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Música

O Grammy Latino não dá conta da música que se faz no Brasil

Uma reflexão da cantora paraense Aíla sobre o acesso às premiações nos leva a perguntar quem fica fora das listas e quem ajuda o público a conhecer esses artistas

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Por Vanessa R Ricardo

Em uma publicação sobre o Grammy Latino, a cantora paraense Aíla Magalhães, afirmou que premiações desse porte são seletivas e abrangem um nicho pequeno da produção musical. Ela chamou atenção para as dificuldades que vêm antes de qualquer indicação: muitos artistas da Amazônia nunca chegaram a inscrever seus trabalhos. Outros só agora começam a encontrar caminhos para participar sem uma gravadora por trás.

A observação me fez pensar no que costumamos enxergar quando sai uma lista de indicados. O Brasil é um país continental, com artistas criando música em regiões, cenas e condições muito diferentes. Ainda assim, os nomes que recebem maior destaque nas premiações frequentemente já contam com visibilidade, equipes e investimento. A lista pode reconhecer trabalhos importantes, mas não é um retrato fiel da diversidade musical brasileira.

Isso não é uma crítica ao talento de quem foi indicado. É uma pergunta sobre quem teve condições de chegar até ali. Saber que uma inscrição é possível, entender as regras, preparar o material e fazer um lançamento circular exigem tempo, informação e, muitas vezes, dinheiro. Para um artista independente, cada uma dessas etapas pode ser um obstáculo.

Aíla fala a partir da realidade da Amazônia. Ao ler sua publicação, pensei também no Paraná. Quantos artistas que produzem música aqui são conhecidos pelo público do próprio estado? Quantos conseguem ultrapassar o círculo de pessoas que já frequentam seus shows e acompanham a cena?

Temos músicos com trajetórias e obras que merecem ser ouvidas. Mas muitos permanecem conhecidos apenas dentro de uma bolha. E não acredito que essa distância possa ser explicada simplesmente como falta de interesse do público. Como criar identificação com um artista cuja música quase nunca chega até você?

A imprensa tem responsabilidade nesse processo. Se um músico só aparece em uma nota às vésperas de um show, ou quando conquista um prêmio, o público perde a oportunidade de acompanhar seu trabalho. Conhecer uma cena pede continuidade: ouvir lançamentos, entrevistar artistas, fazer crítica, contar histórias e observar as condições em que essa música é produzida.

É parte do trabalho do jornalismo cultural fazer essa mediação, provocar reflexão e contribuir para a formação de público. Também há perguntas que precisam ser investigadas: quem tem acesso aos espaços de apresentação? Quem consegue investir em divulgação? Por que algumas trajetórias recebem cobertura constante enquanto outras seguem praticamente invisíveis?

Fazer crítica não significa distribuir elogios à produção local. Significa levá-la a sério o suficiente para escutar, pesquisar, questionar e oferecer ao público elementos para formar sua própria opinião. Uma imprensa que só divulga a agenda, sem acompanhar os artistas, deixa de contar boa parte da história cultural de sua cidade.

Premiações podem abrir portas para quem consegue participar delas. Mas a música brasileira continua muito além das listas de indicados. No Paraná, talvez possamos começar por uma pergunta anterior ao próximo prêmio: quem está fazendo música aqui e por que tanta gente ainda não teve a chance de ouvir?

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