Cultura
Morre aos 43 anos Pretícia Jerônimo, fotógrafa que fez o conhecimento circular
Fundadora do LAB Secreto, artista, pesquisadora e arte-educadora dedicou uma década à fotografia analógica, aos processos históricos e à formação de novos olhares.
Foto: Leco de Souza
Por redação
A fotógrafa, cineasta e arte-educadora Pretícia Jerônimo morreu nesta segunda-feira (8), aos 43 anos. Há seis anos, ela havia descoberto um câncer.
A doença não interrompeu sua produção. Pretícia seguiu criando, pesquisando e, principalmente, compartilhando conhecimento. Em 2026, ano em que o LAB Secreto completou uma década, participou como artista convidada da 61ª Bienal de Veneza, a convite da Savvy Contemporary, organização sediada em Berlim, apresentou uma exposição individual em Curitiba e colocou em prática um dos projetos que sintetizavam sua trajetória: a residência artística Luz Negra: De Volta ao Quarto Escuro.
Em março, Pretícia apresentou na Aliança Francesa de Curitiba a exposição individual Fleurs de Lumière. A mostra reuniu trabalhos produzidos a partir da cianotipia, processo fotográfico histórico que utiliza a ação da luz para revelar imagens em seus característicos tons de Azul da Prússia.
Na exposição, Pretícia aproximava fotografia e botânica para investigar memória, natureza e permanência. Folhas, flores e outros elementos naturais participavam diretamente da construção das imagens, em um processo no qual a luz e o tempo deixavam de ser apenas ferramentas e se tornavam também matéria do trabalho.
Fleurs de Lumière estava profundamente ligada à pesquisa que Pretícia desenvolvia em torno da fotografia lenta. Em oposição à produção instantânea e ao excesso de imagens contemporâneas, seu trabalho recuperava processos que exigem observação, experimentação e espera.
A exposição também se desdobrou em formação. Pretícia realizou uma visita mediada à mostra seguida de uma oficina de cianotipia, permitindo que o público experimentasse o mesmo processo fotográfico presente nas obras.
Meses depois, essa relação entre pesquisa e compartilhamento de conhecimento ganharia uma dimensão ainda maior.
Em agosto, começou a residência artística Luz Negra: De Volta ao Quarto Escuro, idealizada por Pretícia em parceria com o LAB Secreto, a ARS55 e a Oficina Espaço de Arte. Seis artistas foram selecionados para três meses de formação gratuita em processos fotográficos históricos, alternativos e analógicos, com materiais, insumos laboratoriais e auxílio-transporte.
A residência começou no dia 18 de agosto, menos de um mês antes de sua morte.
O dado ajuda a dimensionar não apenas o caráter precoce de sua morte, mas o momento em que ela aconteceu. Aos 43 anos, Pretícia estava em plena atividade, transformando uma pesquisa construída ao longo de uma década em conhecimento compartilhado com outros artistas.
Sua trajetória atravessou a fotografia, o cinema, a música e a formação artística. Mas talvez seja impossível falar de seu trabalho sem falar também de tempo.
Em uma época em que milhões de imagens são produzidas e descartadas em poucos segundos, Pretícia escolheu caminhar na direção contrária.
Ela investigava a fotografia analógica e os processos históricos compreendendo a imagem não apenas como registro, mas como construção, experiência e permanência. Dessa pesquisa nasceu uma metodologia de fotografia lenta, que propunha uma relação mais consciente com a produção visual.
Em vez da imagem imediata, interessavam a observação, a espera e a revelação.
O próprio nome Luz Negra carregava parte dessa pesquisa. A expressão fazia referência à luz ultravioleta utilizada em processos históricos, como a cianotipia, mas também aos conhecimentos produzidos por pessoas negras que estruturavam a proposta curatorial da residência.
Inspirada pelas filosofias africanas presentes em O Espírito da Intimidade, de Sobonfu Somé, Pretícia propunha uma perspectiva afrocentrada para pensar imagem, território, memória e representação.
“A fotografia é um lugar onde autorizamos determinados olhares. Quando produzimos uma imagem, também afirmamos que aquele olhar importa”, dizia Pretícia ao apresentar o projeto.
Não era apenas uma discussão sobre técnica fotográfica. Era sobre quem produz as imagens, quem constrói as memórias e quais olhares são autorizados a permanecer.
Essa preocupação atravessou também o LAB Secreto, fundado por Pretícia e que completa dez anos em 2026. O laboratório se tornou um espaço dedicado à pesquisa, preservação e difusão de processos fotográficos históricos, alternativos e analógicos, democratizando técnicas que muitas vezes ficam restritas a estruturas especializadas e de alto custo.
Ao mesmo tempo em que produzia suas próprias imagens, Pretícia ensinava outras pessoas a produzi-las.
Poucas semanas antes de morrer, ao explicar por que havia decidido transformar uma década de pesquisa na residência Luz Negra, ela disse:
“Durante muitos anos construí essa pesquisa dentro do laboratório. Agora chegou o momento de fazê-la circular. O conhecimento precisa circular.”
E circulou.
Quando Pretícia morreu, seis artistas estavam justamente aprendendo os processos que ela passou anos pesquisando.
Talvez esteja aí uma das dimensões mais bonitas de seu legado: uma fotógrafa que dedicou sua vida à permanência das imagens também encontrou uma maneira de fazer permanecer o conhecimento.

