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Crítica Teatral

Oscilação ou Fazer o incômodo ecoar

Sobre o time de atores (Georgette, Pascoal, Estrela D’alva, Thalin, Thiago Amaral, Renato Livera, Milla Fernandez e participação de Gabriela Geluda) todo elogio ainda é pouco. Estão lá predispostos a provocarem, serem provocados, a se divertirem no próprio fazer.

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Foto: Mayra Azzi

Por gabriel m. barros

   É leitores: começar não é fácil. Tive a ideia de algumas possíveis introduções para essa crítica, contudo, tendo a crer que todo o texto será uma introdução nunca finalizada. Pode ser o indicativo de que toco apenas nas margens do próprio espetáculo, o que a mim, me parece muito bom, como é muito bom contemplar o horizonte de um campo aberto, dum mar, enfim, de algo maior do que as vistas podem dar conta e a nossa lógica explicar. 

O fato é que acompanho a mais tempo o trabalho de Felipe Hirsch e isso, me parece, não facilita as coisas, mas as embaralha. O atual empreendimento dele retoma parceiros de outros trabalhos, como Juuar, Caetano Galindo, Georgette Fadel, Roberta Estrela D’alva, Pascoal Da Conceição, entre outros. É uma constelação enorme de pessoas incríveis no seu ofício. Ao mesmo tempo, que há em si um fundo comum, um diálogo com o que antes foi proposto, o próprio diretor afirma que está numa nova fase de trabalho. A ideia de eco me vem à cabeça. Também lembro que a teoria do eterno retorno não foi finalizada, então só margeio a questão mesmo. Ao mesmo tempo, me apetece pensar no quanto ao tentar romper consigo mesmo várias das nossas obsessões reaparecem e se adensam.

Orkhḗstra Phántasma é muita coisa: um emaranhado, um assombro, um susto, um eco e também um desprendimento: é fazer da cena limite e expansão, nessa coisa ambígua mesmo. Não é um espetáculo fácil, muito menos de todo agradável. Ele inquieta, incomoda, tem seus excessos, e é vertiginoso. É dessas coisas que a gente acha muito lindo e bizarro também. Num mundo tecnológico, que tudo parece estar a nosso serviço (essa é a falsa ilusão, já que somos nós que estamos trabalhando o tempo todo) tem vontade de pausar, voltar, legendar determinadas cenas, de vê-las com o texto da peça na mão e ir acompanhando. Talvez, por isso, dez minutos de meditação no meio do espetáculo sejam necessários pradeixar o incômodo assentar dentro da gente, ou vibrar. 

Foi a primeira vez que fui a uma peça com um caderninho pra tentar anotar alguma coisa, e saiu uma porção de palavras soltas, de ideias que tentei sintetizar. Coloco-as aqui propositalmente: “Oscila” (primeira palavra realmente dita na peça, e que me parece já dizer muito, nesse jogo de é não é), “Defina”, “Sentir pensar”, “Som sem pensar”, “Grito”, “Saciado ou ativado”, “Risco”, “Dificuldade da partilha do silêncio e de manter pactos grupais”, “Possibilidade de parar”, “Esquecer o que foi visto até aqui”. 

Pelo próprio movimento da peça, é aquela que mais vi o público se retirando, o que não diz nada e diz muito. Se o teatro é rito, pessoas se retirarem no meio dele significa o quê? E acaba instaurando o quê? Me parece que no próprio ato de romper com o rito, se constrói aí uma nova coisa, que também se pode chamar de ritualístico. Mas é pena, perdem a cena final, que é um deslumbre. 

Aliás, por cena final, a peça abre e fecha com Georgette Fadel encenando uma criança, o que me faz pensar que tudo o que foi visto pode ser os fantasmas que margeiam a cabeça de uma criança, esses gritos, essas ideias que se formam e evaporam, essas vozes que se confundem, falam ao mesmo tempo, falam a mesma coisa juntos, enfim, o espetáculo pode ser essa coisa de infância das ideias, afinal nós sempre estamos nessa fase do que pensamos. 

Porém, é uma peça que é também dos sentires, não em oposição ao pensar, mas me parecendo que o sentir é também uma forma de se pensar, ou que pensar é uma resposta ao sentir, algo assim, meio embaralhado e enevoado. Me chama muito a atenção como o corpo, com direção de movimento de Eduardo Fukushima, é condensado e milimetricamente calculado para a peça. Como, nesse sentido, a iluminação, de Beto Bruel, ora faz a belíssima cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara aparecer, ora desaparecer pelo foco recair apenas nos atores. Sinalizo tudo isso, pois várias cenas os movimentos dos atores são comedidos, restritos a um espaço permeado pelo foco de luz. São raras as cenas em que os atores fazem uso de todo o palco, passeiam por ele. Minha sensação é que nesse comedimento tendencioso, o próprio corpo do espectador se movimente, se inquieta, vibre, se movimente, fazendo do corpo essa primeira antena que capta o que está vivenciando. E é um corpo que é levado até o extremo, quando precisa, por exemplo, controlar a vontade de fazer xixi, após 3h de duração de espetáculo. 

