Cinema
“O Convite” promete tensão, mas permanece à porta de grandes reflexões
Na análise de Leonardo Talarico, o longa dirigido por Olivia Wilde sustenta o interesse pelas atuações e pelos diálogos, mas esgota seu potencial ao optar pelo entretenimento em vez de aprofundar os conflitos que propõe.
Por Leonardo Talarico
O filme “O Convite” é uma adaptação do filme espanhol “Sentimental” (2020). Na presente película, Angela (Olivia Wilde – também assina a direção) e Joe (Seth Rogen) formam um casal em crise repleto de problemas comezinhos. No mesmo prédio residem Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), um casal liberalconectado de forma enigmática com Angela e Hank.
O filme larga no convite unilateral feito por Angela ao casal Piña e Hawk sem maior conhecimento ou lembrança do seu marido sobre o famigerado evento social. O jantar possui como precedentes não apenas os problemas existentes no matrimônio de Angela e Hawk, como uma certa irritabilidade diante dos comportamentos intrusivos do casal de vizinhos convidados. À guisa de exemplo, o barulho excessivo e recorrente das atividades sexuais.
Não bastasse, importante convite está por vir. Após certa resistência de Joe ao evento (causador, inclusive, de rusga do casal ouvida à espreita pelo casal convidado na porta), todos se acertam e partem para o encontro a quatro paredes. A película transcorre dentro da residência. O filme confia na contação da história e nas decorrentes afetividades interpessoais para sustentar êxito.
A direção acredita fielmente nas interpretações e nos confrontos decorrentes de visões de mundo díspares e do tempo distante e mal gerido dentro do matrimônio.
O texto transfere a ação física à ação psicológica. As pausas reflexivas da imagem causam um turbilhão no público diante das angústias e confrontos existenciais. As verdades surgem junto com as diferenças sem o peso das tintas nas interpretações. Os pensamentos sobre as relações surgem como descobertas e dúvidas e não oferecem ao público maior peso dramático.
A obra é um ponto de partida a um emaranhado cognitivo capaz de dúvidas e frustrações. Apresentados com leveza e naturalidade. Revelações, flertes e propostas constrangedoras são postas e recebidas como dúvidas sob a orientação correta de vida e união.
Os atores realizam as suas interpretações de forma horizontal com alguns desvios ao exagero nos pontos de retenção. A naturalidade traz uma interpretação distante da memória do futuro. Tudo parece ocorrer no momento dos fatos.
O filme flerta com Woody Allen sem a categoria inerente da sua escrita e apresentação mais robusta. Os vizinhos excêntricos naturalizam seus mecanismos de atuação, enquanto deprimido e neurótica buscam desesperadamente uma fuga à inércia matrimonial e o marasmo pessoal vivente.
Esse é um filme que se passa essencialmente dentro de uma casa, ou seja, não há muitos recursos temporais, mudanças de cenário ou efeitos para entreter o espectador.
O roteiro de Will McCormack e Rashida Jones protagonizam razoável passagem cênica. Em muitos momentos, os atores apenas deixam fluir as inúmeras demandas trazidas pelo texto e os atores e atrizes emprestam alguns comportamentos mais primários e óbvios que evitam caminhe a obra para um lugar mais profundo.
O texto possui bons diálogos e solilóquios, mas também entregalugar comum incapaz de maior aprofundamento. O filme é uma passagem reflexiva com tons de identificação e curiosidade, mas a força está no entretenimento. Wilde, na direção cinematográfica, estabelece bem a oposição (lírica e épica) entre as personagens. Todas se atraem e se afastam na dinâmica das ocorrências inusitadas.
A pulsação não perde fôlego. Mesmo diante de fatos incrédulos e comportamentos mais jocosos. As interações têm por objetivo primário o entretenimento, mas não se atreve descer nos fatos mais latentes. A sombra das personagens auxilia essa pulsação, pois em vários momentos não se sabe como será desenrolado o conjunto circunstancial.
A trilha sonora de Dev Hynes produz a temperatura pretendida pela direção do “suspense”.
A película muito promete, mas não se envereda mar adentro. Aceita permanecer em um lugar comum e esgota a sinopse. A graça gratuita acaba por engolir maiores reflexões.
A ousadia e o desenvolvimento ficaram para um futuro mais corajoso.
A paciência acaba antes do filme.
Não há lembranças para levar para casa.
Seu sucesso no IMDB é mais um sintoma da mediocridade vigente do que dos atributos cinematográficos.
Como diz a obra no seu cartaz: “tudo pode acontecer”.
Entretanto, nada acontece.

