Crítica Teatral
Gaivota, de Anton Tchékhov, recebe montagem inédita da Armazém Companhia de Teatro
Já fiz algumas críticas da Armazém. Respeito imensamente todos os envolvidos não apenas pelo fazer teatral, mas também pelas difíceis escolhas. Como crítico, diretor de teatro e público sempre assisto Armazém pelo menos uma vez por razão da correria de convites e trabalhos outros, mas PATRÍCIA SELONK assisto sempre duas vezes.
Crédito foto: João Gabriel Monteiro
Por Leonardo Talarico
A história se passa em uma propriedade rural às margens de um lago, a peça acompanha personagens movidas por sonhos artísticos, desejos interrompidos e amores não correspondidos.
Gaivota é um retrato potente das relações afetivas, das inquietações existenciais e da busca incessante por reconhecimento em uma sociedade marcada pela frustração e pela solidão.
A montagem apresenta a linguagem inventiva da companhia, sua percepção original sobre a obra e aproxima as dores existentes no texto primeiro as questões contemporâneas como ansiedade, necessidade de validação, crise de pertencimento e pressão por reconhecimento social e profissional.
A trama, que orbita no relacionamento de um ambicioso escritor e uma aspirante a atriz, conversa com muitos conflitos internos atuais, como os atritos geracionais e a necessidade de validação.
A versão dramatúrgica realizada por MAURÍCIO ARRUDA MENDONÇA, JOPA MORAES e PAULO DE MORAESrealiza uma escorreita apresentação da história, com redução de personagens e uma articulação entre uma perspectiva aérea (conglobante) e as centralidades cirúrgicas e agudaspróximas.
O texto adaptado é fluído e entrega adequado ritmo aosacontecimentos e reflexões. Não há tempos mortos na escrita e nos demais saberes responsáveis à construção do espetáculo. Os silêncios estão por necessários, a nova investida afetiva normaliza e os verbos recebem uma tinta mais quente da oferecida por TCHÉKHOV.
A direção de PAULO DE MORAES é regida minuciosamente (filigrana) e recebe (desde logo) todos os adjetivos já descritos sobre a versão dramatúrgica. O tempo de passagem cênica não tem medo de perder a plateia nos momentos de maior reflexão e impõe um andamento de ininterruptos acontecimentos com primor.
A história abre os fatos e diversos campos simbólicos (a gaivota, p. ex. – como dispositivo de percepção). Algumas ocorrências, inclusive resetar por meio de canções o mental do público (palavras do diretor na conversa com a plateia após a fruição) para uma nova jornada de afetividades (os diversos sentimentos presentes na ordem humana), e o faz com propriedade. É possível enxergar a obra de forma tridimensional.
A “falta” (desejo) é o diagnóstico primário e o “autoengano”o prognóstico. Como sói acontecer nas obras russas, as dores das personagens estão presentes em cada recanto universal. Todo lugar é país. A montagem utiliza múltipla linguagem e produz cenas teatrais e cinematográficas de real valor e bela aproximação (não ocorre por acaso, mas por pertinência de esclarecimento). O “jogo do resta um” é muito bem administrado e todos os saberes teatrais estão voltados à contação da mesma história. A unidade na Gaivota é a unidade também da ARMAZÉM.
Todos os saberes teatrais estão a serviço do espetáculo e do público. A liturgia da companhia de teatro continua presente com traços inventivos e insubmissos. Não se pretende ser fidedigno ao texto, mas à compreensão extensiva.
Ocorre uma articulação entre o escopo desenhado pelo autor russo e a importante visão da companhia na adaptação. As relações entre as personagens estão bem estabelecidas e dosimetradas.
Os atos sucedem-se de forma orgânica e potente (mesmo nos pontos reflexivos). Normalmente as obras teatrais são vistas como espetáculos de ator/atriz ou direção. ARMAZÉM, em todo seu repertório, mantém excelente equilíbrio. Enxergamos a linguagem do todo posta em cena(direção e intérpretes alinhados e protagonistas).
A cenografia de CARLA BERRI e PAULO DE MORAES é formada por pontos bem construídos de habitação àspersonagens dentro das intensidades dos conflitos, dos incontáveis desejos moventes e à falsa calmaria (transferência da ação física à psicológica). A cenografia éessencialista e, portanto, tudo está plenamente à disposição do andamento. Nada é gratuito. As entradas e saídas domobiliário e objetos são realizadas com propriedade, sem deixar tempo morto. O acabamento possui valor e absoluto equilíbrio cênico.
