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Festival de Curitiba

Da Janela: quando a acessibilidade deixa de ser recurso e se torna linguagem

Da Janela se destaca não apenas pela temática, mas pela forma como a acessibilidade está integrada à própria dramaturgia, não como recurso à parte, mas como linguagem de cena. Há uma inteligência sensível nessa escolha.

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Foto: Annelize Tozetto

Por Vanessa Ricardo

Hoje em dia, felizmente, já não são poucos os espetáculos pensados para pessoas surdas e isso diz muito sobre os caminhos que o teatro vem escolhendo trilhar. Em Curitiba, por exemplo, a Mostra Surda se consolidou como um espaço fundamental, reunindo artistas de todo o país e propondo uma cena diversa, potente e necessária.

Neste ano, a curadoria do Guritiba, braço do Festival de Curitiba, também aponta para esse horizonte ao escolher obras que atravessam temas como o autismo e a experiência surda. É nesse contexto que chegam Azul, da Artesanal Cia de Teatro, e Da Janela, ambos do Rio de Janeiro.

Da Janela se destaca não apenas pela temática, mas pela forma como a acessibilidade está integrada à própria dramaturgia, não como recurso à parte, mas como linguagem de cena. Há uma inteligência sensível nessa escolha.

Com um cenário simples, funcional e bonito, assim como o figurino, o espetáculo aposta na potência da atuação. E que presente é esse elenco. Elizândra Souza, como Malu, conduz a narrativa com uma delicadeza que atravessa. Sua personagem, uma criança curiosa que deseja contar tudo o que vê, cria uma descrição poética da cena e guia o público de maneira direta e afetuosa. É uma presença que acolhe e convida.

Ao seu lado, a atriz surda Mariana Siciliano amplia as camadas de comunicação no palco, enquanto Thamires Ferreira, intérprete de Libras, rompe com o lugar tradicional da tradução isolada e passa a existir como personagem integrada, viva, em cena. Isso muda tudo.

Da Janela não apenas fala sobre acessibilidade, ele pratica. E, mais do que isso, aponta caminhos possíveis para o teatro infantil, mostrando que é viável (e urgente) criar experiências verdadeiramente inclusivas, pensadas para diferentes públicos desde a origem.

Fiquei pensando como seria se crianças surdas crescessem tendo acesso a espetáculos assim desde cedo. Provavelmente, a relação com o teatro e com o mundo seria outra, mais próxima, mais possível.

E uma boa notícia: para quem não conseguiu assistir, o espetáculo retorna a Curitiba ainda neste primeiro semestre, para três novas apresentações. Vale o encontro.

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