Interaja conosco

Crítica Teatral

Ópera Salvator Rosa

Uma grande Ópera destaca-se pela integração artística, excelência vocal e teatralidade convincente, além de uma produção técnica e musical muito bem coordenadas

Publicado

em

Foto: Saleyna Borges

Por Leonardo Talarico

Agradeço o honroso convite feito pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro para assistir a Ópera Salvator Rosa e realizar a crítica (sobretudo por ter sido o único crítico brasileiro convidado). 

Nos 117 (cento e dezessete) anos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, este espetáculo homenageia os 190 (cento e noventa) anos de nascimento e 130 (cento e trinta) anos da morte de Antônio Carlos Gomes, principal nome da Ópera brasileira no século XIX. 

Salvator Rosa que retorna ao palco do Theatro Municipal após 80 (oitenta) anos oferece à plateia uma conjunção de saberes articulados em estado de excelência (total artes). 

A Ópera reuniu os três corpos artísticos do Theatro Municipal: coro, ballet e orquestra sinfônica. Todos em absoluta coadunação e explícito desejo de entregar ao público suas valências e unidade artística. A última montagem de Salvator Rosa no referido palco ocorreu em 1946. 

Com felicidade e importância histórica, temos o retorno da grande força dramática no repertório de Carlos Gomes. Salvator Rosa estreou na Itália em 21 de março de 1874, no Teatro Carlo Felice, em Gênova. 

O libreto de Antonio Ghislanzoni é inspirado no romance Masaniello, do escritor francês Eugène de Mirecourt. Dedicada ao engenheiro e abolicionista André Rebouças, surge após a não recepção de FOSCA, outra Ópera de Carlos Gomes. 

Em seis meses, Salvator Rosa por melodias diretas, intenso apelo dramático e linguagem arrebatou de pronto o público italiano. Entre 1876 e 1877, a obra abriu temporadas em alguns dos principais teatros da Itália e se tornou uma das óperas mais populares do compositor. 

No Brasil, foi apresentada pela primeira vez em 29 de julho de 1882, em Belém. A montagem revisita a revolta popular em Nápoles articulada com o romance entre o pintor italiano Salvator Rosa e Isabella, filha do opressor Duque d’Arcos. Inúmeros elementos de afetividade são postos na passagem operística. 

A revolta popular liderada por Masaniello contra a dominação espanhola de Nápoles, no século XVII é, por vezes, um pouco reduzida diante da manifestação do amor acima descrito. Uma escolha da direção cênica capaz de interligar de forma mais simbólica os pontos fulcrais dramáticos. 

Novos elementos na presente montagem também foram trazidos pela diretora cênica Julianna Santos. Pinturas atribuídas a Salvator Rosa não apenas compõem, mas integram a dramaturgia com força visual na passagem do espetáculo. A Revolução Napolitana do século XVIII adquire nas imagens integração narrativa. Tudo é símbolo de tudo. 

Julianna acrescenta algo raro no gênero operístico: o esclarecimento. De forma incansável, a diretora impõe à contação da história complexa uma relação horizontal. Toma como desafio e o realiza mesmo diante de todas as complexidades do libreto, das circunstâncias e dos inúmerosprofissionais envolvidos. Tudo é voltado à compreensão. E a unidade dos grupos profissionais alinhados à linguagem artística pretendida sempre será um desafio. E isso ocorre com primor. Na vocalização, na antropologia teatral, na direção de movimento e todos os demais saberes artísticos e técnicos envolvidos. 

A pulsação da obra e a compreensão da história estão na linha de frente como objetivo fulcral da realização. Julianna Santos, conforme o dissemos, possui o talento de entregar unidade à referida Ópera. Todos realizam o mesmo espetáculo, focados em uma interpretação horizontal e “recolhendo” de forma lírica um gênero mormente conhecido pelo maximalismo e interpretações verticais. 

