
Entre suas personagens mais lembradas estão Isaura, de Mulheres de Areia, e Guiomar, de A Viagem. Mas reduzir sua contribuição à televisão seria deixar de lado uma parte fundamental de sua trajetória: o teatro, que permaneceu como uma de suas grandes paixões ao longo da vida.
Teatro, cinema e uma vida dedicada ao ofício
Antes e depois de se tornar conhecida do grande público, Laura manteve uma relação profunda com o palco. Trabalhou com importantes nomes do teatro brasileiro, entre eles Antunes Filho, e recebeu reconhecimento por sua atuação teatral, incluindo o Prêmio Shell.
No cinema, estreou em Imitando o Sol, em 1964, e construiu uma filmografia que inclui trabalhos como Quincas Borba, Terra Estrangeira, Através da Janela e O Outro Lado da Rua. Em 2025, aos 97 anos, participou do curta-metragem Dona Rosinha, demonstrando que a relação com a atuação permaneceu viva até os últimos anos.
Laura também emprestou sua voz à dublagem, interpretando, entre outros personagens, Betty, de Os Flintstones.
Ao longo da carreira, recebeu importantes reconhecimentos, entre eles o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra, o Prêmio Shell, o Troféu APCA e a Ordem do Mérito Cultural, concedida em 2006 em reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira.
Mais do que a quantidade de personagens ou décadas de carreira, o legado de Laura Cardoso está na permanência. Sua atuação atravessou gerações de espectadores e diferentes momentos da dramaturgia brasileira. Laura esteve presente quando a televisão ainda começava a construir sua linguagem, acompanhou suas transformações e continuou atuando quando novas plataformas e formatos passaram a disputar a atenção do público.
Sua trajetória se confunde, portanto, com a própria história da interpretação no Brasil. Uma carreira construída no rádio, amadurecida no teatro, ampliada pelo cinema e eternizada pela televisão.
Laura Cardoso deixa uma obra extensa e uma referência que ultrapassa personagens específicos: a de uma artista que fez da atuação um ofício para a vida inteira.

