Colunista
As batalhas pela música no período eleitoral, uma pequena reflexão
Obviamente que Mano Brown é de esquerda, mas algum eleitor apressado pode achar que não.
Por Lúcia Porto
Mês passado – setembro de 2026, Renan Santos – candidato do Missão à Presidência da República, usou a música “Bete Balanço” do Barão Vermelho em sua campanha política. Renan é um candidato de extrema direita e suas falas esbarram em possíveis processos, em outro país, talvez, estivesse preso. No dia 02 de outubro, Roberto Frejat – e o Barão Vermelho, publicaram uma nota de repúdio, dizendo que não compactuam com as falas de Renan e relatando questões de direitos autorais. Aparentemente, até a conclusão deste texto, Frejat não declarou publicamente apoio a Lula nessa campanha, sua declaração de apoio, disponível na web, é de 2022.
Agora em outubro, depois do primeiro turno das eleições, a deputada estadual, recém eleita por São Paulo, Eduarda Campopiano, viralizou na web, vestindo uma camiseta da banda brasileira Angra. Campopiano se declara “a maior inimiga das feministas de São Paulo”, entre outras ideias distópicas. Houve um bate – boca na postagem – feita pelo cabeleireiro da deputada, incluindo ex – integrantes da banda, entre eles, o guitarrista Kiko Loureiro. Posteriormente, o comentário de Loureiro sumiu, mas o cabeleireiro deu print, Kiko rebateu dizendo que o print foi montado. No dia 06 de outubro, o Angra soltou uma nota oficial dizendo que não tem nada a ver com opiniões políticas de ex – integrantes e que respeita a pluralidade política, ideológica e a liberdade de expressão de todo o seu público. O Angra nunca declarou apoio a Lula.
Esses dois casos refletem, basicamente, uma ideia que tenho há tempos. Da ditadura pra cá, o rock brasileiro sempre foi problemático em relação a esquerda. Por outro lado, Mano Brown, líder dos Racionais MC’s, o maior grupo de rap do Brasil, vem criticando abertamente a esquerda desde outubro de 2018. Começou no fatídico discurso de Fernando Haddad na Cinelândia – Rio de Janeiro, onde Brown fez críticas incisivas, dizendo que a esquerda havia deixado de falar a língua do povo da periferia. Haddad acabou perdendo aquelas eleições para Jair Bolsonaro. A lição já devia ter sido aprendida, uma voz como a de Mano Brown não pode ser ignorada.
Aparentemente, Mano Brown, até a conclusão deste texto, não declarou abertamente seu apoio a Lula. Suas críticas a maneira como a esquerda vem governando continuam, inclusive a campanha de Flávio Bolsonaro descontextualizou suas críticas e as vem usando em proveito próprio. Obviamente que Mano Brown é de esquerda, mas algum eleitor apressado pode achar que não.
Outro detalhe que venho notando, a trilha sonora da campanha da esquerda, nesse segundo turno, vem usando muito a velha MPB dos anos 70. Nada de rock brasileiro, como disse, o rock sempre foi problemático, e quase nada de rap, muito menos dos Racionais. Desprezar o rap é um sintoma desse afastamento e nem vou falar do trap, já que o rap e o hip – hop já passaram dos 50 anos, no Brasil, pouco mais de 40.
Todo mundo sabe meu lado político, se não sabe, está sabendo agora. É sintomático a campanha da esquerda usar a MPB dos anos 70, do rap pra frente, ninguém ouviu mais nada. O mundo é diferente da ponte pra cá.

