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Crítica Teatral

Ei-la

Clarice segue nos abalando, desafiando nosso entendimento sobre quem somos. Que bom que Beth Goulart se propôs a nos encantar.

Publicado

em

gabriel m. barros

 

​Sobre Clarice Lispector vários interlocutores já registraram coisas primorosas. Beatriz Azevedo e Moreno Veloso usam a aliteração Clarice Clarão, para denomina-la. Tom Zé compôs uma das suas canções mais bonitas pensando nela, iniciando com esse verso que diz muito “Carece Clarice esclarecer”. Uso esses dois exemplos para registrar: Clarice dá uma direção. 

​É essa personagem, profundamente emblemática e inquietante da nossa literatura e da nossa cultura, que é levada aos palcos na peça Simplesmente eu, Clarice Lispector, em cartaz no Teatro Moise Safra, região da Barra Funda, até o dia 30 de agosto, interpretado de forma virtuosa e comovente pela consagrada atriz Beth Goulart. 

​Ao contrário do que se possa imaginar a peça não é sobre a vida da escritora, ou melhor, não é a sua biografia, mas de alguns trechos de sua trajetória, alguns esclarecimentos sobre o que a levou para a escrita, mesclando com alguns de seus contos e grandes dilemas que aparecem em suas obras, que tomam um ar confessional. Nesse sentido, o trabalho de Goulart, na construção da dramaturgia e de costurar os vários textos, não é só muito bem feito, mas demonstra um apreço pela obra no seu todo, com excelentes recortes das entrevistas e textos de Clarice. 

​ Os textos de Lispector não são fáceis, uma vez que elucidam um caminho, que é em si, para dentro de nós. Dar corpo a isso é desafiador e corajoso. Nesse sentido, Beth Goulart é primorosa nesse fazer. Com elegância, para aqueles que já viram vídeos da Clarice, o que se tem nos palcos não é uma cópia da escritora, mas sim a proeza de nos convencer de que é a própria. Ademais, como dá vida a outras personagens, Beth também se metamorfoseia, dança, e ocupa com grande beleza os palcos. Um dos momentos mais bonitos e cativantes é quando canta o Salmo 23. 

​Tenho pra mim que ninguém passa incólume do contato com a obra de Lispector. Ela adensa o entendimento sobre nós próprios. Levá-la aos palcos é sempre um exercício ousado, que pode ser perigoso, perder sua coerência e até cair num quê caricato e que tira toda a surpresa selvagem de suas obras. Aqui, neste espetáculo, o que se vê é uma execução efetiva, provocativa e, sobretudo, bonita. 

Clarice segue nos abalando, desafiando nosso entendimento sobre quem somos. Que bom que Beth Goulart se propôs a nos encantar.

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