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Crítica Teatral

Tudo Nadine

Por tudo isso, só declaro que é pena só terem tido duas apresentações desse espetáculo no Sesc Av. Paulista. Com certeza, precisa ir para outros espaços e ser visto por mais pessoas

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Foto: Tamara dos Santos

Por gabriel m. barros

A performance está na vida. As ciências sociais têm bebido dessa fonte tem algumas gerações. Estamos constantemente performando. Foi Goffman, por exemplo, que para assumir sua visão analítica acionou a lógica teatral como metáfora e conceito para explicar as relações. Enfim, nós somos vários e a cada ocasião, espaço, assumimos uma faceta. 

Shakespare mesmo, em alguns dos seus textos aciona a vida como um palco, até afirma em Macbeth que “A vida é apenas uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se agita por uma hora no palco”. A vida como palco. Mas em Nadine, peça escrita e atuada por Luiza Romão, derivado do seu próprio livro, parte de outra lógica: a personagem morreu. Quer entender sua morte. 

Quem conhece o trabalho poético de Romão e já assistiu algumas de suas performances (algumas estão pelo Youtube, vale demais revisitar ou conhecer), sabe não só da qualidade do que e como ela escreve, mas, principalmente, a força com que o seu dito sai. É pulsante, envolvente, vertiginoso e nos amarra. Fica tudo em suspenso. 

Essa força motriz está em Nadine. Mas há também uma Luiza que saboreia o texto, que deixa ele ecoar, que cria nuances dentro do que ela propriamente vai apresentando. Na encenação, Nadine quer descobrir sua própria morte, relembra detalhes, mas sem ter muita coesão do ocorrido, sabe que foi violado por um grupo de homens. 

Desse mote, do defunto autor, que Caio, com quem fui assistir, me chamou a atenção, Romão tece seu espetáculo. Contudo, apesar da alusão a Brás Cubas, rememorei que em nosso teatro há também Sônia, a defunta que retoma sua história em Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues. A diferença é que Brás Cubas já sabia do que havia falecido; Sônia queria saber onde estava, ignorando sua condição de morta; já Nadine sabe que está morta, mas não se lembra como. Assim, uma investigação começa. 

Quando se pensa em investigação criminal, logo se aciona todo um repertório estadunidense a respeito dessas histórias. Na dramaturgia de Romão não é diferente, entretanto ela vai mostrando os contornos mais sombrios e rasteiros dentro de um crime, sobretudo de um crime de estupro e assassinato coletivo. 

Com a vasta experiência da atriz e poeta, Luiza tece um espetáculo pesado, denso, e com uma força surpreendentes. É poético, lírico, ao mesmo tempo que denuncia, provoca e inquieta. Tem na palavra seu profundo ganho, mas o corpo também aparece com uma grandeza imensa. 

Nadine encontra outras personagens que a auxiliam no processo de investigação. No espaço da encenação se cobre toda a descoberta do crime nefasto e fecha quando se começa a pensar na justiça. Me parece que esse é um exercício que Nadine está construindo e nós enquanto sociedade brasileira precisamos encarar e ainda criar, sobretudo num tempo em que casos de feminicídiodisparam e assustam pelas formas mais vis e cruéis que acontecem e no quanto toda uma rede masculina se levanta para proteger, amenizar e até ignorar.

Por vários momentos o texto brinca com “Nada, nadinha, Nadine”, contudo Luiza Romão dá tanta vida a essa personagem que precisamos inverter por um momento essa aliteração e sinalizar “Tudo Nadine”. O mundo lhe largou sozinha por três vezes (como contado na peça), e agora se é acolhida por todos. Também destaco no profundo silêncio que a peça coloca ao seu fim, com um Karl Marx e Engles revisitado e um convite a união, necessário para fazer justiça.

Por tudo isso, só declaro que é pena só terem tido duas apresentações desse espetáculo no Sesc Av. Paulista. Com certeza, precisa ir para outros espaços e ser visto por mais pessoas.

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