Cultura
Paulo Leminski faria 82 anos: o poeta curitibano que também queria virar música
Da cena do rock curitibano às parcerias com grandes nomes da música brasileira, Leminski transformou poesia em canção
Por Jornal A Cena
“Meu sonho é que um dia todo mundo vire música.”
A frase de Paulo Leminski ajuda a entender uma dimensão importante de sua obra que, muitas vezes, fica em segundo plano diante da força de sua produção literária. Poeta, escritor, tradutor e jornalista, Leminski também foi compositor e encontrou na música outra maneira de experimentar a palavra.
Nesta segunda-feira (24), data em que completaria 82 anos, o escritor curitibano é lembrado também por sua trajetória musical, construída a partir de encontros, parcerias e da própria efervescência cultural de Curitiba.
O rock de Curitiba
A relação de Leminski com a música ganhou força ainda nos anos 1970, quando passou a conviver com os integrantes de A Chave, uma das bandas pioneiras do rock paranaense.
Leminski não fazia parte da formação do grupo, mas frequentava a chamada Casa Branca, espaço ligado aos músicos da banda. A aproximação deu origem a uma parceria especialmente importante com o vocalista Ivo Rodrigues.
No show de estreia de A Chave, em 1975, sete das 14 músicas apresentadas eram parcerias com Leminski. Entre as composições dessa fase estão “Buraco no Coração” e “Me Provoque pra Ver”, posteriormente registradas no compacto lançado pela banda em 1977.
A experiência aproximou ainda mais duas linguagens que já estavam presentes na vida do poeta: a literatura e a música.
A palavra que ganhou melodia
A parceria com A Chave foi apenas o início. Ao longo da carreira, Leminski escreveu canções com diferentes compositores e músicos, transitando por universos musicais distintos.
Entre seus parceiros estão nomes como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, Guilherme Arantes, Zé Miguel Wisnik e Paulinho Boca de Cantor.
A lista revela também uma característica importante de sua produção: Leminski não parecia interessado em estabelecer fronteiras rígidas entre a poesia e a canção. A palavra podia estar em um livro, em um disco ou no palco.
Uma de suas composições mais conhecidas, “Verdura”, ganhou projeção nacional ao ser gravada por Caetano Veloso. Já “Promessas Demais”, parceria com Moraes Moreira, chegou ao grande público como tema de abertura da novela Paraíso.
Com Guilherme Arantes, Leminski também participou da criação de músicas para Pirlimpimpim 2, programa infantil da TV Globo. Entre elas está “Xixi nas Estrelas”, que se tornou uma de suas canções mais conhecidas.
Um poeta entre músicos
As composições de Leminski foram interpretadas por diferentes artistas da música brasileira, entre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Zizi Possi e Arnaldo Antunes.
Essa circulação ajuda a dimensionar a importância de sua produção musical. Mais do que um poeta que eventualmente escrevia letras, Leminski construiu uma obra em que a musicalidade fazia parte de seu próprio modo de criar.
Sua poesia já carregava ritmo, síntese, humor, oralidade e experimentação. Ao se transformar em canção, esses elementos encontravam outras possibilidades.
Leminski e Curitiba
Relembrar o compositor também é olhar para a Curitiba cultural das décadas de 1970 e 1980. Foi na cidade que Leminski estabeleceu parte importante de suas relações artísticas e onde participou de uma cena que reunia literatura, música, teatro, artes visuais e contracultura.
A parceria com A Chave é um dos exemplos dessa efervescência. O encontro entre o poeta e os músicos mostra como a produção cultural curitibana também foi construída a partir desses cruzamentos.
Leminski morreu em 1989, aos 44 anos, mas sua obra continuou circulando e sendo redescoberta por novas gerações.
O sonho de virar música
Ao lembrar Paulo Leminski em seu aniversário, portanto, vale olhar além dos livros.
Há o poeta, certamente. Mas há também o compositor que escreveu para bandas, criou parcerias, emprestou seus versos a diferentes intérpretes e fez da música uma extensão de sua poesia.
Talvez por isso sua frase continue tão atual:
“Meu sonho é que um dia todo mundo vire música.”
No caso de Leminski, o sonho já aconteceu. Suas palavras continuam sendo cantadas.
Paulo Leminski faria hoje 82 anos. E Curitiba ainda escuta sua voz.

