Crítica Teatral
A quebrada em “cabo enrolado” entrecruzando as ruas
A proposta dramatúrgica navega pelo cotidiano periférico da infância a um final (que pode ser recomeço também), sem cair nas imagens estereotipadas que comumente se criou para retratar essa espacialidade-símbolo como algo fixo e igual em todos os territórios.
Foto: Wes Barba
por Carlos Canarin (@ocanariocritico)
Chego ao último texto de espetáculos da Mostra Lúcia Camargo do Festival de Curitiba. Num balanço geral, noto a presença de muitos espetáculos feitos por companhias negras e/ou periféricas, especialmente (mas não somente) da região sudeste do país. Este também é o caso da peça “musicada” (digamos assim) “Cabo Enrolado”, protagonizada pelo ator Julio Lorosh com produção da Cia Graxa.
Julio não está sozinho em cena, e constato isso tanto pela presença de operadoras(es) e músicos ao seu redor, quanto pelas intervenções que o grupo faz em algumas cenas, intensificando a coletividade inerente do lugar onde se está falando. As vozes e corpos dessas outras “personagens” compõem uma coralidade que analisa, acolhe e questiona, numa construção que podemos interpretar como que a história de um sendo ao mesmo tempo a de muitas(os) outras(os), feita de sonhos, desejos, pressas e a tentativa de se equilibrar a todo instante pela estrada tão esburacada como é a vida.
A proposta dramatúrgica navega pelo cotidiano periférico da infância a um final (que pode ser recomeço também), sem cair nas imagens estereotipadas que comumente se criou para retratar essa espacialidade-símbolo como algo fixo e igual em todos os territórios. Penso que aqui a virada de chave seja falar da periferia através dos afetos. Seja com a mãe, a moto, a mulher ou o filho, o que move o protagonista são as urgências de conciliar suas “obrigações” enquanto criança, filho, homem e pai, suas relações afetivas e também suas próprias aspirações e desejos. E, mesmo com muito texto que poderia ser facilmente cortado (o que deixaria o espetáculo mais enxuto pela mensagem já ter sido dada em vários momentos), o trabalho consegue atingir tons muito bem afinados, seja pelo humor, seja pelo próprio drama. Uso drama sem querer entrar num lugar de coitadismo ou melodramático, mas pelo fato da exposição das dores que são inatas à existência, e por vezes adensadas por uma exclusão e marginalização de vários corpos em nossa sociedade.
Utilizo a palavra “musicado” no começo do texto pois existe a inserção de várias canções durante a peça, que servem também como dramaturgia e como transição em alguns momentos. Não se trata de um musical, porém. Percebo ainda que a plateia é de extrema importância para que o espetáculo possa se desenvolver, pois a atuação de Julio é muito direta e com muitas interações com quem assiste, tanto pelo texto dito olho-no-olho, como pela inserção de espectadoras(es) como personagens. Na sessão que assisti, uma senhora “interpretou” o interesse amoroso do personagem, o que arrancou várias risadas da plateia pelo incômodo/sensação-de-não-saber-o-que-fazer que isso acaba gerando. Mesmo com uma sensação de ser muito tempo de interação, penso que no saldo geral isso funciona bem para a proposta de encenação.
O que permanece enquanto reflexão para mim é a precarização do trabalho e consequentemente da vida dessas(es) trabalhadoras(es), como é o caso dos entregadores de aplicativo que acompanhamos na narrativa. Na urgência do debate pelo fim da escala 6×1 por exemplo, é urgente pensar como vidas são muitas vezes ceifadas muitas vezes pela urgência de cumprir um trabalho que não se interessa com sua saúde e existência, mas por cumprir metas e objetivos com rapidez. O puro suco do capitalismo, sim. E também o retrato mais egocêntrico e individualista de uma sociedade em queda livre.

