Música
Antes da Blindagem, A Chave abriu caminho para o rock autoral no Paraná
Fundada em 1969, A Chave ajudou a inaugurar o rock autoral no Paraná e transformou uma casa na Rua Padre Anchieta em um dos principais pontos de encontro da efervescência cultural curitibana dos anos 1970.
Por Vanessa Ricardo
Curitiba já teve uma Casa Branca. Não a residência oficial dos Estados Unidos, mas uma casa na Rua Padre Anchieta que se transformou em ponto de encontro de artistas, músicos, escritores e pensadores durante a década de 1970. Foi ali que a banda A Chave, considerada uma das precursoras do rock autoral no Paraná, consolidou parte de sua trajetória e ajudou a construir um ambiente de criação que marcaria a cultura curitibana.
A história da banda começou em 1969, quando Paulo Teixeira e Ivo Rodrigues se conheceram no programa de calouros da TV Paranaense, comandado por Júlio Rosemberg. Ivo recebeu o Troféu Barra Limpa como melhor cantor. Paulo, ao lado da banda Os Jetsons, formada em Palmeira, foram premiados como melhor grupo. Daquele encontro nasceu uma parceria que se tornaria um dos capítulos fundadores do rock produzido no Estado.
“O início foi em Palmeira. A cidade respirava música. Tinha a banda de metais, os sinos da igreja, o coreto. Ao mesmo tempo chegavam Beatles, Rolling Stones e toda a influência da Jovem Guarda. A gente aprendia ouvindo os discos de vinil do começo ao fim”, relembra Paulo Teixeira.
A mudança para Curitiba aconteceu em busca de estudo e trabalho, mas também ampliou as possibilidades musicais do grupo. Foi na capital que os músicos conheceram Orlando Azevedo e Carlos Gaertner e decidiram abandonar o nome Os Jetsons.
“Havia três possibilidades: A Janela, Psico e A Chave. Escolhemos A Chave porque representava melhor aquele momento. A partir dali começamos uma atuação muito forte na cidade, tocando rock clássico e, aos poucos, construindo um trabalho autoral.”
Com a formação consolidada, Ivo Rodrigues, Paulo Teixeira, Orlando Azevedo e Carlão Gaertner a banda alugou uma casa na Rua Padre Anchieta. O imóvel ganhou o apelido de Casa Branca depois que os próprios moradores pintaram até o telhado de branco.
Mais do que sede da banda, o endereço se tornou um espaço de convivência artística.
“Ali formamos o Laboratório de Comunicação e Criação A Chave. Recebíamos músicos, desenhistas, atores, fotógrafos e pintores. Era um ambiente de criação permanente.”
Entre os frequentadores estava Paulo Leminski, que já despontava como uma das principais vozes da literatura paranaense. A convivência resultou em parcerias e reforçou a aproximação entre poesia e música, característica que mais tarde marcaria a produção de Ivo Rodrigues.
“Foi convivendo com o Leminski que percebemos a força que a poesia ganhava quando encontrava a música. A partir dali começamos a compor nossas próprias canções.”
Embora tenha permanecido em atividade durante cerca de dez anos, A Chave nunca lançou um disco em estúdio. O reconhecimento da banda veio principalmente pelos shows e pela influência exercida sobre a cena curitibana.
Em 1977, a banda lançou um compacto, intitulado “De Ponta Cabeça“, com duas canções em parceria com Paulo Leminski.
Anos depois, um episódio inusitado ajudaria a preservar parte dessa história. Um ensaio gravado de forma não autorizada circulou em São Paulo como um CD pirata, com capa e encarte.
“Quando vimos o disco, resolvemos piratear o pirata”, lembra Paulo, entre risos. “Fizemos uma edição igual àquela e lançamos 500 cópias, que acabaram rapidamente.”
Em 1979, A Chave encerrou as atividades. Ivo Rodrigues iniciou uma nova fase ao lado da Blindagem, levando consigo parte da experiência construída na banda e as parcerias musicais com Paulo Leminski. Paulo Teixeira acompanhou essa trajetória como guitarrista.
Hoje, o músico trabalha na recuperação do acervo da banda.
“Estamos digitalizando todo o material que ainda existe da Chave. Em breve vamos apresentar essas novidades.”
Mais de cinco décadas depois, A Chave permanece como um dos capítulos fundadores do rock autoral paranaense. A primeira formação nasceu da banda Os Jetsons, criada em Palmeira, e reunia Paulo Teixeira, Jorge Vitor, Antonio Bacila, Édson Recksidler, Ignezel Vida e Franco Meneghini. Foram eles que deram os primeiros passos de uma trajetória que, mais tarde, ganharia novos integrantes e encontraria em Curitiba o ambiente para consolidar um movimento que ajudou a escrever a história do rock no Paraná.

