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Cultura

AS SEGUNDAS-FEIRAS NUNCA MAIS SERÃO AS MESMAS

Carta aberta da artista Tacy, falando sobre o fim do único espaço de cultura autoral em Curitiba

Publicado

em

Por Tacy

Despedidas nunca são fáceis. De perto ou de longe, elas sempre doem, trazem lágrimas, instalam vazios. Especialmente quando perdemos referências que nos preenchem de afeto e história. E é assim, com um vazio imenso, que uso meu filtro de tristezas hoje para me despedir do fim de uma era. Da minha era. O Bardo Tatára, onde comecei minha carreira artística, o primeiro palco que me deu uma oportunidade, encerra suas atividades depois de todos estes anos. E não, não estamos falando de mais um bar ou de um simples ponto de encontro alternativo da capital paranaense. Era muito mais do que um espaço para ouvir boa música ou confraternizar com os amigos em mais uma noite gélida de Curitiba. Não! Em mais de vinte anos de história, o Bardo Tatára definitivamente foi além. Tornou-se um deflagrador de potências, uma incubadora de artistas, um refúgio para a arte. E, é preciso dizer: fez muito mais pela cultura local do que as pobres políticas públicas curitibanas jamais fizeram. Perder o Bardo é, sem dúvidas, uma perda pessoal dolorosa, uma espécie de apagamento de parte minha História e de tantos artistas como eu que nasceram naquelas paredes. Mas, para além, perder o Bardo Tatára significa uma perda política, uma calamidade cultural.

Vou me permitir abrir o coração com vocês. Sou frequentadora da Avenida dos Estados, 810, no bairro do Água Verde desde 2010. É verdade que, depois que parti de Curitiba e passei a trabalhar entre o Rio de Janeiro e São Paulo, não consegui manter a mesma conexão com a cidade. Durante alguns anos, ainda voltava para ver a família e fazer shows. O Bardo era pouso certo, a segunda-feira era sagrada. Mas, aos poucos, a vida foi afastando os interesses, e Curitiba foi se tornando uma espécie de antiquário de amigos, lembranças e vínculos familiares. Bares e casas noturnas fecharam para dar lugar a novos espaços, com novos nomes, apagando pouco a pouco os marcos da cidade que eu conhecia. O único espaço certo, onde eu era lembrada, onde eu era abraçada, onde minha arte era valorizada, era o Tatára. E ele estava sempre lá, de portas abertas, a despeito das adversidades políticas e do ethos cafona do cidadão curitibano.

Em 2016, quando fiquei em cartaz por um fim de semana no Teatro Positivo, com o espetáculo “Cássia Eller, o Musical”, levei o Bardo para o palco, cantando os versos de “Bar na Lua”, música do Mago, em uma licença poética dentro da cena. Quem estava na plateia reconheceu instantaneamente. Ali, naquele momento, não era a personagem Cássia. Era a Tacy exaltando suas referências. Nessa época, lembro do Tatára me ligar e perguntar se eu continuava cantando minhas próprias canções, apesar do teatro. Ele estava certo: eu não podia abandonar a minha arte. Não podia deixar de lado o mais essencial na arte: a verdade. “E quem viu, viu. Quem não viu, não vê nunca mais!”, já dizia o poeta que rimava chineque com poesia.

Na pandemia, perdemos nosso Tatára. Foi um baque, apesar de eu saber que ele estava doente há algum tempo. Pelos protocolos e pelo distanciamento, também não pude estar presente. Na verdade, quase ninguém pôde. Trancafiados em casa, quem poderia se despedir como gostaria? E, de longe, eu só pensava que ele não teria um cortejo à altura do que seu nome merecia. Quis a vida que eu também não pudesse estar presencialmente nesse último encontro. Acompanhei tudo pelas redes sociais e achei tão significativo e simbólico perder o templo da música autoral curitibana no Dia Mundial do Rock, numa segunda-feira 13. Logo no lugar que abraçava tantos gêneros musicais, tantas pessoas, tantas bandeiras. Logo no lugar onde o rock me achou. E isso dói tanto quanto perdê-lo, despedir-se de sua herança.

