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Crítica Teatral

“Deserto” faz da poesia de Bolaño um ato de resistência no palco

Na montagem dirigida por Luiz Felipe Reis, a obra e as memórias de Roberto Bolaño ganham corpo na interpretação de Renato Livera em um espetáculo que reafirma o Teatro como espaço de memória, reflexão e denúncia

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Foto: Renato Mangolin

Por Leonardo Talarico

Deserto é um espetáculo cênico baseado na obra e memórias do escritor chileno Roberto Bolaño. “A Universidade Desconhecida”, “2666”, “Entre Parêntesis”, “O Gaúcho Insofrível” e “Bolaño por si mesmo” são os escritos destacados.

Em determinada oportunidade, alguém (não há fonte confiável sobre autoria) vociferou: “não leia poesia antes de dormir”. 

Como articular a manutenção do status quo da classe dominante operada nos mais diversos órgãos opressivos dos Estados (já estamos sob perspectiva conglobante de ingerência externa) com a criação artística (a poética, sobremaneira)? 

É preciso compreender as honestas aflições afetivas de um ser humano como Bolaño. E digo “afetiva” inserida no campo da afetividade, ou seja, no vasto conjunto de sentimentos partilhados pelos seres viventes. 

Um espetáculo dessa envergadura restabelece o compromisso do Teatro com os seus valores fundantes. A melhor definição de ser humano já cunhada aqui e acolá é que o homem é aquele que esquece. Esquece o quê? Os elementos estruturantes de uma sociedade. E o proceder artístico, como ninfa, é capaz de rememorar aos seres humanos os seus valores biográficos. 

E sob a normalização da disfunção, o espetáculo “Deserto” enfrenta o nobre esclarecimento ao lado de Bolaño. 

Em 27 de março do presente ano, John Malcovich apresentou no Teatro Ópera ON, em Buenos Aires, uma experiência cênica denominada “El Infame Ramirez Hoffman”, com textos de Roberto Bolaño. As orientações humanas contemporâneas atingiram um tamanho de desfaçatez incapaz de se enfrentar por silêncio ou distração. 

O Teatro possui (e assim o deve ser) inúmeras linguagens e pretensões. Mas faz-se necessário trazer à baila os “poetas”denunciantes. Recolher de forma lírica espíritos inconformados. 

A banalização da falta de virtudes operacionais dentro de uma sociedade justa em seus mais diversos espectros sociais deve também ser enfrentada não apenas pela obra, mas pela própria vida de Bolaño, conforme bem o faz o presente espetáculo. 

Necessário restabelecer o ponto poético existencial. Recordo Newton Moreno: “O que é feito dos poemas não escritos diante da morte do poeta?” (O Livro). Qual a cidadania de um poeta? Deserto traz à lume todas as abordagens críticas necessárias lastreada na coerência e pungência de Bolaño. 

É uma denúncia contundente da sociedade vigente com prognóstico artístico.

A dramaturgia original de LUIZ FELIPE REIS reúne o todo necessário à travessia cênica. O texto é escorreito e muito bem articulado à encenação. A direção de LUIZ FELIPE REIS (assistência de JULIA LUND) possui o grande mérito de realizar um Teatro de Ator. Tudo está a serviço de RENATO LIVERA e perpassa com dinâmica a passagemteatral. A interlocução dramatúrgica de JOSÉ ROBERTO JARDIM contribui com o esclarecimento do texto e atuação de RENATO LIVERA. 

A direção de movimento de LAVÍNIA BIZZOTTO busca pontos de contato à emissão do texto épico, bem equilibra a distribuição do ator no tablado e auxilia na passagem da obra. O ator caminha para o seu destino. 

A direção musical e criação sonora de PEDRO SODRÉ e LUIZ FELIPE REIS acentuam determinadas passagens mais dramáticas, respeitam o silêncio inerente à reflexão produzida pelo texto e ao longo do espetáculo ambientam a plateia nos momentos oportunos. 

A cenografia de ANDRÉ SANCHES e DÉBORA CANCIO emoldura de forma essencialista o espaço com o intuito de não esbarrar em foco com RENATO LIVERA e auxilia na confluência de linguagens com estética.

O figurino de MITI é usual, apropriado à personagem, não possui corte teatral e busca compor a personagem sem retirar atenção do ator. Está a serviço da obra. 

JULIO PARENTE (assistente DIEGO ÁVILA) na criação de vídeo e a cinematografia de CHAMON AUDIOVISUAL trazem à cena interessantes elementos narrativos e emocionais importantes à complementação vocal. A dinâmica na projeção também é um acerto. 

O desenho de luz de ALESSANDRO BOSCHINI possui uma ótima angulação, bons recortes contributivos com os instantes mais incisivos reforçando intensidade. É uma iluminação bem pontuada aos interesses coletivos. 

Por derradeiro, RENATO LIVERA recebe de todos os saberes teatrais já descritos as condições necessárias para somar força ao seu talento e realiza uma interpretação completamente voltada ao esclarecimento dos temas nada palatáveis do texto. LIVERA utiliza uma forma horizontal de atuação e a faz por meio de uma compreensão notável da história. Possui pleno pertencimento do seu espaço e abre toda caixa de ferramenta técnica para que todos voltem para casa conhecedores da história somado ao caráter simbólico necessário à plena compreensão. Domínio das pausas, sem tempos mortos, utilização da antropologia teatral, verbos ressaltados (gestalt) e dinâmica no intenso fluxo “literário” e emocional. 

É uma alegria assistir ao acontecimento artístico. Todos os saberes teatrais voltados (em humildade) à plateia. Um acontecimento artístico corajoso em tempos líquidos onde a hierarquia de valores ultrajantes desloca a criação artística para o fundo de uma sala já pequena onde se esconde uma prateleira minúscula onde se lê: poesia. 

Parabéns a todos envolvidos. 

Destaque à direção e atuação.                      

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