Cultura
Taiguara foi o artista mais censurado pela ditadura militar; relembre outros nomes perseguidos pelo regime
Compositor teve entre 68 e 100 músicas vetadas pela censura e foi obrigado a deixar o Brasil durante os anos de repressão
Foto: Arquivo
A censura à produção artística foi uma das principais ferramentas utilizadas pela ditadura militar brasileira (1964–1985) para controlar a circulação de ideias. Entre os artistas perseguidos pelo regime, nenhum sofreu tantas restrições quanto o compositor e cantor Taiguara, considerado o músico mais censurado do período.
Levantamentos históricos apontam que entre 68 e cerca de 100 de suas canções foram proibidas pelos órgãos de censura. As constantes proibições inviabilizaram sua carreira no país e o levaram ao exílio na Europa durante a década de 1970.
A repressão atingiu seu ponto máximo em 1975, com o lançamento do álbum Imyra, Tayra, Ipy. O disco, que abordava questões sociais, políticas e nacionalistas, teve todas as faixas vetadas antes de chegar ao público. O espetáculo de lançamento foi proibido e os exemplares chegaram a ser recolhidos das lojas apenas 72 horas após o início da distribuição.
A perseguição fez parte de uma estratégia mais ampla de silenciamento da produção cultural crítica ao regime, atingindo músicos, dramaturgos, cineastas, escritores e jornalistas.
Outros artistas perseguidos
A censura também marcou a trajetória de alguns dos maiores nomes da cultura brasileira.
Chico Buarque teve dezenas de músicas e peças de teatro proibidas. Para driblar os censores, chegou a utilizar o pseudônimo Julinho de Adelaide, estratégia que permitiu o lançamento de algumas composições antes que sua autoria fosse descoberta.
Já Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos no fim de 1968, logo após a edição do AI-5. Meses depois, foram obrigados a deixar o país e passaram parte do exílio em Londres, onde seguiram produzindo música.
Entre as mulheres, Rita Lee foi uma das artistas mais atingidas pela censura. Diversas letras foram vetadas pelos órgãos do regime e o álbum Bombom chegou a ser proibido, tornando-se um dos casos mais emblemáticos da repressão à produção musical brasileira.
Memória e liberdade artística
Quatro décadas após o fim da ditadura militar, a trajetória desses artistas permanece como um registro da resistência cultural diante da repressão estatal. Suas obras continuam sendo referências da música brasileira e ajudam a compreender como a censura afetou a produção artística e a liberdade de expressão no país.
Quem foi Taiguara
Taiguara Chalar da Silva nasceu em 9 de outubro de 1945, em Montevidéu, no Uruguai, e mudou-se ainda criança para o Brasil, onde construiu sua trajetória artística. Compositor, cantor e pianista, destacou-se na década de 1960 por canções que combinavam lirismo, críticas sociais e reflexões sobre a realidade brasileira.
Durante a ditadura militar, tornou-se o artista mais censurado do país. Dezenas de suas músicas foram vetadas e, em 1975, o álbum Imyra, Tayra, Ipy teve todas as faixas proibidas pelos órgãos de censura. A perseguição política o levou ao exílio e interrompeu o auge de sua carreira.
De volta ao Brasil no fim dos anos 1970, Taiguara continuou compondo e gravando, mas nunca recuperou a mesma projeção alcançada antes da repressão. Ainda assim, deixou um repertório que inclui canções como Hoje, Universo no Teu Corpo, Amanda e Que as Crianças Cantem Livres, obras que permanecem como parte importante da história da música popular brasileira.
Taiguara morreu em 14 de fevereiro de 1996, aos 50 anos. Quase três décadas após sua morte, sua obra segue como um dos mais contundentes registros da resistência artística à censura durante a ditadura militar brasileira.

