Crítica Teatral
Línguas de Dragão: Leminski volta à cena a partir de uma entrevista com Aramis Millarch
Kauê Persona incorpora Leminski com maestria em um espetáculo que vai além do poeta para recuperar personagens, histórias e uma Curitiba cultural que ainda precisa ser lembrada
Foto: Fotos: Giulia Batista
Por Vanessa Ricardo
Dois anos depois da estreia de Cabaré Haicai, espetáculo da Na Carreira Produções que marcou a estreia de Estrela Leminski na dramaturgia com Roddrigo Fôrnos na direção, a companhia dá continuidade a um projeto dedicado à literatura paranaense. O primeiro trabalho nasceu em comemoração aos 80 anos que Paulo Leminski completaria naquele ano e abriu caminho para outros projetos ligados à literatura do Paraná.
Um ano depois, em 2025, veio Céu da Boca, espetáculo inspirado na obra do escritor curitibano Jamil Snege. Agora, em agosto de 2026, mês em que Paulo Leminski completaria 82 anos, chega aos palcos curitibanos Línguas de Dragão, definido pelo próprio diretor Roddrigo Fôrnos como um spin-off de Cabaré Haicai.
Desta vez, o ponto de partida é uma entrevista marcante que Paulo Leminski concedeu ao jornalista cultural curitibano Aramis Millarch, em 1982.
Na época, Leminski tinha 38 anos. Hoje, aos 37, Kauê Persona volta a interpretar o poeta. E digo interpretar, mas talvez a palavra que melhor defina o trabalho seja incorporar. Em muitos momentos, é como se Paulo Leminski estivesse ali, na nossa frente.
Kauê Persona personifica Leminski com maestria. E quem viu Cabaré Haicai vai perceber uma proximidade ainda maior com o personagem. É um Leminski menos sério, mais próximo daquele sujeito que conhecemos pelos relatos, pelas entrevistas e pela própria obra: afiado, rápido nas respostas, dono de um humor ácido e de muita ironia.
Um espetáculo de autor, em que Persona se entrega completamente à cena e “morre na coxia” para fazer, com maestria, o primeiro solo de sua carreira. Ouso dizer: Kauê Persona é um dos melhores atores de sua geração. Como é bom vê-lo em cena.
A direção de Roddrigo Fôrnos, as marcações e as projeções assinadas pela Quimera Produções deixam o espetáculo ainda mais forte. Mas destaco especialmente a dramaturgia, assinada por Fôrnos e Kauê Persona, que consegue transformar uma entrevista de mais de quatro horas em uma narrativa teatral que prende a atenção de início ao fim.
Também é muito acertada a escolha dos trechos da entrevista que recuperam artistas e amigos de Leminski que fizeram diferença na construção da cultura paranaense. Entre eles estão João Gilberto Tatára, Paulo Vitola e A Chave, banda precursora do rock paranaense e que, inclusive, marcou o início de Leminski como letrista.
É nesse ponto que Línguas de Dragão ganha uma dimensão que vai além do próprio Leminski. Ao recuperar essas vozes, o espetáculo também recupera uma parte da história cultural de Curitiba e de uma geração de artistas que ajudou a construir a identidade cultural da cidade.
O trabalho corporal, desenvolvido pela atriz e bailarina Ane Adade, também merece destaque. Assim como a cenografia de Guenia Lemos, lindíssima, com postes que remetem à década de 1980 e que, em determinado momento, se transformam em uma biblioteca.
E é impossível não falar da chuva.
Vilson Kurz faz chover dentro do espaço e, junto com a iluminação assinada por Semy Monastier, cria imagens de uma beleza quase poética. São momentos em que a cena deixa de ser apenas representação e ganha uma dimensão visual muito forte.
Minha preferência é sempre assistir a espetáculos dentro da caixa preta. Mas realizar o solo no SFCO 179 funcionou. O casarão antigo, que já foi teatro, volta a receber uma montagem teatral, pelo menos até o fim de agosto.
Em alguns momentos, o som do burburinho dos restaurantes lá embaixo acabou vazando para dentro do espaço e interferindo um pouco na experiência. Mas, ainda assim, acho interessante ver espetáculos ocupando lugares diferentes e criando outras relações com a cidade.
Línguas de Dragão é, no fim, um encontro entre duas figuras fundamentais para a cultura paranaense: Paulo Leminski, diante do microfone, e Aramis Millarch, atrás dele. Mas é também um encontro entre passado e presente.
A voz de Aramis não aparece em cena, mas permanece como uma presença invisível. Para quem já ouviu diversas vezes aquela entrevista, que está disponível na internet, é impossível não reconhecer a voz do jornalista enquanto Leminski ganha corpo diante dos nossos olhos.
Ao recuperar aquela entrevista de 1982 e colocá-la novamente em circulação no palco, o espetáculo nos lembra que a memória cultural de uma cidade também se constrói a partir das conversas, dos artistas, dos jornalistas e das histórias que escolhemos continuar contando.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças de Línguas de Dragão: fazer Leminski voltar à cena não apenas como poeta, mas como homem, artista e personagem de uma Curitiba cultural que ainda temos muito a descobrir.