A iluminação de MANECO QUINDERÉ possui excelente angulação, bem temporizada, gelatinada, intensidade adequada e alterna delicada abertura de salão quando o todo se faz necessário com recortes dramáticos nos momentos de intensidade dramatúrgica. Um desenho de luz elegante e assertivo com prioridade ao desenvolvimento da obra.
A direção musical de RICCO VIANA traz pulsação, reflexão, andamento e subversão (no sentido de apresentar novas abordagens na atmosfera original do texto).
A direção de movimento de PAULO MANTUANO é bem desenhada. Os atores e atrizes caminham para os seus destinos. Há equilíbrio na distribuição pelo palco, nos “corredores não cênicos”, entradas e saídas minimalistas e orgânicas. Não bastasse, a movimentação abaulada traz a elegância do grande Teatro e amplia o espaço cênico (um deleite observar a curvatura na movimentação das personagens).
O videografismo de JOÃO GABRIEL MONTEIRO e PAULO DE MORAES estabelece uma linguagem poética e dramática, com bom apelo visual estético e inventivo, além de oferecer parte do simbolismo presente na montagem (p. ex., o olhar do alto de TCHÉKHOV e a observação sobre nós no mesmo voo de forma espelhada). Quem sou? Fui meu propósito? Morri desejando?
O elenco é composto por BRUNO LOURENÇO, FE BUSTAMANTE, ISABEL PACHECO, JOPA MORAES, LORENA LIMA, PATRÍCIA SELONK e SÉRGIO MACHADO. Todos apresentam um trabalho coeso, orientado na mesma linguagem de interpretação determinada à passagem cênica. O coletivo é o grande mérito da apresentação da obra Gaivota no esclarecimento realizadopelos atores e atrizes. Há inequívoco valor de companhia teatral e construção das personagens por entendimento pessoal e por meio da teoria dos jogos.
Destaco LORENA LIMA e PATRÍCIA SELONK.
LORENA constrói seu arco dramático com sabedoria eentrega gradativa e cirurgicamente os desejos alterados noconturbado caminho “afetivo” da sua personagem NINA. E o faz tecnicamente de forma muito esclarecida, sem memória do futuro, tudo construído com pensamento vivo, respeito pelas pausas, silêncios necessários e deixa claro que atriz é também e muito o que ela pensa e não apenas o que ela diz (expressões e ações físicas). Sua organicidade nas elaborações mais conturbadas é comovente. Pleno domínio no instante presente, nenhuma memória de futuro. Jamais se coloca na frente das emoções. Por fim, apresenta sua personagem de forma horizontal e com bom trabalho antropológico teatral.
PATRÍCIA SELONK, conforme já o disse em outra crítica, é a maior Atriz do Teatro Contemporâneo (retirando, por óbvio, nossas ATRIZES fundantes da arte cênica). Sua capacidade de jogar para dentro todas as miudezas da personagem IRINA e apresentar ao público suas gavetas de compreensão com enorme variação técnica é um deleite. Exatamente por isso sua organicidade é um escândalo. E ao lado dessa capacidade está a sensibilidade de realizar escolhas emocionais certeiras e entregá-las no tempo e temperatura justa. Em GAIVOTA, a aceleração milimétrica das suas falas nos momentos pertinentes parece sair da sua boca como punhal e modula com um tempo reflexivo e irônico de vida atrelados ao desgosto e à sobrevivência emocional. O processo de contenção (lírico) durante diversas cenas até a explosão épica é muito bem executado. Por fim, o preciso tempo de vida e a antropologia teatral estão dominadas e apresentadas sem maiores esforços.
Já fiz algumas críticas da Armazém. Respeito imensamente todos os envolvidos não apenas pelo fazer teatral, mas também pelas difíceis escolhas. Como crítico, diretor de teatro e público sempre assisto Armazém pelo menos uma vez por razão da correria de convites e trabalhos outros, mas PATRÍCIA SELONK assisto sempre duas vezes.
Até a próxima semana.
Parabéns a todos pelo lindo espetáculo.

