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Teatro

Um musical orientado pelo teatro no seu elemento fundante

“MINHA ESTRELA DALVA”
O TEATRO não vai morrer! Nem DALVA… Nem BORGHI.

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Foto: João Caldas

Por Leonardo Talarico

Recebi convite para assistir e realizar crítica da obra teatral “MINHA ESTRELA DALVA”. 

O musical é estrelado por SORAYA RAVENLE, com dramaturgia de RENATO BORGHI e direção de ELIAS ANDREATO e ELCIONOGUEIRA SEIXAS.

A peça descreve a trajetória de uma das maiores vozes nacionaispor meio de uma dramaturgia refinada, repleta de articulações fictícias e existenciais atravessadas por diálogos e solilóquios orientados pelo sagrado valor do Teatro. 

Renato Borghi (representa o próprio Borghi) contracena com Soraya Ravenle (Dalva de Oliveira) e Elcio Nogueira Seixas (no papel do jovem Borghi) e Ivan Vellame perpassa os amores de Dalva de Oliveira.

Borghi ressalta tudo ter começado com Renato ainda menino. 

Alí nasce uma paixão decantada por décadas, palcos e revoluções.

Local do seu início profissional com Marília Pêra (1987) e fechamento “delirante” de ciclo transpassado pelo esplendor das rádios dos anos cinquenta até Brecht.

Soraya Ravenle compreende todo o processo como um reencontro. 

Lugar comum destacar a importância de DALVA DE OLIVEIRA no cenário cultural. 

O lamento está exatamente no esquecimento das novas gerações. 

Mas como a função do artista é rememorar os elementos fundantes da estrutura social (artística), surge esta grande obra teatral/musical para trazer luz diante tempos sombrios.

Existe na passagem cênica uma narrativa diferente das apresentadas nos musicais tradicionais. Não se pode colocar na preguiçosa e tradicional prateleira biográfica. É obra viva, acesa por esplendor cênico e diversas integrações simbólicas. 

Não há compromisso apenas com o passado, mas também com o que deveria ter sido. Uma personagem não é o que ela foi, mas também o que deveria ter sido. Refazer encontros em delírios é uma forma de corrigir a própria vida. “Aquilo que não o foi, nós sonhamos” (Dante). 

A obra encontra início na descrição de uma relação “próxima” entre o ator/dramaturgo da obra RENATO BORGHI e sua “Dalva”. Um encontro imaginário e poético onde Renato invade o camarim de Dalva para propor um show com canções de Bertold Brecht e Kurt Weill.  

A dramaturgia – brilhante – de RENATO BORGHI apresenta diálogos e solilóquios atemporais intercalados. Borghi é replicado e contracena com a sua versão mais jovem de forma muito bem integrada (ELCIO NOGUEIRA SEIXAS). 

Muito interessante e perspicaz o risco da dramaturgia e direção, pois retira a obra do caráter musical comum e traz para o Teatro como um elemento edificante. 

A trama não se deita em texto lançado à chegada do brilhantismo sonoro; ao contrário, os elementos cênicos deixam a obra robusta e digna da multiplicidade desta (e destes) grande (s) artista (s). 

O aspecto emocional não fica isolado no repertório, mas no agrupamento. Grande acerto. Normalmente as personagens biografadas são apresentadas por seus feitos e até mesmo pelo impacto na vida de todos nós (plateia), mas a experiência de constatar a força contundente na existência do extraordinário BORGHI é um belo feito. 

De maneira sutil, DALVA surge não apenas como uma grande cantora, mas uma mulher multifacetada, repleta de afetividade e detentora de qualidades pessoais muito distantes da sociedade reacionária.

Todos os percursos estão em cena. Dalva caminha para o seu destino. Borghi para gerar plenitude à sua existência. 

A força da expressão: “EU NÃO TENHO DONO” ecoa sem precisar de canto.      

A direção e dramaturgia, conforme já um pouco pontuado,possuem diversas qualidades. A construção da obra aprofunda a linguagem e não aceita a superficialidade tradicional dos musicais. Escapa do mero caráter documental, isola a linearidade, traz gerações ao palco, apresenta fatos, símbolos e semiótica. Tudo com unidade e fluidez. 

