Rio de Janeiro
“O Filho”: quando um tema urgente esbarra na superficialidade
Ao abordar depressão, relações familiares e o vazio que atravessa a juventude contemporânea, espetáculo encontra força em seus intérpretes, mas esbarra em uma dramaturgia que, na leitura de Leonardo Talarico, prefere a previsibilidade ao aprofundamento.
Foto: Ronaldo Gutierrez
Por Leonardo Talarico
Recebi o convite para assistir ao espetáculo O FILHO, na sala FERNANDA MONTENEGRO, no COPACABANA PALACE.
Desde logo, agradeço o reconhecimento.
A obra apresenta a vida de um jovem de 16 anos após a separação dos seus pais e idiossincrasias sombrias cognitivas decorrentes do diagnóstico depressivo.
A temática é cirúrgica e fundante em uma sociedade cada vez mais abarcada pelo vazio existencial e, por decorrente, em busca de um sentido de vida. O modus operandi da vida moderna por meio das redes sociais (e todos as suas circunstâncias) aumenta e agrava exponencialmente a complexidade do prognóstico.
A peça é de autoria do dramaturgo francês FLORIAN ZELLER.
Todos os profissionais envolvidos na realização da obra teatral são competentes e realizam importante atividade cênica. Seja pelo histórico artístico, seja pela voz lançada sobre o tema. Entretanto, humildemente, entendo existir um elemento redutivo e contaminador de toda cadeia laborativa teatral. E o digo exatamente por identificar operadores cênicos tão devotos.
O espetáculo esbarra em um importante teto para alcançar maior feito, qual seja o texto posto em cena de FLORIAN. A obra abandona o aprofundamento do tema e trafega nos recantos comuns com cenas de teledramaturgia.
Os diálogos a respeito dos infortúnios vividos pelo jovem NICOLAS acabam em um “looping” de lugares comuns sobre a referida depressão. Não que sejam irrelevantes, longe disso, mas a narrativa “arranca” emoções, aflições e dispensa importante verticalidade sobre o tema.
O avanço dos estudos e a desastrosa modernidade possibilita-nos trazer à lume questões complexas à psique dos jovens desamparados de sentido. Ao contrário, repisa-se lugares comuns como o discurso da separação dos pais, mudança de ambiente, nova família, relação com a madrasta etc. A famigerada baixa manutenção nas relações afetivas da última geração, suas frágeis percepções de afetividade (no sentido de não saber discernir os sentimentos presentes), a compulsão oriunda de um novo regramento social de validação digital é importante, mas reporta fatos já expostos amiúde. E o faz superficialmente (andamento simbólico e falas).
Houvesse novas proposições e engrenagens até mesmo a construção das personagens restariam mais complexas.
A direção de LÉO STEFANINI acerta por entender tratar-se de um espetáculo de atores e atrizes e gerar unidade artística.
Todos os demais saberes teatrais estão dispostos para auxiliar o protagonismo dos artistas.
Por outro giro, conforme o dissemos, a construção das personagens restou circunscrita às perspectivas deveras conhecidas e – muitas vezes já vistas – “com as mesmas roupas”.
As personagens cumprem tudo quanto esperado. E o fazem com habilidade. Mas diante de profissionais experimentados e tema latente outros elementos mais complexos poderiam vir à tona.
Os diálogos e solilóquios estacionam no lugar comum. Quase uma teledramaturgia. E não podemos atribuir malversação da passagem cênica à direção e atores, haja vista o texto restringir profundidade do tema. Isso provoca uma antecipação lógica de todos os desdobramentos do espetáculo. Tudo resta previsível. Uma arma quando aparece em take no cinema haverá um tiro.
MARIA FLOR e GABRIEL BRAGA NUNES constroem pai e mãe com as camadas possíveis. Não existe uma vontade e contra vontade da antropologia teatral ou uma certa sombra a gerar estranhamento. Tudo é muito pasteurizado.
Todas as cenas possuem estruturas já vistas e debatidas em diversas outras obras (filho “rebelde” falta aula, pais separados, autolesão, filho não quer morar com a mãe, mãe em culpa, pai a buscar resgate masculino, relação difícil com madrasta, memórias da felicidade do casamento, negação depressiva, ciúme do pai, hospital visto como lugar de “louco” etc.).
Entretanto, estamos diante de boas interpretações (até porque MARIA FLOR e GABRIEL BRAGA NUNES são excelentes profissionais) mas não recebemos nada além do necessário à contação da história. Ambos poderiam oferecer um instrumental mais pungente e simbólico se o texto oferecesse material complexo (maiores camadas dramáticas) e não apenas uma sequência de previsibilidade.
Os diagnósticos e prognósticos avançaram e trouxeram tantas outras discussões. É um desperdício não alavancarmos em símbolos, diálogos e solilóquios mais complexos.
As obviedades são deixadas pelo caminho. É preciso acreditar na inteligência da plateia, mas o texto se estabelece no conforto do rarefeito. Não há, à guisa de exemplo, um solilóquio profundo entregue para e por ANDREAS TROTTA distante da autocomiseração. TROTTA não coloca a dor da sua personagem em um lugar nobre. Ele caminha entre a negação, um certo silêncio, rebeldia e obviedades de interpretação. ANDREAS TROTTA oferece alguns momentos, mas não consegue proteger sua personagem de uma interpretação mais reflexiva e madura. Ficamos no clichê.
O texto provoca uma preguiça de construção e esclarecimento por razão dos conflitos e sentimentos tão primários. Até mesmo a evolução cênica esbarra nessa preguiça. Como elemento demonstrativo, podemos raciocinar sobre a não evolução dos diálogos e ocorrências. É uma perseguição de fatos e negação até o FIM.
Para não parecer má vontade da minha parte, até porque seria uma desonra fazer isso, a cena final é o momento de brilho da direção e dos atores. Talvez essa cena seja a exceção de tudo quanto escrito nessa singela crítica.
A direção de movimento é correta, os atores caminham para o seu destino. Apenas lamento as transições novamente em “looping” com apagar e acender de luzes e informes escritos.
O espetáculo transforma-se em uma sequência de esquetes e produz antecipação na plateia.
O cenário (DANIEL DISTZER) e figurino (YAKINI RODRIGUES) são utilitários, sem corte e construção teatral. A trilha sonora (SÉRVULO AUGUSTO) auxilia nos momentos dramáticos. O desenho de luz (CESAR PIVETTI) escolhe o fácil apagar e ligar luzes para alterar os ambientes e impõe uma coloração de LED nas aberturas do salão. Os pontos focais oferecem alguma ambiência. Mas toda obra foi conduzida à facilidade.
Todos os operadores teatrais são competentes, mas a peça caminha mais para uma teledramaturgia do que uma realização cênica com necessárias profundidades fáticas e simbólicas.