Julianna mastiga o tempo, domina-o em suas mãos, extrai todos os caracteres emocionais possíveis para que a obra não apenas comunique as informações contidas, mas também as amplie de maneira simbólica. Tocam duas honrosas instruções pessoais na montagem da Diretora: fatos e simbolismo capazes de invadir cada assento do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Grande mérito. 

Os recortes (diálogos e solilóquios) minimalistas demonstram que ela não tem medo de perder a plateia; ao contrário, sabe ter a narrativa completa nas suas mãos e visão artística refinada. 

A direção de movimento de Mônica Barbosa auxilia a direção e faz todos caminharem para os seus destinos. Nenhum movimento resta gratuito. Nada desperdiçado. As coreografias de Hélio Bejani, Márcia Jaqueline e Rodolfo Saraiva operam sob a mesma batuta. Todas as notas certas são tocadas em favor da obra. 

A cenografia de Renato Theobaldo é minimalista, estabiliza o ambiente e traz as pinturas como elementos moventes de reforço à dramaturgia. A iluminação de Paulo Ornellas possui recortes muito bem angulados, temporizados e cromáticos que reforçam os instantes necessários e auxiliam a passagem cênica. 

Os figurinos de Marcelo Marques são precisos e articulam o real com o simbólico. As diferenças sociais são apresentadas em detalhamento sem o natural abismo de fácil compreensão. Tudo muito bem cortado e de conjunto conglobante impecável. Costura teatral como deve ser. 

O papel-título (alternado por Marcello Vannucci e Enrique Bravo); Isabella (Marly Montoni e Marianna Lima); Gennariello (Carolina Morel e Maria Gerk) entremostra toda capacidade técnica na revelação da obra. Atuações primorosas e absolutamente merecedoras de todas as manifestações ocorridas ao longo e ao término da apresentação. 

O elenco composto por Vinícius Atique e Johnny França como Masaniello; Savio Sperandio e Licio Bruno como Il Duca d’Arcos; Murilo Neves e Leonardo Thieze como Corcelli; Geilson Santos e Ivan Jorgensen como Conde Badajos; Ricardo Gaio e Jessé Bueno como Fernandez; Gabriele de Paula e Magda Belloti como Bianca; Lara Cavalcanti e Carla Rizzi como Suora Ines; e Patrick Oliveira e Ciro d’Araujo como Fra Lorenzo seguem o mesmo escopo e entregam ao público toda capacidade profissional digna de compor o Theatro Municipal do Rio de Janeiro como também ritualizar toda história proposta. As individualidades supramencionadas reforçam a categoria já registrada em outras apresentações, mas destacam a força do conjunto alcançado. 

Uma grande Ópera destaca-se pela integração artística, excelência vocal e teatralidade convincente, além de uma produção técnica e musical muito bem coordenadas. Em geral, ela combina orquestra, cantores e cantoras, coro, encenação, figurinos, cenografia e iluminação em um mesmo organismo dramático.

E isso não falta (com excelência) na presente fruição.

As vozes preparadas e expressivas demonstram técnica, projeção, extensão e transmissão clara da obra.

A orquestra está absolutamente equilibrada. Sustenta o drama com peculiaridades e sem encobrir vozes, além da precisão rítmica e correta leitura do estilo solicitado.

Tudo funciona porque música, texto e atuação reportam a história de maneira convincente e contínua. 

O coro não surge como apoio sonoro; participa da narrativa e reforça os momentos de tensão. 

Por derradeiro, importante ressaltar o constante trabalho exímio do Coro, Ballet e da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. 

Destaque devido à regência de Luiz Fernando Malheiro em mais uma grande atuação. 

Uma obra cuja execução revigora nova montagem deveras competente e reafirma os valores artísticos do exímio conjunto do Theatro Municipal. 

Um cabal destaque à estrutura edificante do honroso prédio histórico junto aos valores humanos capazes de continuar a força cultural desse país. 

O homem é aquele que esquece. 

O Theatro Municipal faz-nos lembrar o nosso escopo biográfico. 

 

Seja nosso parceiro2

Megaidea