Observamos o tudo pelos olhos de todos os (não) envolvidos. A narrativa não possui tímido compromisso. Ora Dalva, Borghi, Borghi jovem, seus amores… Tudo em comunhão e unidade. A passagem escapa do lugar comum e evolui contra a linguagem simplificada e pretensiosa dos inúmeros musicais aqui e acolá. 

Os figurinos de FÁBIO NAMATAME destacam o percurso histórico e emocional de Dalva de Oliveira, com corte teatral e ótima estética. Aos demais, impõe qualidade e pertinência, mas faz sua paleta acontecer nos cortes entregues à Dalva de Oliveira. Trabalho de filigrana.  

A cenografia de MÁRCIA MOON é imponente sem afogar atores e atrizes. Ajusta-se nas passagens cênicas com propriedade e entrega às personagens ambiência sólida e simbólica. Operação de muito bom gosto totalmente criada em favor da história contada. Traz – com poucos recursos financeiros – estruturas complementares e separadas como Dalva.

A iluminação de WAGNER PINTO acerta na delicada abertura do salão para abrigar todos quando necessário e apresenta excelentesrecortes destinados aos momentos mais dramáticos. Angulação, coloração, temporização e dosimetria pertinentes às expectativas da contação da história.

A direção musical e arranjos de WILLIAN GUEDES e os excelentes músicos que compõem a orquestra realizam um trabalho destacado. Além da categoria construtiva e executiva, possuemuma fluência pouco vista. Estão fortes ao lado da personagem, masem auxílio. Não se sobrepõem. Na mesma esteira, o grande valor do desenho de som de Cecília Lüzs e Roberta Helena

Importa ressaltar que todos os saberes teatrais estão em unidade na execução. Todos realizam o mesmo espetáculo e caminham muito bem entre os altos e baixos existenciais sem que para isso precisem buscar os caminhos mais fáceis conforme sói acontecer. 

Todos os atores estão horizontais e comprometidos com a contação das fortes vivências entrelaçadas. Mas Soraya Ravenle merece totaldestaque. A capacidade vocal é invejável. A voz alcança todos os seus dizeres sem mínimo exibicionismo. Faz tudo quanto necessário. O assombro é fruto da capacidade e não da necessidade de destaque. Por outro giro, a envergadura da atriz ao compor e apresentar uma personagem fidedigna nas vísceras e colocar toda sua dor em um lugar nobre faz de SORAYA um acontecimento em cena. As camadas de Dalva de Oliveira surgem no correto tempo da vida e com nítido pertencimento. As técnicas vocais e aantropologia teatral surgem como vocabulário da atriz que as acessa quando necessárias e na medida correta.

A entrega de Borghi é comovente. É Teatro de ator/atriz e companhia. 

As adaptações linguísticas de Soraya (português da época), dicção, “pivô” nos diálogos com dois tempos de Borghi e múltiplos acontecimentos tórridos é deslumbrantes. O público resta imantadoem deleite com a entrega da atriz que “morre na coxia” para dar vida à personagem histórica com viés real/emocional. Tudo na medida correta. Sem devaneios ou vaidade. Tudo em favor de Dalva de Oliveira. 

A direção de movimento de Roberto Alencar e Irupe Sarmientofaz atores e atriz caminharem para os seus destinos. Nada é gratuito. Nenhum movimento busca entretenimento. Movem-se por paixão. O deslize perfeito da realização cênica não encontra obstáculo. Há fluidez na primeira e segunda voz e humanização daspersonagens. Deslocamentos simbólicos de falas e canções. Transições de cena que respeitam a inteligência da plateia. Profundas pausas necessárias. 

Uma obra contundente, comovente pelo labor, pela homenagem, pela coragem e esmero na realização. 

Não bastasse, ainda estamos diante de estruturas fundantes do Teatro Brasileiro. Uma grande Obra. Um dia de louvar e agradecer. O Teatro que acreditamos não morrerá.

 

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