Ainda assim, há momentos que embalados por uma música, os corpos no palco explodem, saem dançando descompassadamente, num gesto de liberdade extremo e que, mesmo na estranheza da dança é um convite à liberdade, numa beleza que só o corpo em movimento produz. 

Sobre o time de atores (Georgette, Pascoal, Estrela D’alva, Thalin, Thiago Amaral, Renato Livera, Milla Fernandez e participação de Gabriela Geluda) todo elogio ainda é pouco. Estão lá predispostos a provocarem, serem provocados, a se divertirem no próprio fazer. Passemos à eles: Georgette quando entrou em cena, abrindo o espetáculo me fez relampejar em meus próprios botões “ela conta a história da humanidade” e logo me corrigir “ela é a própria humanidade”, uma “metralhadora em estado de graça” (expressão que pego do Teto Preto, em sua música Gasolina, que por sua vez roubaram do Poemas Vertigem de Roberto Piva); Pascoal de perfil, falando coisas corriqueiras como “não corre criança” e dando, de quando em quando, risadinhas, é a mostra do quanto o cotidiano é bonito, poético e que dá vontade de se estar nele; Roberta, minha nossa, te botaram no precipício e você pulou com muito profundo respeito e aproveitando a paisagem, creio que não sai ilesa de nenhuma das apresentações; Thiago Amaral, foque nas inalações, você me fez ranger a cadeira, e que delícia aquele bando de “Plom plom” e outras coisas que enunciou, sempre bom aprender gramáticas outras; Renato, eu realmente gosto demais de lhe ver em cena, o Beethoven e o eletrocutado são um deleite; Milla, que alegria enorme poder conhecer seu trabalho e o quanto torna o palco em algo seu, com uma elegância e um poder vocal gigantes; Thalin, que já tinha visto em Da consolação ao Paraíso, agora tem texto, maiores cenas, tem crescido o comprometimento cênico e tem sido bonito acompanhar; Gabriela impecável em suas cenas e seu canto lírico, mesmo nas situações mais caóticas, ainda se mantinha dentro do seu próprio acorde. 

Eu poderia ainda comentar das cenas que me fisgaram, mas aí seriam muitas. Não o faço. Só friso a última, que é uma ligação com a primeira e me lembrou bastante, em certo sentido, outro trabalho da Fadel, que é o Aqui¹⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰, peça da Elisa Ohtake, em que é feito um prólogo de duas horas, enquanto aguardam Georgette para fazer a peça em 15 min. Pra mim há certa ligação, é como se toda o rito cênico fosse feito para preparar ou nos despreparar para essa cena. E o que Georgette faz em poucos minutos foi acionar várias coisas dentro de mim,sai com um bolo na garganta, as vistas turvas, uma vontade de chorar de tanta beleza e dor que vi ali, tudo ao mesmo tempo, pois é uma atriz dando piruetas na nossa cabeça, lembrança, peito. 

Estranhamente, ou quase propositalmente, não falei da ideia do rádio que é tremendamente forte na encenação. Não o faço, pois vários outros já o fizeram. Entretanto, como a brincadeira é com essa lógica da frequência, de como a cabeça é essa espécie de antena que vai captando e digerindo várias estações quase que ao mesmo tempo, me encaminho para o fim, apresentando um emaranhado de coisas, todas sem nexo, exceto pelo fato deu mesmo as ter acessado nesses últimos dias (um pouco a narradora do Perdoando Deus, de Clarice, que entre a contemplação e o rato, não vê nexo, contudo os viu na sequência também), que de alguma maneira me ligam com a peça, dum jeito que ainda não sei explicar. As enumero a seguir:

1. No trem pra casa, abro o instagram: chamada da revista Piauí, matéria escrita por Vinicius Cacofonias sobre a morte do filho, Chico. 
2. No dia seguinte assisti uma encenação de Beckett (Dias Felizes, no Sesc Pompéia, que em breve também farei crítica). O sentir e pensar  lá. O som sem sentido também.
3. Perdoando Deus vi numa encenação também no dia seguinte. 
4. Estou lendo O mito de Sísifo, do Camus, tem algo ali que ressoa nessa Orkhstra. Talvez a questão mais importante para a filosofia, segundo a ideia do autor, ou, é Sísifo sorrindo em cena.
5. Vira e mexe, pelo instagram, Hirsch indica alguns álbuns e achados dele. Foi com ele que conhece Julius Eastman. Tem certo estranhamento que ligam os dois.
6. Ouvi a pouco Luz do tango, do álbum Corra o risco, da Olivia Byington com a Barca do Sol. Nada a ver, tudo a ver.  

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