Crítica Teatral
“Na quinta dor” já pode ser tarde demais
No fim das contas, “Na quinta dor” não chega a um ponto específico, mesmo após tudo virar agonia e um sofrimento excessivo.
por Carlos Canarin (@ocanariocritico)
O monólogo “Na quinta dor”, protagonizado pela atriz Dora de Assis, foi o terceiro espetáculo da Mostra Novos Bifes. Nele, acompanhamos em tom autobiográfico a rotina da atriz, até que tudo vire de cabeça para baixo numa sequência de graves problemas de saúde devido a erros médicos e a demora por um diagnóstico certeiro que poderia ter evitado tudo aquilo. A atriz apresenta um bom desenvolvimento em cena e conduz a plateia como uma professora, mas seu desempenho poderia ser potencializado pela dramaturgia e pela encenação como um todo.
A dramaturgia, assinada também por Dora, inicia de uma forma frenética e com um andamento próximo do fluxo de pensamento, o que anda sendo uma característica de dramaturgias contemporâneas. Misturando fragmentos de histórias com uma interação bem evidente com a plateia, a primeira “fase” do texto é engraçado, envolvente e parece sinalizar para um ritmo bem cadenciado, especialmente pelas partes onde ela retrata seu cotidiano como professora de inglês. Mas, do meio para o final, o espetáculo dá uma volta em si mesmo, focando nas desventuras em série da atriz e sua luta para sobreviver em meio a tantos problemas de saúde.
O cenário se mostra apenas visual, sem outra função dentro do espetáculo, mesmo que em alguns momentos a atriz rasgue alguns dos sacos – o que acontece de uma forma um tanto tímida. Penso que uma maior utilização dos sacos plásticos pendurados pudesse dar uma outra dinâmica em cena, tanto de movimento, quanto de mudança no próprio cenário, que aumentaria e diversificaria o andamento da peça. A própria associação dos objetos com elementos hospitalares poderia ficar mais evidente, já que estão colocados de forma menos representativa.
Me incomoda a associação na peça entre a banalidade que as pessoas ao seu redor começam a comentar e a lidar com seus problemas de saúde e a violência de gênero, exposta num episódio de infância. Não acho que seja o mesmo lugar. Ainda, seria uma opção dramatúrgica aprofundar uma questão ou a outra, pois essa violência é posta de forma muito superficial na obra, sem um desenvolvimento digno de uma questão tão importante atualmente dentro de nossa sociedade.
No fim das contas, “Na quinta dor” não chega a um ponto específico, mesmo após tudo virar agonia e um sofrimento excessivo. Talvez o jogo no texto feito no começo pudesse ser continuado e extrapolado, mesmo trabalhando questões difíceis, que uma vez no teatro se transformam, inevitavelmente, em ficção. A última fala da atriz é para que, apesar de tudo, a diversão seja um objetivo – o que faz sentido se pensamos nos momentos em que ela frisa que mesmo em meio às dificuldades ela se encontrava rindo e brincando com tudo. Infelizmente me parece difícil que essa seja uma mensagem a ser difundida, pensando por exemplo em tantas pessoas que sequer sobrevivem em vários casos onde o direito à saúde é negado. Dores que muitas vezes, por não serem verbalizadas, tornam-se outras coisas piores. Enfim, acho que um leque imenso de opções é aberto, sem um diagnóstico e tratamento certeiros.

