Crítica Teatral
Epifanias no transbordar
Se o podcast hoje é uma linguagem que alguns já tomam como saturada, me parece que o Núcleo Bartolomeu apostou nessa própria satura como algo que transborda e é aí, nesse transbordar, nos elementos outros que trazem, nas próprias questões e em como elas são formuladas, que epifanias vão acontecendo
Foto: Sérgio Silva
Por gabriel m. barros
Não sou do tipo que dedica tempo a podcasts. É uma moda, tem sua força e importância, mas não é um gênero que me atraí. Ao mesmo tempo que, em épocas de graduação e nos primeiros anos que iniciei como docente, eu baixava palestras do Youtube para mp3 e ia ouvindo no meu celular. Podcast antes do tempo, talvez. Mas a ideia é distinta, era só alguém elucubrando durante um tempo e depois abrindo para perguntas. Academicismo que eu, particularmente curto.
Inicio dessa forma, para sinalizar que semana passada acabei lidando com dois podcasts ao vivo, ou pela mudança do próprio formato já deixaram de o ser, talvez: O primeiro do pessoal do Calma Urgente, n’A Feira do Livro, e a outra foi assistir à peça podcast do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Cartas para um tempo que não é agora.
A peça se constrói como resultado final da residência artística que o grupo teve desde fevereiro no Instituto Capobianco, região central de São Paulo, contando com a apresentação e atuação de Eugênio Lima e Luaa Gabanini, sendo também participes da concepção, roteiro e direção ainda juntos de Claudia Schapira e Roberta Estrela D’Alva. A cada sessão do espetáculo há um convidado. Na sessão em que estive, a convidada foi Georgette Fadel.
De fato, a montagem tem todos os moldes de um podcast com o acréscimo de uma plateia. De pronto, o texto centra seu olhar para o futuro, ao mesmo tempo que, da forma habitual do Núcleo, perpassam pelo tema da memória, criando constantemente o elo entre ontem, agora e amanhã, nessa estreiteza daqueles que compreendem que passado e futuro são irmãos amparados pelas mãos do presente, ou que sustentam esse presente meio caduco e capenga para que não esmoreça.
Nesse sentido, apesar do movimento hercúleo de sempre ter alguém diferente como entrevistado, ainda assim, a narrativa não é reestruturada pelo que é dito por essa pessoa, é como se fosse apenas um pontapé para que chegassem nessas memórias do próprio grupo. Isso significa, do meu ponto de vista, que o experimento não quis ir ao seu limite, de inclusive a própria dramaturgia sofrer abalos profundos com aquilo que a pessoa entrevistada colocasse no debate. Ainda assim, é muito interessante o quanto a fala da convidada, no caso em que assisti, provoca fissuras, no bom sentido, constrói veredas e abre horizontes distintos.
De qualquer forma, as próprias escolhas de quais memórias revisitarem também é bem acertada e interessante: mesclando músicas que marcaram o grupo, bem como com vídeos de outros textos que foram apresentados por eles, é instigante perceber como o mesmo texto agora aplicado em outro contexto, numa outra narrativa, ganha novas conotações e abre novos caminhos.
Além disso, há dois vídeos que são meio que anúncios de propagandas antes de um vídeo do youtube iniciar (aquele que normalmente pulamos), feito com IA, e que é interessantíssimo como de forma sutil o grupo coloca essa discussão do amor e do futuro enquanto mercadoria.
Se o podcast hoje é uma linguagem que alguns já tomam como saturada, me parece que o Núcleo Bartolomeu apostou nessa própria saturação como algo que transborda e é aí, nesse transbordar, nos elementos outros que trazem, nas próprias questões e em como elas são formuladas, que epifanias vão acontecendo.
Ainda que a dramaturgia não vá ao limite de se transmutar a partir da pessoa que está sendo entrevistada, ainda assim, várias são as epifanias que acontecem ali. Dessa narrativa destaco o momento que retomam Cassandra, todo o arco dessa cena e do vídeo que a fecha é fabuloso!
Ao fim e ao cabo, é uma peça para se assistir com um caderno para anotar ótimas ideias que vão surgindo dessa conversa e das histórias reimaginadas, nessa longa carta que criam em cena.