Naquele palco, conheci artistas fantásticos, aprendi canções que me acompanham desde antes das playlists do Spotify. Ali, toquei minha música pela primeira vez, tremendo que nem vara-verde, e lancei meu primeiro álbum, cercada de amigos, familiares e admiradores. Ali, recebi convites profissionais importantes, vi emocionada minha primeira publicação impressa no Jornal A Cena. Dividi som com inúmeras pessoas que levo no coração. Vi outras tantas vezes nosso ancião Tatára tocando e cantando os hinos que me acompanhariam anos depois. Naquele bar, quatorze anos atrás, ganhei dele o CD “Jogo de Espelhos”, autografado com a frase: “Tacy, vamos juntos encontrar o som”. E fomos. Porque naquele espaço não se construíam apenas canções, mas conexões e pontes para o futuro. Da reunião de pessoas que circulavam por aquele lugar incrível nasceram amizades, sociedades, álbuns, projetos e até casamentos. Vozes despontaram, grupos musicais surgiram, artistas foram revelados, atrações internacionais passaram por seu palco e um legado foi construído. Naquele bar, vivi um lar: uma coletividade fraterna, onde a admiração era mútua e o respeito estava sempre presente. 

Só quem viveu todos esses anos no Bardo sabe o que significou cada um deles. Chegar em plena segunda, comer a jantinha deliciosa da Cleusinha, a esposa de Tatára, e perguntar para ele como que estava a ordem dos artistas que iam para o palco. As dez horas, a noite ainda era uma criança! Muitos de nós só sairíamos dali na manhã do dia seguinte. A certa altura da madrugada, a pesada porta de madeira se fechava e sabíamos que era preciso diminuir o volume dos violões para não incomodar a vizinhança. Mas de portas fechadas, continuávamos nossa experiência musical em roda. Enquanto as contas eram pagas e as mesas se esvaziavam, a roda aumentava no fundo do bar, entre cantorias, fumaça de cigarro e copos reabastecidos pela eterna saideira. Não saberia contar quantas vezes dormi sobre a mesa, quantas vezes passei mal ou tive dor de cabeça. Ou ainda quantas vezes cantei com a Cleusa na cozinha “Ah, Dinorah, Dinorah”, compartilhando meu vício em Ivan Lins enquanto ela organizava tudo para encerrar o expediente. Quando, por fim, exaustos, saíamos pela maciça porta, éramos como morcegos sendo engolidos pela claridade de mais uma terça-feira que nunca existiu. Lá estávamos nós, os sobreviventes de mais uma noite da Segunda Autoral que nunca acabou. Mas agora, ela acaba. 

E acabou. É preciso aprender a lidar com os fins, eu sempre digo isso. Eles também simbolizam recomeços. Principalmente para quem ficou ali na trincheira, segurando praticamente sozinha o sonho de dois. Nossa Cleusinha foi uma força motriz na manutenção do Bardo. Mas até a maior das forças, uma hora, se esgota. Talvez tenha chegado o momento de encerrar essa etapa da vida e abrir espaço para um novo sentido, um recomeço para ela. Não sei. O que eu sei é que Tatára teve muita sorte nesse encontro de duas vidas.

De um lado, sinto enorme tristeza. Do outro, sinto uma profunda revolta. Todos esses anos, o Tatára foi um agitador cultural, que promoveu festivais, juntou gente, promoveu encontros com a música e nunca vi uma única iniciativa por parte da Fundação de Artes de Curitiba ou da prefeitura, para apoiar, ampliar ou potencializar sua luta pela cultura da cidade. Sabendo da potência política e cultural deste espaço, sabendo que investir no bar poderia transformá-lo num equipamento de cultura à serviço da cidade, nada aconteceu? Quanto mais o Bardo poderia ter feito, em níveis culturais, se houvessem investido verba e políticas públicas que pudessem içá-lo a condições melhores e mais sólidas financeiramente? A constatação também é triste: não há interesse por investir em cultura na cidade das Araucárias. Mesmo sabendo (e eles sabem!), o quanto políticas públicas no setor cultural movimentam a economia criativa, geram empregos e aumentam a arrecadação de impostos. Sem contar as dezenas de outras atividades locais que também se beneficiariam deste setor aquecido. Mas Curitiba prefere seguir sendo esta cidade conservadora, terrivelmente evangélica, absurda. A cidade que, por escolha majoritária de seu povo, veta obras de arte, censura peças de teatro e deixa espaços como o Bardo Tatára irem à míngua, com a indiferença tenaz de quem não se importa em ver aquelas portas se fecharem para sempre. No meu entender, uma cidade que não se importa com arte, não se importa de verdade com seu povo. É um desgoverno, aliás.

O Bardo Tatára é tradição, exemplo, influência e ensinamento. Ali naquele pedaço de chão, ecoou a voz e a poesia de um homem e sua companheira leal. Juntos, eles não tiveram medo de enfrentar todos os desafios para fazer o que acreditam e amavam fazer, através do encontro com a música. E toda a sua coragem, toda a sua memória, não será em vão. Permanecerá viva, mais do que nunca, em nossos corações, em nossas lutas. E o HD coletivo é bem grande!

Curitiba amanheceu diferente. E porque, daqui para a frente, suas segundas-feiras serão mais frias.

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