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Cultura

Quanto custa gostar de música? Ingressos caros, bets e a disputa pela atenção do público

Com entradas que chegam a R$ 1,8 mil, bilhões destinados às apostas e investimentos crescentes em influenciadores, setor cultural enfrenta uma questão que vai além das bilheterias: quem está formando público para a cultura?

Publicado

em

Redação

“Promovo shows há 40 anos e nunca vi nada igual. As plateias estão vazias.”

A declaração de Paula Lavigne, uma das principais produtoras do país, durante encontro com o presidente Lula, colocou em palavras uma preocupação que começa a aparecer com frequência entre quem trabalha com música ao vivo no Brasil. Para Lavigne, parte da explicação está no crescimento das bets e no dinheiro que os brasileiros passaram a destinar às plataformas de apostas.

Não é pouco dinheiro. Levantamento divulgado pela Agência Brasil apontou que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025, considerando a diferença entre os valores apostados e os prêmios recebidos.

Mas talvez seja insuficiente procurar uma única explicação para as plateias que já não respondem como antes.

Porque enquanto produtores discutem o impacto das apostas, os ingressos para grandes shows chegam a R$ 800, R$ 1 mil, R$ 1,5 mil ou mais. Ao mesmo tempo, nunca se falou tanto em alcance, engajamento e milhões de visualizações nas campanhas de divulgação.

Afinal, quanto custa gostar de música em 2026?

Quando um ingresso custa R$ 1,8 mil

Em Curitiba, o show de Roberto Carlos, marcado para 17 de outubro no Teatro Positivo, oferece uma dimensão bastante concreta dessa discussão.

Na abertura das vendas, os valores oficiais da inteira foram anunciados entre R$ 680 e R$ 1.800, dependendo do setor. O setor Emoções, mais próximo ao palco, chegou aos R$ 1,8 mil. Azul, R$ 1,5 mil. Amarelo, R$ 1,1 mil. Mesmo entre os setores mais distantes, havia entradas de R$ 680, R$ 860 e R$ 960.

Posteriormente, uma promoção da RPC passou a oferecer 55% de desconto sobre o valor da inteira em todos os setores.

Não é possível afirmar que a promoção tenha sido criada em razão de baixa procura — e seria precipitado fazer essa relação sem dados da produção. Mas a diferença entre o preço inicialmente anunciado e aquele oferecido posteriormente ajuda a colocar uma pergunta sobre a mesa: até onde os valores praticados encontram a capacidade — e a disposição — de pagamento do público?

E o ingresso é apenas uma parte da conta. Ir a um show envolve transporte, estacionamento, alimentação e, dependendo da cidade, hospedagem e passagem.

Para uma família, uma noite de música pode facilmente representar uma parcela importante do orçamento mensal.

O Rock in Rio também não esgota

O debate ganha ainda mais força quando chega ao maior festival de música do país.

Na edição de 2026, a entrada inteira para um dia de Rock in Rio custa R$ 870. A meia-entrada sai por R$ 435 e a nova área Comfort Zone chega a R$ 1.950.

Neste primeiro fim de semana, alguns dias chegaram ao festival sem ingressos esgotados, inclusive datas dedicadas ao rock e ao heavy metal — gêneros historicamente associados à própria identidade do evento.

O fato chama atenção porque durante décadas a corrida por ingressos fez parte da narrativa do Rock in Rio. “Esgotado” era quase uma extensão da marca.

É cedo para transformar um primeiro fim de semana em evidência de uma crise generalizada dos grandes festivais. Mas há uma mudança que merece ser observada.

Quando um dos maiores eventos do país encontra dificuldade para esgotar determinadas datas, enquanto ingressos chegam perto dos R$ 900, talvez a discussão não possa ser reduzida apenas ao gosto musical do público ou à escalação das atrações.

É preciso falar também de preço.

E o dinheiro que foi para as bets?

É nesse contexto que a fala de Paula Lavigne encontra um problema muito maior do que a indústria da música.

As bets passaram a disputar não apenas o dinheiro, mas também o tempo e a atenção dos brasileiros.

São plataformas disponíveis 24 horas por dia dentro do celular, oferecendo uma experiência imediata de entretenimento. O dinheiro gasto em apostas disputa espaço no orçamento com cinema, teatro, livros, restaurantes, viagens e, claro, shows.

Mas as bets não explicam tudo.

