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Crítica Teatral

TURVA SÃO AS FRONTEIRAS

Talvez o assunto sutil da peça seja um medo de todos e não só de um tipo de história. Talvez o esforço então seja recordar Belchior e seu brado de que “o novo sempre vem”.

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Por gabriel m barros

A peça acontece no Sesc Vila Mariana, mas em um espaço que eu desconhecia. Sexto andar do prédio B. Espaço amplo. O público toma seu lugar. Há uma cadeira na boca de cena. Não toca terceiro sinal. O músico, Pedro Nego, entra para realizar a música em cena e em seguida Matheus Macena aparece ao fundo. Milimetricamente caminha até a cena, se vira, vai até a cadeira e se senta. Começou a peça. Só que não: Macena se apresenta e estabelece três comunicados com o público. Assim, singelamente, tornou turva as fronteiras entre real e encenação. Quando pensávamos que havia começado, ele estabelece um contato inicial. Apresenta três pontos: um deles liberta público e ator: pode-se sair da sala quando precisar. Parece banal, e é, só que isso já criou um espaço de cumplicidade entre quem está em cena e quem está assistindo. Tratou o público como público, não sacro, não profano, humano somente. 

Outro combinado foi que não daria nenhum recado final, enfatizou que a própria peça era o recado. Não diria então o @ da peça, @edson.espetaculo. Que bom que a escolha foi deixar a peça ressoando após os aplausos. E assim, enquanto prestava os recados, começa a peça. Turva é essa fronteira e a primeira palavra da peça, que obviamente fora dita com as ações muito antes de ser enunciado. E começo o monólogo apresentando a dificuldade de começar um monólogo, com qual palavra começar. Se fins e começos são complexos, Matheus havia equacionado o fim e gritou o início, que, turva que é, já tinha começado. 

A minha insistência na Turva é que ela é uma personagem da peça. Na realidade, a história que será contada é a de Edson, que se sabe muito pouco, apenas que fora morto em um protesto estudantil em 1968, no Rio de Janeiro e carregado até as escadarias da Assembleia por outros estudantes. Nessas histórias que se fazem pesadas pelo seu contexto, o pouco que se sabe de Edson é sobre seu fim. Macena turva apenas isso e decide contar e ficcionalizar a realidade. É ele o dramaturgo, diretor e ator dessa montagem. 

Pra contar essa ficção o corpo e a voz são os objetos por excelência. Ainda que se use um boneco ventríloquo – num dos momentos inteligentíssimos da encenação e que conta com a voz, sobretudo , também se use um trapézio, ou se conte com a iluminação excelente do Gabriel Pietro  que realmente constroem cenas belíssimas , ainda é na voz e no corpo que o espetáculo se assenta. Com cenografia de Bidi Bujnowski, Matheus Macena faz um espetáculo digno desse nome. É teatro que se faz poesia, que se faz força, que se faz invenção, vida, encantamento, mas, principalmente, teatro. Que se pensa teatro e se constrói com essa força. Não teme brincar com lugares comuns do teatro, nem de também bagunça-los, e investe no que é mais poderoso que é o contar a história de seres reais para outros seres reais. 

De saída se sabe da tragédia que acomete essa história e no exercício de imaginar o que vem antes, há também tragédia, também dor, e, ainda assim, momentos de extrema beleza, como quando se reitera que só se conta a história de quem se ama. E é possível amar quem não se conhece, sair apaixonado por Edson, por Turva, por Virgínia (com acento agudo em um dos Is), por Bento, pelo Aguinaldo não tanto, mas em parte o compreendendo. 

Queria ressaltar a boniteza do repertório musical. Infelizmente a temporada está encerrando, mas sobre ela nada digo, para que tenham a surpresa de ver pessoalmente a delicadeza da voz de Macena para canções tão populares entre nós, brasileiros.

A peça ainda trata de um assunto na sutileza: o quando histórias marcadas pela violência temem a novidade. É reiterada uma frase, que talvez eu não reproduza fidedignamente, de que uma nova luz é tão assustadora quanto a escuridão. Em todo caso, mesmo temendo, esses clarões acontecem. A escuridão também se repete. Viver é susto. Talvez o assunto sutil da peça seja um medo de todos e não só de um tipo de história. Talvez o esforço então seja recordar Belchior e seu brado de que “o novo sempre vem”. 

Edson, assim, é uma nova luz sobre um fazer antiguíssimo dos humanos. Lembrar os nossos, inventar e encenar. Nisso tudo, Matheus Macena já descobriu como fazer com um encanto todo dele, ao mesmo tempo em que turva tudo e constrói uma paisagem toda nova.  

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