Cultura
Quem ganha visibilidade? Os números de uma série do Jornal A Cena reacendem o debate sobre racismo algorítmico
Publicação sobre Ray tinha 483 visualizações em 26 de setembro; a de The Doors ultrapassou 34 mil. Diferença se soma a uma observação antiga da equipe sobre a circulação de conteúdos com artistas negros.
Por Redação
Quem decide quais histórias merecem aparecer? No Jornal A Cena, essa pergunta voltou à mesa durante a publicação da série Quando o ator vira rockstar, dedicada a atores que interpretaram grandes nomes da música no cinema.
O primeiro post, sobre Val Kilmer em The Doors, registrou 34.023 visualizações e cerca de 3.100 curtidas. O segundo, sobre Joaquin Phoenix em Johnny & June, chegou a 6.618 visualizações e 434 curtidas. Já a publicação sobre Jamie Foxx em Ray, filme que conta a história de Ray Charles, tinha 483 visualizações e 23 curtidas às 20h15 de 26 de setembro, segundo os dados exibidos pelo Instagram. Na primeira consulta, marcava 306 visualizações.
Os números não foram coletados após o mesmo intervalo de publicação e, por isso, não permitem uma comparação controlada de desempenho. Também não revelam por que o Instagram distribuiu cada post daquela forma. Mas a diferença chama atenção porque encontra uma inquietação que precede essa série: a percepção da equipe de que conteúdos sobre pessoas negras frequentemente exigem mais esforço para circular. Às vezes, marcamos pessoas, pedimos repostagens e mobilizamos nossa rede para tentar ampliar o alcance.
A questão não começa nem termina nos números de um perfil. O racismo algorítmico já é objeto de pesquisa. No livro Racismo Algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais, Tarcízio Silva examina como tecnologias podem incorporar e reproduzir hierarquias raciais. Pesquisas sobre a experiência de criadores negros nas plataformas também investigam os obstáculos que encontram para obter visibilidade. Esses trabalhos oferecem contexto para a pergunta do A Cena, sem determinar a causa do desempenho de um post específico.
Vivemos em uma sociedade atravessada pelo racismo estrutural. As tecnologias são criadas, treinadas e utilizadas dentro dela. Isso também aparece em sistemas de inteligência artificial: quando pedimos a imagem genérica de uma pessoa e recebemos repetidamente rostos brancos, vale perguntar quem está sendo apresentado como padrão. As formas de discriminação variam entre sistemas, um gerador de imagens não funciona como o Instagram, mas pesquisas já demonstraram desigualdades raciais em tecnologias de análise de imagens.
No jornalismo cultural, visibilidade tem consequências. Ela interfere em quais artistas despertam a curiosidade do público, quais obras entram na conversa e quais trajetórias permanecem à margem. Por isso, a diferença de desempenho na série não será tratada pela redação como um motivo para falar menos de Ray Charles. É motivo para olhar com mais atenção para as condições em que essa história circula.
Jamie Foxx interpretou Ray Charles em Ray (2004) e recebeu o Oscar de Melhor Ator na cerimônia de 2005. Seu trabalho e a trajetória do músico merecem ser conhecidos independentemente da resposta de uma plataforma. Nossa pergunta continua aberta, dirigida também ao público e às empresas que controlam a distribuição: quando uma história sobre um artista negro alcança menos pessoas, o que precisamos investigar antes de simplesmente concluir que “não interessou”?