O Brasil recebe hoje uma quantidade significativa de turnês e festivais, enquanto artistas nacionais também disputam datas e público. O consumidor precisa escolher.

Talvez as pessoas não tenham deixado de gostar de música.

Talvez esteja cada vez mais caro transformar esse gosto em presença.

Milhões de visualizações. Quantos ingressos?

Existe outra contradição nesse cenário.

Nunca foi tão fácil colocar um evento diante dos olhos de milhões de pessoas.

O Rock in Rio é também uma gigantesca plataforma de comunicação e marketing. A edição reúne dezenas de marcas, ativações, celebridades e influenciadores. Há operações envolvendo dezenas de criadores de conteúdo para uma única marca durante o festival.

Não há nada de errado nisso. Influenciadores possuem comunidades próprias, linguagem específica e uma capacidade de comunicação que as marcas aprenderam a utilizar.

O problema começa quando alcance passa a ser confundido com formação de público.

Uma campanha alcançar um milhão de pessoas não significa que um milhão de pessoas estejam dispostas a pagar R$ 870 por um ingresso.

Um vídeo pode atingir centenas de milhares de visualizações e cumprir perfeitamente sua função de exposição de uma marca. Isso não significa necessariamente que esteja construindo uma relação entre aquele público, um artista e uma cena cultural.

São coisas diferentes.

E talvez o setor cultural precise voltar a fazer essa distinção.

Influência não é jornalismo — e jornalismo não é influência

Durante os últimos anos, seguidores, curtidas, visualizações, compartilhamentos e engajamento passaram a ocupar um lugar central na distribuição dos investimentos em comunicação.

Ao mesmo tempo, veículos especializados em cultura enfrentam dificuldades para manter equipes, financiar coberturas e produzir reportagens.

Não se trata de colocar jornalistas e influenciadores em lados opostos.

Eles cumprem funções diferentes — e ambos podem fazer parte de uma estratégia de comunicação.

Um influenciador pode mostrar a experiência de estar em um festival, aproximar uma marca de determinada comunidade, criar desejo e alcançar centenas de milhares de pessoas rapidamente.

O jornalismo cultural trabalha também em outro tempo.

É a entrevista publicada quando o artista ainda não lota uma casa. A crítica que apresenta uma obra ao público. A reportagem que contextualiza um movimento. O perfil que recupera uma trajetória. A cobertura de um músico que toca para 50 pessoas antes de tocar para 5 mil.

É a agenda que avisa que determinado espetáculo existe, mas também o texto que explica por que ele importa.

Nenhuma dessas coisas isoladamente garante a venda de milhares de ingressos.

Mas, acumuladas durante anos, ajudam a construir algo muito mais difícil de medir em uma planilha: repertório.

E repertório ajuda a formar público.

Quem está formando a plateia de amanhã?

Talvez seja essa a pergunta que o momento atual exige.

Se o ingresso custa R$ 800, R$ 1 mil ou R$ 1,8 mil, não basta alcançar milhões de pessoas para torná-lo acessível.

Se milhões de reais estão sendo direcionados às apostas, existe uma nova disputa pelo orçamento destinado ao lazer.

E se uma campanha alcança milhões de visualizações, isso não significa necessariamente que esteja construindo uma relação permanente entre público e cultura.

Durante muito tempo, jornais, rádios, revistas, programas de televisão, sites especializados e jornalistas culturais fizeram parte dessa construção.

Não apenas divulgaram artistas que já vendiam milhares de ingressos.

Ajudaram artistas a chegar até essas plateias.

É justamente por isso que o enfraquecimento do jornalismo cultural deveria preocupar também produtores, artistas, casas de shows, festivais e marcas.

Quando veículos especializados desaparecem ou reduzem suas equipes, não se perde apenas mais um espaço para divulgar um evento. Perde-se quem acompanha uma cena quando ela ainda é pequena, quem registra sua história, quem apresenta novos artistas, quem critica, contextualiza e mantém a cultura em circulação mesmo quando não existe uma grande campanha publicitária acontecendo.

O setor cultural aprendeu a medir alcance, impressões, visualizações, engajamento e conversões.

São métricas importantes.

Mas existe uma pergunta que nenhum dashboard consegue responder sozinho:

quem está formando público para a cultura?

Porque uma plateia não começa a existir quando a venda de ingressos é aberta.

Ela é construída muito antes.

E talvez, diante das cadeiras vazias, seja hora de voltar a olhar para quem passou décadas ajudando a ocupá-las.

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