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Crítica Teatral

Gilda Elisa e a urgência de estar viva: uma resenha de Vida Útil

Dirigido por Igor Augustho, solo abriu a 5ª Mostra Claudete Pereira Jorge com uma reflexão sobre envelhecimento, memória, finitude e a possibilidade de inventar novos futuros.

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Por Bruna Bazzo

Assisti a Vida Útil pela segunda vez. E, novamente, saí com a sensação de ter presenciado algo gigante. Aos 70 anos, depois de uma década afastada dos palcos, Gilda Elisa retorna sem esconder as marcas do tempo, as dores do corpo e as inquietações de quem sabe que a vida é finita. Não está ali para fingir que nada mudou, mas para fazer da própria existência o motor da criação.

Dirigido por Igor Augustho, o espetáculo transforma experiências íntimas em matéria de cena. Gilda faz do próprio corpo, com suas mudanças e limites, um território de investigação. Há humor no desconforto e beleza na imperfeição. A peça provoca uma pergunta: como seguir desejando, criando e ocupando espaço quando o tempo também nos impõe perdas?

A reflexão alcança uma sociedade que insiste em associar valor à juventude, à beleza e à produtividade. Como reivindicar espaço quando a idade parece exigir justificativas para continuar existindo? Gilda encara essas contradições sem oferecer respostas fáceis. É engraçada e dolorida, frágil e incisiva, cansada e brilhante. Sua potência está em não permitir que a exaustão seja a última palavra.

Gilda conversa com o público, olha nos olhos, entrega fotografias e cria uma intimidade que atravessa a fronteira entre palco e plateia. Há uma nostalgia bonita nesse gesto de compartilhar imagens e fragmentos de uma vida. Em um cenário simples, objetos como os cigarros, os óculos, a bengala e a bota de bruxa entram no jogo cênico. Gilda experimenta, provoca, mexe nas coisas, joga tudo no chão e faz bagunça. Nesse gesto de desarrumar o espaço, vejo também a possibilidade de romper com o que está posto. Quebrar, desorganizar, experimentar: talvez seja preciso mexer nas estruturas para imaginar outros futuros.

O público é recebido ao som de Nada Será Como Antes, na voz de Elis Regina. A escolha da canção parece anunciar uma das inquietações que atravessam o espetáculo: nada permanece exatamente como era. Entre fotografias, registros de voz e fragmentos de uma antiga reportagem sobre atrizes do teatro paranaense, a história de Gilda se cruza com a memória coletiva. O passado ganha corpo no presente, enquanto a cena abre espaço para aquilo que ainda pode mudar.

Na abertura da Mostra Clau, essa dimensão ganha um significado particular. Amiga íntima de Claudete Pereira Jorge e madrinha de Helena, filha de Claudete e Nautilio Portela, Gilda carrega laços de afeto que atravessam gerações do teatro curitibano. Em uma peça que olha para a morte e para aquilo que permanece, essas memórias também encontram lugar em cena.

Vida Útil é um solo de Gilda Elisa, construído por muitas mãos. Em momentos da encenação, a intérprete de Libras Talita Grünhagen interage com Gilda em gestos, abraços, mãos dadas e movimentos compartilhados, em diálogo com a direção de movimento de Vanessa Vieira. Na produção de Juliana Takenaka, tudo é conduzido com delicadeza e atenção. A iluminação de Tay Siqueira e o trabalho de som de Jô Mistinguett dão volume e profundidade à cena.

Conheci Gilda nos encontros que a vida cultural de Curitiba proporciona. Em uma dessas ocasiões, ela me disse: “Gosto do seu humor”. Guardo com carinho e, desde então, quando a encontro, adoro perguntar: “Tá boa?”. Só pra ouvir ela responder: “Boa… Boa eu nunca fui, mas tô bem.” E dá risada.

É impossível não lembrar dessa resposta diante de Vida Útil. Gilda faz humor sem negar as dores e não esconde as fragilidades. Vê-la em cena é reencontrar essa mulher que brinca, provoca e segue ocupando o mundo à sua maneira. Em Vida Útil, ela é bárbara. Transforma experiência em presença, humor, pensamento e teatro. É gigante.

No fim, Gilda canta Hoje, de Taiguara. Depois de falar sobre o corpo, as ausências e a morte, a canção concentra a emoção construída ao longo do espetáculo. Então, o escuro. E o som dos aplausos de uma plateia lotada, emocionada. Quando a luz acende a gente vê os olhos marejados de quem deixa o teatro.

A dramaturgia nos lembra que não há nada mais poderoso do que o aqui e o agora. O instante acontece uma única vez. O tempo passa, e aquilo que termina não volta. Diante de Gilda, essa ideia deixa de ser abstrata: está no corpo, na voz, no humor e na presença de uma mulher que continua criando.

Na Mostra Clau, o espetáculo teve uma minitemporada de apenas duas apresentações. Fico torcendo para que ganhe novos palcos e uma temporada mais longa, para que mais pessoas possam assistir a Gilda Elisa em cena.

Quem decide quando uma vida deixa de ser útil? E útil para quem?

Se Fernanda Torres nos lembra que a vida presta, Gilda Elisa nos faz sentir que a vida é útil.

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