Teatro
Morra, amor
“Morra, amor” é um espetáculo realizado com esmero por todos envolvidos e cuja função social é indisfarçável.
Foto: Nana Moraes
Por Leonardo Talarico
Fui convidado para assistir ao espetáculo “Morra, amor” no Teatro Total Energies, no Rio de Janeiro.
O espetáculo foi adaptado pela escritora argentina Ariana Harwicz do seu próprio romance homônimo.
A obra relata a crise existencial de uma mulher isolada. A rotina doméstica, as especificidades da recente maternidade e aalteração do sentido do seu casamento após mudar para uma região isolada no interior da França com o seu marido e o filho bebê
A obra abre novos significados à maternidade, retrataimpulsos, obsessões e conflitos internos. Revela uma profundacrise de afetividade, retrata as imposições e expectativas sobre o comportamento feminino diante da maternidade, do casamento e da própria condição da mulher dentro de uma estrutura social desgastada e forjada por uma aparente normalidade.
É uma quebra latente às exigências normalizadas em relação ao “devido” caminho feminino dentro das relações interpessoais e próprias.
Necessário reconhecer, por outro turno, o colapso cognitivo pessoal decorrente da contrariedade à imposição causada pelosistema de expectativas vigente de forma global.
Um contraponto entre o estado social versus o estado primitivopor meio de uma comunicação ácida e bem-humorada. A autora e adaptadora Ariana Harwicz (com pertencimento)realizou excelente adaptação. Impôs cirúrgico enquadramento teatral, ritmo e pausas indispensáveis à compreensão das sutilezas extraídas da sua literatura. A obra original restou intacta nas suas virtudes e pretensões.
Victor Garcia Peralta, diretor do espetáculo, deixa o texto fluir e aplica à personagem e ao espetáculo minimalismo necessário à retenção de todas as ocorrências. Encontra o tempo correto da vida em cena.
Há tantas sutilezas presentes na travessia que um deslize retiraria o foco do público. A unidade de todos os saberes teatrais presentes na obra é outro grande acerto de Peralta. Tudo está posto na mesma linguagem, sensibilidade e harmonia.
Nigga, na direção musical e músico em cena, cria uma cama de atmosfera congruente com o clima necessário ao esclarecimento. E tudo é realizado com destacada execução.
Vanessa Garcia, assistente de direção e responsável pela direção de movimento, coloca a personagem nos lugares certos, sem desvios ou concessões ao entretenimento. A protagonista caminha para o seu destino. Seusposicionamentos dentro de todos esses conflitos estão bemdelineados.
O desenho de luz de Maneco Quinderé é correto não apenas nos preceitos básicos da iluminação cênica (angulação, temperatura e temporização) como “estica a luz” (fumaça) promovendo funções simbólicas reflexivas e abruptas da personagem no contingente reprimido e deflagrado das suas emoções. As aberturas de cenas e os focos mais dramáticos são pertinentes e muito auxiliam a contação da história.
O cenário de Aurora dos Campos é simples, funcional e estético. Não é inventivo e surpreendente, mas se fixa como um quadro de faixas pintadas conhecidas e deixa o movimento ocorrer no seu interior por meio da interpretação.
O figurino de Karen Brusttolin é verdadeiro traje de cena. Corte teatral, estético e atua como residência às inquietudes da personagem. A roupa ressalta (fisicamente) a fluidez dos pensamentos. Ao mesmo tempo, pesa. Articula no tecido e movimento as energias mineral e vegetal da Antropologia Teatral.
O visagismo de Rose Verçosa atua com a sabedoria do essencialismo. Reforça as intenções e a própria dramaturgia.
Mariana Santos horizontaliza sua interpretação colocando-a em um conjunto de pensamentos represados a ser dividido intimamente com a plateia. Trabalha com sabedoria o sarcasmo e o humor impondo maior relevância às circunstâncias por contraste. Utiliza a quebra de expectativa para demonstrar o desconforto da imposição social e presta um serviço ao expor todas as afetividades (sentimentos) da personagem de maneira concreta e diluída em compreensões e culpa, ausente mínimo subterfúgio dos pontos comuns. Apresenta suas dores em lugares nobres e enfrenta pausas e movimentos com sabedoria. Sua voz marcante de outros trabalhos é imediatamente absorvida por suas reflexões nos verbos capazes de gerar imagens à excelente execução. Mariana Santos realiza um ótimo trabalho artístico.
“Morra, amor” é um espetáculo realizado com esmero por todos envolvidos e cuja função social é indisfarçável.

