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Crítica Teatral

“Cartas” sobre quando pulamos corda com o fio do tempo

O espetáculo é bem amarrado, redondinho, feito sem deixar pontas soltas. Ele se resolve em si mesmo, e isso é uma dádiva. Cumpre seu papel de ser grande pelo simples, evitando apontar excessos que realmente não precisam

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Foto: Lelo Sasso

por Carlos Canarin (@ocanariocritico)    

Ontem, numa aula da graduação, eu debatia com a turma sobre como o teatro não é um lugar acolhedor, com perdão para os românticos que acham o contrário. Historicamente ele nunca foi, afinal foi sempre destinado e feito pelas elites, tirando os movimentos populares e também o que tem sido feito por populações minorizadas. Logo, o teatro enquanto instituição (e mesmo como linguagem) não é um lugar acolhedor ainda hoje. Pelo contrário: o vejo como um lugar de extrema disputa.

Esse romantismo que me refiro quanto à arte, embora seja por vezes um oxigênio para o existir e o fazer, é também prejudicial em certos momentos, especialmente quando falamos sobre contradições e pontos de tensão. Alguém levanta e pergunta: mas o teatro não pode mudar a realidade? Ah, sim, pode. Pode mudar alguma coisa, em algum momento. Mas normalmente um teatro feito por quem sempre o fez e o domina não muda nada, apenas faz a manutenção do status quo e acaba por afastar o que é diferente e dissonante.

Faço esse preâmbulo para então chegar num possível exemplo de como o teatro poderia ser de fato acolhedor, não no sentido romântico, mas pelo sentido de acolher outras narrativas e existências, resultando num acolhimento causal de outros públicos que dificilmente se veem representados numa peça tradicional feita nos palcos de Curitiba. É o caso de “Revisitando a grandeza que somos: Cartas para Tereza de Benguela”, espetáculo da Omi Produções que faz temporada no Zé Maria.

A peça busca entrecruzar a história da líder quilombola com a trajetória das próprias atrizes, criando um embaraço com as linhas do tempo. As narrativas se misturam, como se fossem continuação umas das outras. Embora não explique exatamente quem foi tal personalidade negra (apagada das histórias oficiais), o foco talvez seja em celebrar esses encontros entre mulheres negras e a resistência que habita no afeto, tendo como “pano de fundo” a presença de Benguela.

O espetáculo é bem amarrado, redondinho, feito sem deixar pontas soltas. Ele se resolve em si mesmo, e isso é uma dádiva. Cumpre seu papel de ser grande pelo simples, evitando apontar excessos que realmente não precisam. Não tenta ser megalomaníaco ou explorar uma linguagem rebuscada, fincando sua mensagem num tempo de duração excelente e sem cometer deslizes que prejudicariam a performance. Aliás: Flávia Imirene e Sol do Rosário se complementam lindamente. Brincam, falam sério, debocham, se emocionam. Numa atuação mais intimista, sem floreios ou tentativas de ser outra pessoa. São elas, simplesmente. E sustentam essa posição do início ao fim.

Os destaques também vão para Nando Zâmbia pela iluminação (o que é aquele artefato que Sol do Rosário carrega quando chega em cena?!), ponto certeiro e imprescindível para as afrografias das atrizes dançarem; e para Carla Torres (figurino) e Kênia Coqueiro (caracterização) pela composição realizada, saindo do usual que normalmente se espera num imaginário pré-estabelecido e produzindo imagens positivas e de beleza para o corpo negro.

Se eu pudesse opinar mais um pouco, apenas falaria que o espetáculo poderia ser menos didático em certos momentos do texto, especialmente pelo discurso relacionado às identidades, pois por pouco cairiam num lugar comum, mesmo carregando mensagens importantes. As memórias, cantos e a própria presença das atrizes já comunicam isso, mas em outro lugar. Um lugar mais poético e singular pela simplicidade proposta ~ lugar onde mora o pulo do gato nessa obra, um pulo bem executado.

É um ótimo acerto do grupo, e espero poder assistir outros trabalhos assim que possível. 

 

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