Crítica Teatral
“Alumbramentos: quando a poesia ilumina a tragédia”
Leonardo Talarico analisa Alumbramentos e encontra um espetáculo de impressionante unidade artística, no qual cada elemento da cena contribui para narrar, com delicadeza e contundência, os impactos da exploração humana sobre a natureza e as comunidades ribeirinhas.
Foto: Laura Rios
Por Leonardo Talarico
Alumbramentos é um espetáculo sobre os severos impactos ambientais em um vilarejo ribeirinho (Vila de Tepequém – maior garimpo de diamantes da América do Sul – décadas de 40 a 60 e, por extensão, tantas outras ocorrências trágicas).
Antecede o espetáculo um corredor com seis telas pintadas a óleo por Rafael Prado como abertura imagética. As obras são relevantes, estéticas e introduzem a plateia ao tema.
Atravessar as onças no espaço estreito de observação e a emersão dos animais e humanos da terra em fusão até a lua promove compreensão antecedente à tragédia apresentada em cena após interferência humana.
A presente realização teatral possui inúmeros méritos. A dramaturgia de Fidelys Fraga e Clara Anido (assistência de dramaturgia) e a direção de Erika Retti contam a história de forma esclarecedora com articulação entre a realidade dos fatos e a extração simbólica. Tudo deságua em um importante encontro poético.
Erika Retti merece eloquentes elogios. A sua direção é talentosa e agrupa relevante afetividade (afetividade no sentido de bem esclarecer os sentimentos). O espetáculo é encantador. Há delicadezas impactantes, inovação diante presença ativa de um intérprete surdo e outro ouvinte contracenando com os demais atores, além da unidade artística (todos os operadores teatrais realizam o mesmo espetáculo).
Como diretor de teatro, conheço o peso debruçado nas costas. Seja pelo exercício direto da função, cujos elementos não são poucos, seja pelo alinhamento dos demais saberes cênicos. E a direção é brilhante.
No tocante ao elenco, é coeso, talentoso e entrega a contação da história de forma horizontal à plateia (quebra da quarta parede). Todos performam diante da “obra da vida” a ser contada em primeira pessoa.
Na interpretação, estamos diante do sistema “total artes” (diversos saberes técnicos utilizados na representação), inúmeros são os predicados oferecidos por cada um em cena. Destaque à vocalização (épica e lírica) e antropologia teatral (dilatação, assimetria, equivalência, energias mineral e vegetal, cintura escapular e pélvica).
As singelas diferenças técnicas entre os atores restam insignificantes tamanha força do conjunto para entregar (com êxito) o melhor para o público. Excelente trabalho de um relevante grupo de teatro (Grupo Moitará). Destaque para Gustavo Vieira que realiza uma interpretação admirável. Sobressalta o seu controle dinâmico da pausa, as imagens criadas através dos verbos mediante cirúrgicas expressões e um vocabulário físico muito bom.
Ao ler o release e descobrir ser o cenário e o figurino do mesmo profissional (Carlos Alberto Nunes) dei um suspiro de alegria. Duas pessoas não poderiam ter realizado tal proeza. Assim como a direção de Erika, é categoria de pessoa só. Carlos entrega todo o seu talento em dois elementos extremamente importantes. O cenário e o figurino são impecáveis. Na história contada e na imaginada. Poucas vezes vi um cenário e um figurino tão especiais a serviço da obra. Adoraria descrever tudo quanto posto e tudo quanto vestido, mas diante tamanha minúcia, eficácia e beleza seria um acinte da minha parte.
Aliás, Alumbramentos é espetáculo que não se elogia. Mandamos assistir e pronto. Por oportuno, cabe referência do excelente aproveitamento realizado pela direção dos referidos elementos. Cenário e figurino performam com destaque entre os atores.
Outro acontecimento da peça está no desenho de luz (Djalma Amaral). Todos os holofotes são precisos (como é bom olhar para cima e não encontrar uma infeliz lâmpada LED). Angulações, recortes, temporização, intensidade, gelatinas (cores) e deslocamentos para luz móvel (manipulação dos atores) irretocáveis. Tenho apenas uma singela observação. E a faço por respeito ao meu público, mas isso não altera minimamente tudo quanto dito. Entendo haver dois momentos de abertura de luz com intensidade maior da necessária ao espaço. Mas – novamente – nada reduz o extraordinário trabalho.
A direção de movimento caminha para o destino. É funcional, inventiva, simbólica e estética. Os atores aproveitam todo o espaço com categoria e bem contam a história. A ótima trilha sonora (músicas e demais elementos sonoros) de Caio Padilha pontua os instantes dramáticos, entrega ambiência e estimula a compreensão do todo.
A obra possui uma inquietude de se apresentar na filigrana (o rio, o ventilador, o piscar de luz e tantos demais). A interpretação de libras é ato de coragem e de uma beleza ímpar. Tamanha categoria da obra que em determinado momento um dos atores realiza a tradução de costas (sim, ator interpreta de costas no Teatro).
Por derradeiro, apenas última observação: muito obrigado pela cena da tinta a cair no balde.

